
João Cotrim de Figueiredo apareceu no panorama político nacional como uma frescura. Um ar que nos dá. Uma brisa que passa. Tal como o partido em que milita.
“O primeiro partido liberal português”, o que em parte pode ter um fundo de razão, é também uma hipérbole porque do PS ao Chega todos eles, de uma forma ou outra, integram o liberalismo nas suas hostes (seja social ou económico). No entanto, passados meses e anos, aquele que parecia, afinal um partido verdadeiramente liberal transformou-se noutra coisa qualquer que pouco tem a ver com o liberalismo clássico que as ideias iluministas nos trouxeram.
O crescimento da IL, que estagnou, fez-se também a reboque do crescimento do Chega. Se o Chega crescia doze, a IL crescia cinco. Sustentado num discurso radical e, em boa medida, também ele populista, a IL atraiu jovens, empresários e gente da elite económica do país, que ali via um espaço da direita neo-liberal mais assumida. E João Cotrim de Figueiredo foi o seu primeiro líder.
Durante anos, defendi a tese de que Cotrim era dos únicos, dentro da IL, com algum bom senso para não defender ideias libertárias que aproximavam a IL de uma nova extrema-direita que surgia e se colava aos movimentos MAGA nos EUA ou que deu o poder a Javier Milei na Argentina. Enganei-me redondamente. Há uns anos, João Fernando teve uma tirada absurda no Parlamento: enquanto se discutia o racismo e a xenofobia na sociedade portuguesa, o então líder da IL, do alto da sua sapiência, comparou o racismo ao desdém que alguns mostram pela elite financeira. Dizia ele que: “Se substituirmos as palavras ‘negro’ ou ‘cigano’ (…) por investidor privado ou investidor bolsista é arrepiantemente próximo da discriminação e do ódio que aqui (…) queremos condenar”. Ri-me, achei atrevido, mas deixei passar.
Quando Cotrim saltou fora da IL, adivinhava a radicalização do partido. Rui Rocha confirmou-o e Mariana Leitão assentou-o. O Parlamento Europeu parecia ser o espaço de excelência para João Cotrim: europeísta, habituado aos negócios e portanto às mesas de negociações, era a sua praia. Afirmava não se ver como Presidente da República e jurava a pés juntos nunca se vir a meter nisso. E meteu-se.
O homem que se fartou de ser líder da IL após cerca de dois anos, fartou-se de ser eurodeputado passados outros tantos e agora quer ser o chefe de Estado… e quem nos garante que não se fartará?
Nos últimos tempos, com mais exposição, Cotrim passou do tio fixe de Cascais que bebe uns finos com os sobrinhos, ao tio amargurado de Oeiras que está numa crise de meia idade e precisa de afirmar a sua masculinidade para se fazer valer. Para isso, afirmou o candidato no canal NOW há umas semanas, foi estudar o crescimento do Chega e chegou a uma conclusão: o tiktok é que está a dar. E vai daí, para lá dos chavões do macho alfa que propala, decidiu enveredar pela carreira de influencer liberal do século XXI, qual Adam Smith dos tempos modernos.
A calinada que Cotrim, um suposto liberal, deu ontem, ao assumir que poderia votar no candidato da extrema-direita (um iliberal) numa segunda volta, enterrou-o. Se um político inexperiente pode cometer erros, um gestor que se diz de craveira nacional, não o deve fazer. E Cotrim não apareceu há um ano na política portuguesa e muito menos esteve, por algum momento, fora do sistema que o representa.
Uma candidatura que atraiu jovens e gente desiludida com “os do costume” mas que também não estava disposta a votar no Chega, esfumou-se com uma frase. Cotrim já se veio retractar, um dia depois, dizendo não perceber “o que lhe passou pela cabeça”. Mas eu sei.
Os nossos liberais, hoje mais libertários do que liberais, têm um sonho molhado: um país onde Chega e IL sejam os principais partidos do panorama político. Onde o radicalismo de direita leve tudo à frente e onde a esquerda seja reduzida a pó e cinzas. Um princípio democrático e de liberdade.
O Cotrim poderia ter sido esperto e entre o Seguro e o Ventura dizia que escolhia o 25 de Dezembro. Ou o Coelho da Páscoa. Ou ter ficado calado. Agora, terá de voltar (que pena que ele terá) para Bruxelas, onde continuará até à boa reforma. Isto, se não desistir daqui a um ano.
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Ser uma calinada implica acreditar que o objectivo deste oportunista, desta vez, era eleitoral, e não de definir a agenda mediatico-política.