Conflito Hamas-Israel: um raro momento de sensatez

O Hamas lançou-nos uma armadilha, e esta armadilha é de máxima horripilação, de máxima crueldade. E assim, há o risco de uma escalada militar, de mais intervenções militares, como se pudéssemos resolver um problema tão sério quanto a questão palestiniana com exércitos.

Existe também uma segunda grande armadilha, que é a do ocidentalismo. Encontrámo-nos encurralados, com Israel, neste bloco ocidental que hoje está a ser desafiado pela maioria da comunidade internacional.

[Apresentadora: O que é o ocidentalismo?]

O ocidentalismo é a ideia de que o Ocidente, que geriu os assuntos mundiais durante cinco séculos, poderá continuar a fazê-lo silenciosamente. E podemos claramente ver, mesmo nos debates da classe política francesa, que existe a ideia de que, perante o que está a acontecer actualmente no Médio Oriente, devemos continuar a lutar ainda mais, em direcção ao que poderá assemelhar-se a uma guerra religiosa ou civilizacional. Ou seja, isolar-nos ainda mais no palco internacional.

Este não é o caminho, especialmente porque existe uma terceira armadilha, que é a do moralismo. E aqui temos de alguma forma a prova, através do que está a acontecer na Ucrânia e no Médio Oriente, deste duplo padrão que é denunciado em todo o mundo, incluindo nas últimas semanas, quando viajo para África, o Médio Oriente ou a América Latina. A crítica é sempre a mesma: vejam como as populações civis são tratadas em Gaza, denuncia-se o que aconteceu na Ucrânia, e é-se muito tímido perante a tragédia que se desenrola em Gaza.

Considere o direito internacional, a segunda crítica feita pelo Sul global.

Sancionamos a Rússia quando ela agride a Ucrânia, sancionamos a Rússia quando ela não respeita as resoluções das Nações Unidas, e há 70 anos que as resoluções das Nações Unidas são votadas em vão e Israel não as respeita.

[Apresentadora: Acredita que os ocidentais são actualmente culpados de arrogância?]

Os ocidentais precisam de abrir os olhos para a extensão do drama histórico que está a acontecer diante de nós para encontrar as respostas certas.

[Apresentadora: Qual é o drama histórico? Quero dizer, estamos a falar principalmente da tragédia de 7 de Outubro, certo?]

Claro, existem esses horrores a acontecer, mas a forma de responder a eles é crucial. Vamos matar o futuro ao encontrar respostas erradas…

[Apresentadora: Matar o futuro?]

Matar o futuro, sim! Porquê?

[Apresentadora: Mas quem está a matar quem?]

Estamos num jogo de causas e efeitos. Perante a tragédia da História, não podemos adoptar esta grelha analítica de ‘cadeia de causalidade’, simplesmente porque, se o fizermos, não podemos escapar dela. Quando compreendermos que existe uma armadilha, quando percebermos que por trás desta armadilha também houve uma mudança no Médio Oriente em relação à questão palestiniana… A situação hoje é profundamente diferente [do que era no passado]. A causa palestiniana era uma causa política e secular. Hoje enfrentamos uma causa islamista, liderada pelo Hamas. Obviamente, este tipo de causa é absoluta e não permite qualquer forma de negociação. Do lado israelita, também houve um desenvolvimento. O sionismo era secular e político, defendido por Theodor Herzl no final do século XIX. Hoje em dia, tornou-se em grande parte messiânico, bíblico. Isso significa que eles também não querem comprometer-se, e tudo o que o governo de extrema-direita israelita faz, continuando a encorajar a colonização, obviamente torna as coisas piores, incluindo desde 7 de Outubro. Assim, neste contexto, compreenda que já estamos nesta região a enfrentar um problema que parece profundamente insolúvel.

A isso acresce o endurecimento dos Estados. Diplomaticamente, olhe para as declarações do Rei da Jordânia, não são as mesmas de há seis meses. Olhe para as declarações de Erdogan na Turquia.

[Apresentadora: Precisamente, são declarações extremamente duras…]

Extremamente preocupantes. Porquê? Porque se a causa palestiniana, a questão palestiniana, não foi trazida para o primeiro plano, não foi colocada em destaque [por algum tempo], e se a maioria dos jovens hoje na Europa muitas vezes nem ouviu falar dela, ela continua a ser para os povos árabes a mãe de todas as batalhas. Todo o progresso feito na tentativa de estabilizar o Médio Oriente, onde se poderia acreditar…

[Apresentadora: Sim, mas de quem é a culpa? Tenho dificuldade em acompanhá-lo, é culpa do Hamas?]

Mas, senhora Malherbe, sou diplomata de formação. A questão da culpa será abordada por historiadores e filósofos.

[Apresentadora: Mas não pode permanecer neutro, é difícil, é complicado, não é?]

Não sou neutro, estou em acção. Estou apenas a dizer que a cada dia que passa, podemos assegurar que este ciclo horrível pare… é por isso que falo de uma armadilha e é por isso que é tão importante saber que resposta vamos dar. Estamos hoje sozinhos perante a História. E não tratamos este novo mundo da forma como fazemos actualmente, sabendo que hoje já não estamos numa posição de força, não somos capazes de gerir sozinhos, como polícias do mundo.

[Apresentadora: Então, o que fazemos?]

Exactamente, o que devemos fazer? Aqui é essencial não cortar ninguém no palco internacional.

[Apresentadora: Incluindo os russos?]

Todos.

[Apresentadora: Todos? Devemos pedir ajuda aos russos?]

Não estou a dizer que devemos pedir ajuda aos russos. Estou a dizer: se os russos puderem contribuir para acalmar algumas facções nesta região, então será um passo na direcção certa.

[Apresentadora: Como podemos responder proporcionalmente à barbárie? Já não é um exército contra um exército.]

Mas ouça, Appolline de Malherbe, as populações civis que estão a morrer em Gaza, elas não existem? Então, porque o horror foi cometido de um lado, o horror deve ser cometido do outro?

[Apresentadora: Precisamos realmente de equiparar os dois?]

Não, é você que está a fazer isso. Não estou a dizer que equiparo as culpas. Tento ter em conta o que uma grande parte da humanidade pensa. Há certamente um objectivo realista a perseguir, que é erradicar os líderes do Hamas que cometeram este horror. E não confundir os palestinianos com o Hamas, isso é um objectivo realista.

A segunda coisa é uma resposta direccionada. Vamos definir objectivos políticos realistas. E a terceira coisa é uma resposta combinada. Porque não há uso eficaz da força sem uma estratégia política. Não estamos em 1973 ou em 1967. Há coisas que nenhum exército do mundo sabe fazer, que é vencer numa batalha assimétrica contra terroristas. A guerra ao terror nunca foi ganha em nenhum lugar. E, em vez disso, desencadeia actos extremamente dramáticos, ciclos e escaladas. Se a América perdeu no Afeganistão, se a América perdeu no Iraque, se perdemos no Sahel, é porque é uma batalha que não pode ser ganha simplesmente, não é como se tivéssemos um martelo que bate num prego e o problema está resolvido. Precisamos de mobilizar a comunidade internacional, de sair desta armadilha ocidental em que estamos.

[Apresentadora: Mas quando Emmanuel Macron fala de uma coligação internacional…]

Sim, e qual foi a resposta?

[Apresentadora: Nenhuma.]

Exactamente. Precisamos de uma perspectiva política, e isso é desafiador, porque a solução de dois estados foi retirada do programa político e diplomático israelita. Israel precisa de compreender que, para um país com um território de 20.000 quilómetros quadrados, uma população de 9 milhões de habitantes, enfrentando 1,5 bilhão de pessoas… Os povos nunca esqueceram que a causa palestiniana e a injustiça feita aos palestinianos foram uma fonte significativa de mobilização. Temos de considerar esta situação, e acredito que é essencial ajudar Israel, guiar… alguns dizem impor, mas acho que é melhor convencer, avançar nesta direcção. O desafio é que hoje não existe um interlocutor, nem do lado israelita, nem do lado palestiniano. Precisamos de trazer interlocutores para a frente.

[Apresentadora: Não cabe a nós escolher quem será o líder da Palestina.]

A política israelita nos últimos anos não quis necessariamente cultivar uma liderança palestiniana… Muitos estão na prisão, e o interesse de Israel – porque repito: não estava no programa deles ou no interesse de Israel na altura, ou assim pensavam – era antes dividir os palestinianos e garantir que a questão palestiniana desaparecesse. Esta questão palestiniana não vai desaparecer. E assim temos de a abordar e encontrar uma resposta. É aqui que precisamos de coragem. O uso da força é um beco sem saída. A condenação moral do que o Hamas fez – e não há um “mas” nas minhas palavras em relação à condenação moral deste horror – não nos deve impedir de avançar politicamente e diplomaticamente de forma esclarecida. A lei da retaliação é um ciclo interminável.

[Apresentadora: O “olho por olho, dente por dente”.]

Sim. É por isso que a resposta política deve ser defendida por nós. Israel tem o direito à autodefesa, mas esse direito não pode ser vingança indiscriminada. E não pode haver responsabilidade colectiva do povo palestiniano pelas acções de uma minoria terrorista do Hamas.

Quando se entra neste ciclo de encontrar culpas, as memórias de um lado colidem com as do outro. Alguns vão sobrepor as memórias de Israel às memórias da Nakba, a catástrofe de 1948, que é um desastre que os palestinianos ainda vivem todos os dias. Assim, não se podem quebrar esses ciclos. Precisamos de ter a força, claro, de entender e denunciar o que aconteceu, e a partir desse ponto de vista, não há dúvida sobre a nossa posição. Mas também precisamos de ter coragem, e isso é o que a diplomacia é… a diplomacia é a capacidade de acreditar que há luz no final do túnel. E isso é a astúcia da história; quando estamos no fundo, algo pode acontecer que dá esperança. Depois da guerra de 1973, quem teria pensado que antes do final da década, o Egipto assinaria um tratado de paz com Israel?

O debate não deve ser sobre retórica ou escolha de palavras. O debate hoje é sobre a acção; precisamos de agir. E quando se pensa em acção, existem duas opções. Ou é guerra, guerra, guerra. Ou é tentar avançar para a paz, e vou dizê-lo novamente, é do interesse de Israel. É do interesse de Israel!

A entrevista completa de Dominique de Villepin à jornalista Apolline de Malherbe está neste link.

A tradução é minha e poderá conter erros ou imprecisões.

A sensatez demonstrada pelo antigo primeiro-ministro francês é uma lufada de ar fresco neste clima bélico, dominado pela confrontação e pelo desejo de vingança.

Comments

  1. Carlos Almeida li says:

    Obrigado

    Teria sido mais fácil se tivesse havido uma introdução a entrevista, como está nas últimas linhas

  2. Condena, reconhecendo que mais nada funcionou ou iria funcionar. Eu não consigo, até porque como se investiga com tempo e cabeça, boa parte é aldrabice: já vamos em mais de uma centena atribuída à IDF.

    • Também não sei se o senhor citado tinha uma ideia secular, mas durante a larga maioria da existência do sionismo, foi tudo menos secular.

  3. Abstencionista says:

    Quando a poeira baixar, este será o resumo?

    “1) Israel procura limpar etnicamente a Terra de Israel.

    2) Os palestinianos enfrentaram durante anos e décadas uma escassez de protecção e de lei por parte da comunidade internacional e
    estavam quase sozinhos para se defenderem de ladrões assassinos.

    3) A IDF executou uma falha de segurança de bandeira falsa

    4) As IDF atrasaram a sua reação à fuga da prisão do Hamas.

    5) As FDI usaram a Doutrina Hannibal contra civis israelenses e causaram um número significativo
    de mortes de civis israelenses.

    6) Os “1.400 israelenses mortos e estupros e bebês decapitados” foi propaganda de atrocidade sionista.
    Um enorme conflito de interesses para relatar honestamente.

    7) Especialmente os EUA e outros países aceitaram a propaganda de atrocidades acriticamente
    para que Israel tivesse licença para implementar o seu programa de limpeza étnica.

    8) Os EUA bloquearam a cessação das hostilidades, prolongando assim o massacre de civis em Gaza.

    9) A Comunidade Internacional é quase impotente na sua capacidade de proteger as vidas e os direitos dos palestinos.”

    (Tradução Google)

    (librul)

    • 3) tal como no 11 de setembro, quem manda provavelmente achou que o que aí vinha era menor. Azarito. Que estavam avisados dos planos meticulosamente planeados pelos terroristas é inegável.

      6) O que não quer dizer que não tenha havido um massacre.

      • Abstencionista says:

        “6) O que não quer dizer que não tenha havido um massacre.”

        5) “As FDI usaram a Doutrina Hannibal contra civis israelenses e causaram um número significativo
        de mortes”…parece que há provas disto.

        • Bastam os relatos. Mas a parte não é o todo, não é realista evitar a relação geral entre a luta pela libertação e acções terroristas.

Discover more from Aventar

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading