
Para ajudar famílias a enfrentar o choque energético, o governo espanhol – um governo de esquerda, por oposição ao terceiro executivo Costa, cada vez mais próximo do macronismo, sobretudo na forma como se alimenta da extrema-direita – decidiu reduzir o IVA do gás de 21% para 5%. Como de resto já tinha feito com o IVA da electricidade. Por cá, nada de novo. A inflacção galopa e pouco ou nada é feito para mitigar os seus efeitos. Costa devia pôr os olhinhos no seu camarada Sánchez. Acontece que os portugueses decidiram passar-lhe um cheque em branco, no início deste ano, e agora, como diz o outro, é lidar.






1) Diminuir o IVA não compensa grandemente os efeitos do aumento de preço. O IVA é de 23%, que é muito menos do que os aumentos de preço que se têm registado e que estão previstos.
2) Qualquer subida do preço incentiva as pessoas a poupar. Pretender evitar os aumentos dos preços vai incentivar as pessoas a continuarem a gastar sem rebuço.
E, no entanto, não poupam. Estranho, será que há alguma característica diferente inerente à energia? Bem, o sensato é esperar que a mesma crise aconteça à comida, ou quem sabe à água. Não é que haja exemplos históricos de como é que isso acaba ou coisa do género.
“Qualquer subida do preço incentiva as pessoas a poupar. ”
Mas poupar onde?
Se alguém precisar de usar o carro, não tiver alternativas, e a gasolina aumentar, duvido que corte nas viagens. Poupa é noutras coisas… tipo comida.
Subindo a electricidade, as pessoas passam a ficar às escuras para “poupar”, é isso? E não venham com tangas da torneira a pingar e de apagar a luz na divisão quando se sai, os grandes consumidores de electricidade são electrodomésticos (se calhar desliga-se o frigorífico para poupar), e aquecimento (se for a electricidade). Ok, é trocar o aquecedor pela mantinha… a televisão pela caminha (livros não, que exige luz).
PS: afinal o PS já não é da esquerda?
Se alguém precisar de usar o carro, não tiver alternativas
Tem em geral a alternativa de mudar para uma casa mais perto do emprego, ou para um emprego mais perto de casa.
A maior parte das pessoas desconsidera essas alternativas porque as considera desgradáveis. Mas elas existem. Não me venham com conversas.
Conheço uma pessoa que mora no Barreiro e decidiu, conscientemente, trabalhar em Cascais. Outra que mora em Sesimbra e deciciu, por vontade própria, trabalhar em Sintra. Ambas elas tinham e têm alternativas. Se não optam pelas alternativas é porque preferem continuar a tolerar o alto preço do gasóleo.
“Tem em geral a alternativa de mudar para uma casa mais perto do emprego, ou para um emprego mais perto de casa.”
Claro que têm. Também podem, caso não encontrem emprego perto de casa, demitir-se. É um país livre. Ou podem sempre morar na rua.
Eu conheço uma pessoa que trabalhava em Algés perto da estação e morava em Alcântara. Logo, só não mora a 5 minutos do trabalho quem não quer (é assim que funcionam as induções?).
Luís Lavoura deve seguramente viver num mundo paralelo, o tal que diz que só não trabalha quem não quer, como se todos fossem trabalhar como serventes de obras ou empregadas de limpeza, quaisquer que sejam as qualificações e competências profissionais. Bem, isso já acontece com pessoal habilitado com um curso superior empregando-se como caixas nas grandes superfícies comerciais! Ou os electricistas de automóveis procurarem trabalho como, sei lá, radiologistas ou qu químico-analistas, por exemplo?!
O lavoura deve viver no mesmo mundo do Centeno.
No Banco de Portugal há uma porta secreta para lá. Fica no fundo do WC do gabinete do governador, mesmo ao lado da sanita.
Entre as pessoas qualificadas há agora até quem mude de emprego porque no emprego antigo não a deixavam fazer teletrabalho.
Atualmente, com o baixíssimo desemprego que há, mudar de emprego é relativamente fácil.
Obviamente existem. Mas mesmo essas provavelmente estão na dúvida se a coisa dura e é estável. É que não sai barato nem é simples.
Inspecções e reparações, quanto mais não seja porque o mercado não perdoa; organizar e efectuar a mudança (com ou sem terceiros a receber); tempo a procurar casas e negociar contractos; impostos e comissões; mobiliário e acessórios novos (muito não vai ter as medidas certas); …
Isto com dinheiro, tempo, e flexibilidade, que nem o patrão nem a descendência, se existir, permitem com muita facilidade. Tudo, repito, se arriscar a repetir ao fim de 6 meses experimentais, se tiver tanta segurança, a bem da ideologia que fica bem no papel.
Obviamente que sim, então se for um casal a probabilidade de ambos terem emprego perto de casa é ainda menor.
Também é óbvio que para o Lavoura a questão da mobilidade se reduz à área metropolitana de Lisboa, tudo o resto não existe.
Negociados são contratos, contractos podem ser os salários.
Quando até o Arroja Que Se Aguenta (IL), filho do Arroja Intragável (CH), elogiou as medidas do Governo espanhol. Mas o Lavoura… o Lavoura não! Com o Lavoura não fazem farinha, apesar da lavoura!
O Ricardo Arroja tem o direito de ter a opinião que quiser. Eu tenho o direito de ter opinião distinta. O facto de sermos ambos do mesmo partido não nos obriga a ter ambos a mesma opinião.
Aliás, eu sei perfeitamente que, em relação a alguns assuntos, tenho opinião radicalmente diferente das do Ricardo Arroja.
Parafraseaste o Bruninho? 🤔
Então não faz? Mantém tudo na mesma para que entrem em funcionamento os mecanismos europeus para lidar com crises, despedimentos e falências, vulgarmente chamados de ajustamento interno ou contas certas, para permitir oportunidades de investimento ao grande capital. Não vai querer que vivamos acima das nossas possibilidades de bons alunos e assustar os investidores que a SEDES jura que à quarta década é de vez, pois não?
Há muitas formas de poupar energia. Se as pessoas precisarem mesmo de poupar, podem adotar algumas delas. Por exemplo:
(1) Fechar a porta da rua. A maior parte das lojas portuguesas acham que uma loja estar aberta significa que a porta da rua está aberta. No estrangeiro não é assim: a loja está aberta, mas a porta está fechada (e geralmente é uma porta bem pesada, que custa a abrir).
(2) Calafetar portas e janelas.
(3) Baixar o nível do aquecimento, usando mais roupa.
(4) Passar o dia em divisões da casa expostas a sul, fechando as viradas a norte (mesmo que as divisões viradas a sul não sejam aquelas em que normalmente se passaria o dia).
(5) Cozinhar com as panelas e tachos tapados.
(6) Tomar menos banhos, e com água menos quente. Tomar banhos curtos.
Eu sei que muitas destas e doutras formas de poupar energia contrariam hábitos enraizados e nalguns casos até preconceitos culturais. Mas nem por isso deixam de ser válidos.
É verdade. Mas não resolve.
Pois não. Mas baixar o IVA também não resolve. Uma baixa de 23% não chega para compensar um aumento de 100%.
Precisava de fazer as contas, mas parece-me que resolvia mais. E sendo o maior para particulares o aquecimento, eu ficava na dúvida para boa parte dos portugueses, que aquecimento?
Eu vivi para o dia em que algum neo-liberal/ultra-liberal, fosse meter os pés pelas mãos. Aconteceu hoje. Ricardo Arroja, da IL, descaiu-se e decidiu assumir que as medidas que o Governo espanhol tem adoptado para mitigar os efeitos da inflação, são as que melhor servem as pessoas.
Quando até um IL reconhece o óbvio… mas o partido não-socialista com socialista no nome não… a coisa fica confusa.
E touché, Johnny!: “(…) por oposição ao terceiro executivo Costa, cada vez mais próximo do macronismo (…)”.
Sim, mas não foi o único neo-liberal a meter as mãos pelos pés. O Centeno também meteu, mas em sentido contrário…
E o contorcionismo do Arroja foi tudo menos arrojado. Baixar impostos é, desde sempre, a receita liberal. Qualquer pretexto serve.
Ricardo Arroja, da IL, decidiu assumir que as medidas que o Governo espanhol tem adoptado para mitigar os efeitos da inflação, são as que melhor servem as pessoas.
É natural. A IL, para todos os problemas e mais alguns, recomenda a descida de impostos.
Mas não, não servem as pessoas, porque o aumento que se verifica do preço da energia é muito superior a qualquer imposto. Não é descer um imposto de 23% que vai remediar um aumento de 100%.
A IL aproveita todos os problemas que surjam para, opostunisticamente, pedir para os impostos descerem.
Já quanto ao efeito, é apenas o mercado a funcionar de acordo com as regras tal como escritas. É uma pena não termos esquerda, ou até conservadores, senão podia ser que nos informassem do total absurdo que é um mercado desenhado para explodir os preços em caso de escassez.
https://diem25.org/time-blow-electricity-markets/