Viver para lutar mais um dia

Pode ser uma imagem de uma ou mais pessoas, multidão, o Portão de Brandemburgo e texto

Domingo terminou melhor do que começou. Depois dos acontecimentos vergonhosos e indignos – ou dignos de regimes nada recomendáveis – desta madrugada, no Porto e em Lisboa, sobre os quais todos falaremos nos próximos dais, o dia termina com duas vitórias inesperadas e igualmente históricas.

Na Sérvia, país que me passou a ser querido no dia em que a minha maravilhosa cunhada Sanja entrou na minha vida, os estudantes que foram para a rua e se organizaram para combater o autoritarismo, a corrupção, a instrumentalização da justiça e a repressão do regime Vučić transformaram-se em partido e esmagaram a extrema- direita.

As projecções apontam para 130 e 140 deputados num parlamento de 250.

Épico!

Putin, que apoiou directamente Vučić, é um dos derrotados da noite.

Trump é outro dos derrotados, pese embora tenha sido mais discreto no seu apoio.

Goste-se ou não deles, foram os valores europeus, os valores da democracia liberal, que triunfaram sobre a internacional neofascista. Podemos entrar aqui em detalhes, fazer um cherry pickingzito e dizer que a UE e os países europeus também têm telhados de vidro, e têm mesmo.

Mas Vladimir Putin joga noutro campeonato.

Num campeonato em que se invadem países, manipulam regimes com milícias e onde adversários políticos são envenenados com pontas de guarda-chuvas, caem ao rio Moscovo e tropeçam frequentemente em longas escadarias ou varandas de arranha-céus.

Entre outras coisas.

Pode ser uma imagem de chapéu e multidão

Como se a noite não fosse já memorável por isso, Lula da Silva virou o estado de Minas Gerais. E quem ganha em Minas Gerais, descobri, “vira” presidente.

Podemos dizer e achar o que quisermos sobre o Lula. Mas entre ele e um boy cujo CV consiste em ser filho de um projecto mal parido de Emílio Médici, um corrupto miliciano envolvido até às pontas dos cabelos no esquema do Banco Master do seu “irmão” Vorcaro, preparado para entregar o país como colónia a Trump, a escolha era fácil demais.

Mais uma derrota para o Trumpismo, e esta bem pesada. Trump esperava conseguir fazer o que fez no resto da América Latina e do Sul. Falhou. Mas não foi o único derrotado. Ele e a sua internacional neofascista. Perderam os techbros, em particular o dono desta mesma rede, que bloqueou os anúncios de Lula da Silva com argumentos pífios e deu carta branca para que Bolsonaro fizesse o que bem entendesse. Perderam os fundamentalistas evangélicos. Perdeu Benjamin Netanyahu. Perderam os fantoches europeus de Trump. Perdeu muito fraca gente e isso é uma excelente notícia, num tempo em que elas escasseiam.

Mas ainda falta uma boa notícia.

A boa notícia mais importante de todas.

Saberemos se a teremos dentro de pouco mais de uma semana.

Até lá, saboreemos esta grande vitória, que é mais que a vitória de Lula ou dos estudantes e democratas da Sérvia.

É a constatação de um facto fundamental, neste tempo em que a esperança parece desvanecer: a extrema-direita não é inevitável. Mesmo quando tem o poder, a tecnologia e o dinheiro do seu lado. Não é coisa pouca.

Agora é a vossa vez de jogar, povo dos Estados Unidos da América.

Yes you can.

 

Comments

  1. JgMenos says:

    «neste tempo em que a esperança parece desvanecer: a extrema-direita não é inevitável.»

    Espera um pouco.

    Com uma esquerdalhada tão estúpida ainda acabaremos por aí ir parar!

  2. Paulo Marques says:

    Saírem é o mais fácil, mudar é outra coisa. Sem plano, o que mais vai mudar é como e quanto vão andar a Sérvia aos interesses dos abutres “civilizados” do FMI e UE.

    Se a extrema-direita não é inevitável, é porque já achamos moderado governos que governam em fusão com as empresas, tratam os árabes como tratavam os judeus, mentem sempre que conveniente, defendem a guerra eterna como forma de união, e aprovam a censura, a vigilância, a sanção, e a violência para impor a versão “correcta” da realidade.

  3. Os fascistas acabam sempre por cair Menos.

    A extrema direita pode ser parada e vai ser parada.

    Mas se as democracias liberais continuarem a ter tantos tiques do fascismo, nos continuarem a sacrificar em nome do apoio ao nazismo de Kiev, continuarem a apoiar o sionismo, pode não ser possível trava la na Europa.

    O Mendes devia tentar perceber que raio de coisa sexual não resolvida tem com o presidente russo. Era capaz de lhe fazer bem.

    • JgMenos says:

      Este Whale project em versão tímida, bem para aqui sugerir as intimidades que a todo o tempo pratica com o Putin.

      Na Rússia não há fascismo uma vez a que a única corporação aí relevante é a dos serviçais do policiote Putin a que este W é aderente.

      Esta cretinagem que se diz de esquerda mais não é que uma cambada de serviçais de ditaduras que lhe assegurem mama a troco de subserviência acobertada de palavrões como igualdade a significar saque.

      • Paulo Marques says:

        É hilariante que não se perceba que as sanções finalmente permitiram controlar a fuga de capitais e pôr os oligarcas um bocadinho na ordem, enquanto a eurolândia percorre o caminho contrário.

  4. Anonimo says:

    Ainda iremos “agradecer” pelo Kosovo.

    Boa sorte para a Sérvia, bem precisam

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