Para que serviu a Guerra no Irão?

Tankers struck near Strait of Hormuz amid Iran-U.S. tensions | PBS News

Aparentemente, o conflito no Irão terá chegado ao fim. E chega ao fim sem que qualquer objectivo enunciado por Trump no final de Fevereiro, quando ordenou o ataque contra o regime teocrático, tenha sido alcançado.

Contas feitas, os EUA não derrubaram o regime, não vergaram militarmente o Irão, não destruíram os proxies e, em bom rigor, não mudaram nem obliteraram coisa nenhuma. O único efeito prático da intervenção americana ordenada por Telavive foi a oferta, numa bandeja dourada, de uma nova e poderosa arma à Guarda Revolucionária Iraniana, que é quem, de facto, governa o país: o Estreito de Ormuz. Mais eficaz e fácil de usar que a hipotética arma nuclear que o Irão nunca teve nem estava perto de ter.

O regime americano sai deste conflito em pior posição no Médio Oriente. Aliados desconfiados e com elevados prejuízos, capacidade de produção e exportação de petróleo e gás altamente condicionada, portagens no Estreito de Ormuz e o stock de antiaéreas em mínimos históricos. Até os Patriot estacionados na Coreia do Sul foram transferidos para a região.

Já os oligarcas do trumpismo ganharam imenso dinheiro. Trump, os seus filhos, o seu genro, os techbros, os fundamentalistas evangélicos e os cryptomafiosos saem disto com os bolsos cheios. Os restantes – onde eu e o caro leitor nos incluímos – ficaram mais pobres.


Para que serviu, então, esta guerra?

A resposta parece-me óbvia: serviu para enriquecer a oligarquia trumpista. A oligarquia da administração mais corrupta da história dos Estados Unidos da América.

Uma administração onde os lugares são ocupados não pelo mais competente, mas por aquele que deu as mais generosas doações à candidatura de Donald Trump, como foram os casos de Linda McMahon ou Scott Bessent.

Uma administração que perdoa criminosos a braços com a justiça americana a troco de investimentos avultados nas empresas de Trump e dos seus familiares. Foram os casos de Changpeng Zhao, fundador da Binance, de Justin Sun, fundador da TRON, ou de Ross Ulbricht, fundador da Silk Road, um marketplace na dark web conhecido por ser usado como território de tráfico de droga em larga escala.

Uma administração que usa visitas de Estado para expandir os negócios da família do presidente. Hotéis, campos de golfe, country clubs e outros investimentos serviram, em alguns casos, para reduzir ou remover tarifas impostas pelo próprio Trump.

Uma administração que aceita subornos de governos estrangeiros para obter o favor do presidente americano, como aconteceu com o Qatar, com os EAU ou com a Arábia Saudita, três regimes ditatoriais de calibre idêntico ao iraniano.

Uma administração que fez desaparecer todos os processos contra as tecnológicas a troco de financiamento para a sua campanha, para a sua inauguração e para os seus negócios de criptomoedas.

Uma administração cujo presidente perdoou mais de 100 criminosos relacionados com tráfico de drogas, incluindo o narcotraficante e ex-presidente das Honduras, Juan Orlando Hernández.

Podia continuar por muitas mais linhas. Mas quero usar os caracteres que me restam para voltar ao ponto inicial: para que serviu a Guerra no Irão?

Mudou o regime?

Não.

Acabou com o programa de mísseis balísticos iranianos?

Não.

Isolou ainda mais o regime?

Não.

Destruiu os proxies iranianos?

Enfraqueceu-os, ao que tudo indica, mas não os destruiu.

Acabou com o programa nuclear?

Ainda é cedo para dizer.

Então, parece-me claro, esta guerra não serviu para outra coisa que não fosse enriquecer a família e a oligarquia trumpista. E o próprio Trump, claro.

Às suas custas, caro leitor.

Lembre-se disto, da próxima vez que um protofascista local o tentar convencer das virtudes do trumpismo.

Elas não existem.

Só existe Trump.

Comments

  1. JgMenos says:

    A estupidez mais difundida é a de, visando acrescer dispensável argumento para qualificar de execrável o presidente americano, usar a guerra a um regime odioso e perigoso.
    Por essa via abrem caminho para que tal regime possa permanecer e vá ao ponto de anunciar agravar o seu imperialismo que diz ser de inspiração divina.
    Claro que havendo quem ganhe dinheiro com a guerra esse argumento não pode deixar de figurar como sugerindo um pacifismo idiota.

    • Quem o lê ainda pensa que declarou guerra a si próprio, ou à colónia.

    • Imperialismo, lol. Até a eurolândia é ameaçada pelo daddy se não fizer trocas em dólares, usar só o sistema de pagamentos em dólares, seguir sanções até a juízes do tribunal internacional e relatores da ONU, deixar as empresas violarem a RGPD e levarem os dados espiados para fizerem o que quiserem em casa, importar bens como a energia ou a tecnologia aprovada, etc etc, mas os impérios são os que resistem ao dono. Como se o documento de “estratégia de segurança nacional” não existesse – bem, pelo menos a eurolândia também faz de conta, depois de umas horas de farsa.
      O século de humilhação da europa está em bom ritmo.

    • POIS! says:

      Pois, palavras para quê?

      A nova temporada do renovado Circo Ché-Chen promete!

      O espetacular número de contorcionismo do grande JgMenos vai ser sensacional!

      Os tomates a rodear o nariz! Quem diria que era possível!

  2. Para continuar o genocídio da Palestina ocupada e acrescentar-lhe o do sul do Líbano, com um golpe de asa para tentar criar nova guerra civil; e para mostrar a total colaboração da eurolândia com qualquer crime imperial.

  3. Serviu para o Trump enriquecer e para Israel sacar mais território ao Líbano.

    • JgMenos says:

      O Líbano, que em tempos se dizia ser a Suíça do Médio-Oriente, só depende de Israel e de quem mais possa ajudar a livrar-se de ter um agente estrangeiro armado no seu território.

      • POIS! says:

        Pois nem mais!

        Mas, como é só um agente, não deve ser muito difícil.

        Manda-se-lhe um bilhete de avião para a Flórida. Depois oferece-se uma estadia em Mar-a-Lago, umas massagens numa ilha das Caraíbas e uma carteira de criptrampomoedas e o gajo já não quer voltar para o Líbano.

        Assunto resolvido!

      • Dizia? Quem e com que interesse? Quem desenhou as fronteiras para garantir conflitos étnicos e impôs um sistema político que não pode funcionar?
        Ainda bem que é um tal de “agente estrangeiro”, que se fosse um exército estrangeiro já se viu que nem as forçar armadas, nem os capacetes azuis estão interessados nem quando levam com as balas – seja contra o ISIS – antes e depois de lhe darem a Síria – ou seja contra a colónia.
        E se o financiador não cumpre o acordado, alguém vai ter que fazer quimioterapia ao cancro do oeste asiático.

  4. Luis Coelho says:

    Estamos entregues a ladrões e imbecis da pior espécie!

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