Viver para lutar mais um dia

Pode ser uma imagem de uma ou mais pessoas, multidão, o Portão de Brandemburgo e texto

Domingo terminou melhor do que começou. Depois dos acontecimentos vergonhosos e indignos – ou dignos de regimes nada recomendáveis – desta madrugada, no Porto e em Lisboa, sobre os quais todos falaremos nos próximos dais, o dia termina com duas vitórias inesperadas e igualmente históricas.

Na Sérvia, país que me passou a ser querido no dia em que a minha maravilhosa cunhada Sanja entrou na minha vida, os estudantes que foram para a rua e se organizaram para combater o autoritarismo, a corrupção, a instrumentalização da justiça e a repressão do regime Vučić transformaram-se em partido e esmagaram a extrema- direita.

As projecções apontam para 130 e 140 deputados num parlamento de 250.

Épico!

Putin, que apoiou directamente Vučić, é um dos derrotados da noite.

Trump é outro dos derrotados, pese embora tenha sido mais discreto no seu apoio.

Goste-se ou não deles, foram os valores europeus, os valores da democracia liberal, que triunfaram sobre a internacional neofascista. Podemos entrar aqui em detalhes, fazer um cherry pickingzito e dizer que a UE e os países europeus também têm telhados de vidro, e têm mesmo.

Mas Vladimir Putin joga noutro campeonato.

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Lula da Silva, Flávio Bolsonaro e o Acordo Ortográfico de 1990

First, how are implicit and explicit knowledge to be operationalised so that they can be measured, and what is the evidence for implicit second language knowledge according to these criteria?
–Williams (2009)

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Os candidatos Lula da Silva e Flávio Bolsonaro participaram no segundo e último confronto televisivo antes da segunda volta das eleições presidenciais brasileiras. Sobre o primeiro, já vimos alguns aspectos interessantes. Quanto ao segundo, seleccionei uma intervenção de Bolsonaro, para que se reflicta acerca dos tais “factores de desagregação da unidade essencial da língua portuguesa” criados pelo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990.

Flávio Bolsonaro e Lula da Silva enfrentaram-se no último debate das eleições presidenciais deste ano, na TV Globo (Foto: EPA/BBC-Brasil)

Diz-nos Bolsonaro que ouviu muitas vezes, sobretudo enquanto andava pelo Nordeste, a palavra «decepção», salientando que a esperança se tinha transformado em decepção e em medo. Em português europeu, para Bolsonaro ver a palavra decepção, terá de ler textos sem AO90. Parece incrível, mas é verdade. Decepção com <p> em português europeu? Só em português europeu com regras claras e adequadas, ou seja, antes do AO90. Com AO90, o <p> mantém-se no Brasil e desaparece em português europeu.

No Brasil, segundo Bolsonaro, a esperança transformou-se em decepção. É uma asserção subjectiva. Em português europeu, como sabemos, por causa do AO90, a decepção transformou-se em *deceção, mas a decepção manteve-se intacta no Brasil. É um dado objectivo. Aliás, a frase de Bolsonaro “Essa é a palavra que se refere ao atual Governo, porque a esperança virou decepção” é reveladora: vemos duas palavras afectadas pelo AO90 em português europeu (actual —> atual; decepção—>deceção) que não são afectadas em português do Brasil (atual —> atual; decepção—>decepção).

PB sem AO90 “Essa é a palavra que se refere ao atual Governo, porque a esperança virou decepção”

PB com AO90 “Essa é a palavra que se refere ao atual Governo, porque a esperança virou decepção”

PE sem AO90 “Essa é a palavra que se refere ao actual Governo, porque a esperança virou decepção”

PE com AO90 “Essa é a palavra que se refere ao atual Governo, porque a esperança virou deceção”

Ou seja, nesta frase, havia uma diferença entre as duas normas antes do AO90 e continua a haver uma diferença entre as duas normas com AO90. Com a agravante de se ter criado instabilidade grafémica em português europeu e para quê? Para atingir esta “unidade essencial da língua portuguesa”.

Continuação de um óptimo fim-de-semana.

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O excelente debate entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro

É nesse contexto que surge o malandro carioca, a representação típica do boa-vida que jamais conseguirá alcançar os meios de ascensão econômico-social, mas sempre encontra uma saída para sua sobrevivência, seja para suprir suas necessidades, seja perante a sociedade e o poder de polícia.
— Cunha & Teixeira (2017)

[Flávio Bolsonaro] é o malandro carioca. Que finge que não finge e que mente descaradamente.
— Lula da Silva (2026)

Desde o “agora facto é igual a fato (de roupa)”, sabemos que de fato é um caso interessante, um fenómeno que permite uma análise linguística, sim, mas não só. Lembrei-me disso durante o recente debate entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Os meus agradecimentos aos dois adversários e aos dois moderadores pelos seguintes exemplos práticos.

Por um lado, já se sabe, o AO90 autoriza facção e facções em português do Brasil. Por outro, o AO90 impede a adopção de facção e  facções em português europeu. No entanto, sem AO90,  facção e facções pertencem às duas normas. É o próprio AO90 a denunciar-se como mentira, anunciando essa coisa terrível dos “factores de desagregação da unidade essencial da língua portuguesa” que alegadamente pretende combater, mas contribuindo o próprio (através nomeadamente da base IV) enquanto factor de desagregação dessa mesma “unidade essencial da língua portuguesa“.

Além da facção e das facções, temos esta mesma “unidade” através de  perspectiva, grafia agora exclusiva em português do Brasil.

 

Recorde-se que o mesmo acontece com outros exemplos de elevada frequência, embora ausentes do debate, como aspecto, concepção, confecção, excepcional, infecciosa, percepção, recepção, respectivamente ou ruptura, que o AO90, à imagem das supramencionadas facção, facções e perspectiva, também tornou exotismos brasileiros, quando são grafias altamente recomendadas (ideais) em português europeu, ao contrário das grafemicamente condenáveis formas adoptadas ao abrigo do AO90.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

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Retrospectiva e uma nótula explicativa

With an eye toward future replication and extension studies, we address a range of conceptual and methodological issues that scholars should further elaborate, expand, and refine.
— Saito et al. (2022)

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A confeção não existe no Brasil. Basta perguntar-lhe, a ele, ao Vocabulário da ABL:

E a confecção?

A confecção existe no Brasil.

No entanto, onde se adopta a escrita em português europeu, por causa daquele “critério fonético (ou da pronúncia)”, inventado em cima do joelho e aplicado às três pancadas, acontece exactamente o contrário, pois debalde procuramos confecção em dicionários com AO90.

Encontramos apenas nos dicionários em português europeu de qualidade, ou seja, sem AO90: [Read more…]

Acordo UE-Mercosul: Felizmente, ainda não foi desta

Mais uma vez, saiu gorada a data prevista e conjurada para a finalização do acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul. E ainda bem, dizem sindicatos e ONGs, tanto deste, como do outro lado do Atlântico.

Há já 23 anos que a União Europeia (nessa altura constituída por 15 estados) e o Mercosul (que inclui a Argentina, o Brasil, o Paraguai o Uruguai, e ao qual a Bolívia acaba de aderir) o preparam. Em 2019, durante o governo de Bolsonaro no Brasil, os dois blocos chegaram a um “acordo de princípio” sobre a parte comercial, não tendo, no entanto avançado, devido à vigorosa oposição de países como a França e a Áustria, que invocaram razões ambientais e climáticas.

Quando, em 2022, Lula voltou ao poder, a ânsia dos dois blocos em finalizar o acordo reavivou-se: foram múltiplas as declarações oficiais dos dois lados em favor da conclusão do acordo, frequentes as viagens de altos representantes e, nos últimos meses, o ritmo das negociações chegou a ser semanal. A Presidência rotativa do Mercosul pelo Brasil, e a da UE pela Espanha, – ambos fortes apoiantes do acordo – abria, até ao fim de 2023, uma “janela de oportunidade única”. Em Setembro, no seu discurso “State of Union 2023″, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reiterava que as negociações deveriam ser concluídas até ao final do ano. [Read more…]

Iniciativa Liberal, partido de protesto

Quando Lula veio a Portugal, o lado mais juvenil da Iniciativa Liberal veio à tona e deixou clara a sua natureza de partido de protesto. Não há nada de depreciativo nesta avaliação. Ser um partido de protesto é tão legítimo como ser um partido de poder. E tende até a causar menos dano à nação.

No entanto, esta semana, os liberais portugueses regressaram ao jardim de infância, a propósito da vinda do presidente cubano a Portugal. Mostraram, sem rodeios, que as suas motivações ideológicas se sobrepõem à diplomacia. Uma vez mais, nada contra. A IL existe num país livre e democrático e tem todo o direito de se exprimir e agir como bem entender. [Read more…]

Lula da Silva e o Ocidente virtuoso

“É preciso que os Estados Unidos parem de incentivar a guerra e comecem a falar em paz. É preciso que a União Europeia comece a falar em paz. Pa’ gente poder convencer o Putin e o Zelenskyy de que a paz interessa a todo o mundo e a guerra só está interessando por enquanto aos dois.”

Foi esta a declaração de Lula da Silva que causou indignação cirúrgica, sobretudo entre a direita radical. Para a extrema-direita terá seguramente sido indiferente. O grosso dos seus aliados, como Orbán, Salvini ou Le Pen, sempre foram próximos de Putin e até receberam financiamento do Kremlin para a sua actividade política. E o circo já estava a ser montado. Já Montenegro foi cauteloso, e teve, a meu ver, sentido de Estado. Porque sabe, ao contrário dos restantes, que existe uma forte possibilidade de ser o próximo primeiro-ministro de Portugal. E, como tal, percebe a importância das relações diplomáticas com o Brasil. [Read more…]

Será que André Ventura os tem no sítio?

André Ventura não gosta do Papa Francisco. É natural. Francisco tem alertado para a ameaça que representam a instigação do ódio e a instrumentalização da fé católica para fins políticos, duas das especialidades de um político que por várias vezes se assumiu como enviado ou escolhido por Deus.

A táctica de autopromoção de Ventura, contudo, obriga-o a não hostilizar o Papa, como de resto não hostiliza padres pedófilos. No entanto, atendendo a que o Papa Francisco afirmou, há dias, que a guerra da Ucrânia está a ser alimentada pelos interesses de vários impérios, e não apenas pelo interesse do império russo, o mínimo que Ventura e os funcionários da sua unipessoal podem fazer, depois da vergonha a que ontem submeteram a Assembleia da República, é convocar nova manifestação para as Jornadas Mundiais da Juventude, acusar Francisco de servir Putin, insultá-lo e insultar todos os que o seguem. Seria giro de ver, se André Ventura os tivesse no sítio.

Fun fact: não tem.

Papa da Silva

Excerto retirado de uma notícia da TVI.

Lula da Silva veio a Portugal e foi bombardeado com perguntas acerca da sua posição em relação à guerra na Ucrânia.

Uma posição que é mais difícil de explicar e defender (e também de entender), porque pressupõe uma real tentativa de alcançar a paz (que em qualquer guerra é sempre o mais difícil de alcançar), ao invés de, à boa maneira da avestruz, enfiar a cabeça na areia e papaguear simplesmente que “a Ucrânia tem direito a defender-se” (e é claro que tem e nunca ninguém disse o contrário), como se a postura belicosa e o prolongamento ad aeternum da guerra fossem, de forma mágica, resolver o problema. E gritar aos sete ventos que “a guerra só acabará quando a Ucrânia sair vencedora” é – para além de um grito cínico – pura romantização da guerra.

Enquanto isso, a guerra continua e estará para durar, a Ucrânia vai ficando cada vez mais depenada, as sanções à Rússia não estão a fazer surtir o efeito pretendido, a dívida externa da Ucrânia aumenta, os Estados Unidos e a Rússia esfregam as mãos e já se preparam novas formas de pôr os imperialismos todos a medir pilas (olá, China!). Enquanto isso, a guerra não acaba.

Por isso, senhores jornalistas e comentadeiros do chavascal, comecem já a preparar os microfones, pois vem aí o Papa que, ao que parece, tem uma posição semelhante à do presidente do Brasil, esse sacana pró-Putin que propõe que, em vez de se andar a apontar armas enquanto alguém lucra com a venda das mesmas, se sentem todos a uma mesa e haja uma saída limpa para as duas partes (e, depois disso, sim, poderemos começar a discutir de que forma a Federação Russa do abominável neo-fascista de cera poderá vir a pagar as reparações que são devidas à Ucrânia do fantoche de oligarcas sequestrado – desde a sua eleição – pelas forças neo-nazis que “protegem” o país).

Ps. Parece que o totó com óculos que é presidente da Câmara Municipal de Lisboa foi visitar o Papa… olhem, foi uma oportunidade perdida para lhe [ao Papa da Silva] fazerem as tais perguntas!

Marcelo mentiu ao país

Marcelo Rebelo de Sousa mentiu ao país. Mentiu de forma deliberada, com o calculismo que se lhe conhece, e quis fazer-nos todos de parvos. E mentiu porque não só sabia da vinda de Lula da Silva, como foi o próprio Marcelo a fazer o convite. Tal como foi ele quem, a 31 de Dezembro, informou pela primeira vez o país sobre a participação do presidente do Brasil nas cerimónias do 25 de Abril. O poeta de Fernando Pessoa é um fingidor, mas tem muito que aprender para fingir tão completamente como o Presidente da República de Portugal.

Falsas equivalências

No seu discurso de ontem, reagindo à barbárie que os apoiantes de Bolsonaro impuseram em Brasília, Lula da Silva chamou à extrema-direita aquilo que ela é: neo-fascistas de trazer por casa. Logo se levantaram, inconformamos, os empedernidos liberais do extremo-centro, dizendo que as declarações do presidente brasileiro polarizam e acicatam a reacção.

Esta posição é, apenas, e na verdade, mais uma das infindáveis tentativas de colar a extrema-direita à esquerda, quando sabem perfeitamente que o que está em causa não é uma questão de extremos, mas sim de fascistas versus democratas. Esta estratégia de fazer equivaler a esquerda, fundamentalmente social-democrata, à extrema-direita racista, xenófoba, homofóbica e corrupta é antiga, foi recauchutada e colhe hoje os seus frutos. Mas não há equivalência possível entre quem defende os pressupostos constitucionais que regem uma democracia e aqueles que, inscientes, a querem destruir, começando por corroê-la a partir de dentro, para depois extravasarem e passarem à violência declarada contra as Instituições democráticas. Em Portugal sucede o mesmo, sobretudo depois da entrada declarada da extrema-direita na Assembleia da República: a tentativa de colar o Chega, representante dessa direita retorcida e podre de bolor, aos partidos representantes da esquerda tradicional, como o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista, partidos que, quer se queira quer não, quer se goste ou não, nunca tiveram um projecto político de destruição da ordem constitucional e democrática. A estratégia, diga-se, é igual aqui, no Brasil, na Espanha, na França ou na Itália.

Ao Brasil, aos democratas brasileiros, da direita moderada à esquerda, que não se revêem em tais actos e respeitam a democracia, vai daqui toda a minha solidariedade e a vontade de que esses insurrectos fascistas sejam postos no seu devido lugar: na cadeia.

Viva o Brasil. Vivam os brasileiros.

Fotografia retirada de: Revista Veja

Twilight zone bolsonarista VI

Os bolsominions são a espécie mais exótica do Brasil. É preciso criar um programa de protecção para evitar a extinção. São o mamífero mais divertido, a par do macaco. E Portugal devia contribuir para a conservação da espécie, criando um santuário para o professor Lemos.

Desordem e retrocesso

 

Ver Bolsonaro a fugir do Brasil, dois dias antes da posse do Lula, é a imagem perfeita da fascismo 2.0, que usa a ignorância e o fanatismo religioso para formar o seu exército, e que, quando as coisas correm mal, foge da democracia como a elite que lhe paga os cartazes foge do fisco.

Isto enquanto os seus apoiantes, abandonados pelo cobarde jihadista, ensaiam atentados terroristas, exigem um golpe de Estado à porta dos quartéis, pedem a intervenção divina de anjos e alienígenas e garantem que a posse de ontem foi uma encenação. Pobres chalupas.

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O silêncio faz barulho e o perigo de deixar a institucionalidade para os militantes adolescentes

A Iniciativa Liberal foi o único partido português a não se referir às eleições brasileiras.

Do Partido Socialista ao Bloco de Esquerda e ao Partido Comunista, do Partido Social-Democrata ao Livre, todos reagiram. Até o Chega, mesmo que na reacção tenha lançando cocó à parede, reagiu. E aqueles que, como o PSD, estarão nos antípodas do Partido dos Trabalhadores e de Lula da Silva, deram os parabéns ao recém eleito.

Já os ultra-liberais portugueses decidiram dizer que, numa eleição democrática, nem sus nem mus. Lembremo-nos que quando Guaidó, apoiado pelos Estados Unidos da América e pela União Europeia, preparava um golpe de Estado na Venezuela, numa clara ingerência internacional na soberania de outro país, a IL apoiou. Aqui, numa eleição onde as pessoas escolhem em quem votam, silencia-se para não ter de dizer o que todos sabemos: a IL apoiaria Bolsonaro, porque o ainda Presidente brasileiro não põe em causa o poder do capital económico. Mas ficaria bem uma nota sobre o assunto, pois o Brasil é um país irmão, Portugal acolhe cada vez mais brasileiros que também votam cá, uns, ou votarão no futuro, outros e porque o Brasil é o maior país da América Latina e uma das maiores economias do mundo.

Nas últimas semanas, a IL decidiu abandonar o rumo vitorioso que seguia e atirar chumbo sobre os dois pés. E o maior perigo deste silêncio institucional é que quem o preenche são adolescentes do Twitter, com demasiado tempo em mãos, militantes da IL, que dizem coisas como estas:

Retirado da rede social Twitter.

O pior inimigo de um falador é a língua e o acesso à internet. Diziam os Originais do Samba que “Falador passa mal, rapaz”. E passa mesmo.

Este militante de base da IL diz não estar actualizado com “estas novas definições de ideologias políticas”. É natural e eu não questiono, até porque, lá está… faz parte da IL. Esta IL:

Cartaz da IL de 2020.

Segundo o douto pensamento ultra-liberal/libertário dos da Foz e das Avenidas Novas,  o Brasil tinha políticas socialistas sob o governo de Bolsonaro, juntamente com a Índia de Modi e a Rússia de Putin. Fascismo onde, se Jair Bolsonaro e o Modi são, afinal, socialistas? E até Portugal, integrado numa União de países capitalista, de mercado livre, é, de facto, socialista.

A falta de coerência e a ignorância histórica e ideológica de muitos membros da IL começa a dar vergonha alheia a quem, mal ou bem, tenta debater com racionalidade e atendendo à realidade. Viver numa bolha só deles dá nisto… mas toda a bolha rebenta. Defender tudo e o seu contrário pode dar resultado para eleger oito deputados, mas será que chega para os manter?

A bolha da IL grita cada vez mais alto CDS.

Adeus acima de tudo

do Insónias em Carvão.

A postura e a destreza de um estadista vêem-se, também, na hora da derrota. É natural que quem nunca se soube comportar na vitória, quem maltratou tudo e todos os que a ele se opuseram democraticamente, não tenha sequer a humildade de vir assumir a derrota.

Pior: não falar ao povo que governou nos últimos anos, é cuspir na cara dos eleitores que nele votaram, eleitores esses que foram, desde o início, a verdadeira milícia que mantinha este ser asqueroso e ignorante no poder. É cuspir na cara daqueles que se venderam por ele. É cuspir na cara do Brasil.

Mas era expectável. Quem andou quatro anos a cagar no povo brasileiro, acaba o serviço e cospe-lhe em cima. É quase a cereja no topo desse bolo. E, conhecendo Bolsonaro, nem o cu limpou no fim.

Viva a democracia! Viva o Brasil! Viva o povo brasileiro!

Tchau, Bolsonazi

No Brasil, a democracia venceu e o autoritarismo foi derrotado. O autoritarismo, a extrema-direita, o ódio, a milícia, o lobby das armas, os parasitas que querem destruir a Amazónia, os Talibans evangélicos e restantes chalupas. Não sei quanto a vós, mas eu tenho vários motivos para festejar. A menos que a milícia tente um golpe à lá Trump. Fingers crossed.

Enterros

Morreu o governo de Bolsonaro. A mim que me importa… não sou coveiro.

É Lula

Se tivesse que escolher entre uma porta e um Bolsonaro para presidente do Brasil, escolheria a porta sem pestanejar. Escolher o Lula é fácil, mas escolher um liberal ou um conservador de direita que se opusesse à agenda do ódio, do fanatismo e da violência seria igualmente fácil.

Na pior das hipóteses existe sempre um mal menor. No caso, o mal menor é o antigo presidente que mais oportunidades criou para os mais desfavorecidos, que mais brasileiros tirou da miséria, que mais saúde, educação e esperança deu aos mais pobres entre os mais pobres. Uma porta, repito, seria melhor que Jair Bolsonaro. Lula da Silva, caso seja eleito, não será apenas melhor. Poderá muito bem ser a solução para apaziguar um Brasil dividido pelo extremismo bolsonarista.

Neste momento, Lula lidera por curta margem, cerca de 3%, mas a segunda volta parece inevitável. Estou fora, racho lenha, mas não tenho a mínima dúvida sobre qual é a minha trincheira: é Lula.

Bolsonaro acusa polícia brasileira de incompetência

Mais um golpe de Estado em marcha.

Diogo Pacheco de Amorim, és tu?

Pega ladrão!

“E depois da eleição, você cobra resultado? 
Ou fica aí parado, de braço cruzado? 
Você lembra em quem votou p’ra deputado? 
E em quem você votou lá no Senado?” 

O Supremo Tribunal Federal do Brasil anulou, esta segunda-feira, todas as condenações de Lula da Silva, no âmbito da operação Lava Jato. 

Recorde-se que o processo Lava Jato teve início em Março de 2014, pela mão do então juiz Sérgio Moro, posteriormente nomeado Ministro da Justiça e Segurança Pública do Governo de Bolsonaro, cargo a que renunciou em Abril de 2020, depois de divergências com o presidente brasileiro. A operação condenou mais de cem pessoas, investigando, entre outros, crimes de corrupção activa e passiva, gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, organização criminosa e recebimento de vantagem indevida. A operação Lava Jato teve o seu término em Fevereiro de 2021.  

Uma das pessoas apanhadas na teia de suspeição foi o antigo presidente do Brasil e antigo presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), Lula da Silva. O ex-presidente brasileiro, suspeito de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, acabou por ser condenado a nove anos e seis meses de prisão, em Julho de 2017. Proibido de exercer cargos públicos, Lula da Silva cumpriu 580 dias de prisão, depois de, em Abril de 2018, ter visto rejeitado o Habeas Corpus e ter sido, novamente, condenado à prisão (desta vez a doze anos e um mês). Depois do linchamento, da perseguição e da prisão, o socialista Lula foi libertado em Novembro de 2019, depois do Supremo Tribunal Federal ter considerado a condenação da prisão em segunda instância inconstitucional. Segundo a revista Veja, Lula da Silva é a personalidade brasileira mais visada por notícias de teor falso e calunioso.    [Read more…]

Reflictamos acerca do fato

Nice chap, buys his round.
— Ian Hislop

Never in the field of human conflict was so much owed by so many to so few.
— Churchill (apud Boris Johnson)

Furthermore, there is an enormous class hatred: how can this uneducated worker who doesn’t even speak proper Portuguese dare to be sitting in the presidential palace?
— Noam Chomsky

***

Efectivamente, depois de o livro de Nuno Pacheco ter sido muito bem apresentado, houve uma semana ligeiramente atribulada e o sossego do fim-de-semana.

Chegados a segunda-feira, encontramos isto, no sítio do costume:

Os responsáveis pelo desastre lá vão encolhendo os ombros, assobiando para o ar e, armados em Boris, fazendo de conta que não está a chover.

Apetecia-me escrever umas linhas acerca do verbo reflectir e da nítida função diacrítica do c nas formas arrizotónicas com e: reflecti, reflectia, reflectiam, reflectíamos, reflectias, reflectido, reflectíeis, reflectimos, reflectindo, reflectir, reflectira, reflectirá, reflectiram, reflectíramos, reflectirão, reflectiras, reflectirás, reflectirdes, reflectirei, reflectireis, reflectíreis, reflectirem, reflectiremos, reflectires, reflectiria, reflectiriam, reflectiríamos, reflectirias, reflectiríeis, reflectirmos, reflectis, reflectisse, reflectísseis, reflectissem, reflectíssemos, reflectisses, reflectiste, reflectistes, reflectiu.

Tal função torna-se perceptível, por exemplo, se compararmos com repetir: repeti, repetia, repetiam, repetíamos, repetias, repetido, repetíeis, repetimos, repetindo, repetir, repetira, repetirá, repetiram, repetíramos, repetirão, repetiras, repetirás, repetirdes, repetirei, repetireis, repetíreis, repetirem, repetiremos, repetires, repetiria, repetiriam, repetiríamos, repetirias, repetiríeis, repetirmos, repetis, repetisse, repetísseis, repetissem, repetíssemos, repetisses, repetiste, repetistes, repetiu — e quanto à justificação de -ct- nas formas com i (reflicto, reflictamos, etc.), lembremo-nos da “derivação ou afinidade evidente” e do <x>com valor [ks].

Além dessas apetecidas linhas, também queria propor formalmente uma adenda à lista de Vasco Pulido Valente. Ei-la, informal: agora facto não é igual a fato (de roupa).

Infelizmente, como o “bem-amado kaiser“, ando com pouco tempo: quer para as linhas, quer para a formalização da proposta. Fica para outra altura.

***

A corrupção de Moro

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O cerco aperta-se em torno de Sérgio Moro. O juiz brasileiro, em tempos tido como uma espécie de herói nacional, é, afinal, um player politico de longa data, que usou o seu poder e influência de magistrado para manipular e condicionar o julgamento de Lula da Silva, favorecendo, de forma objectiva e intencional, a ascensão de Bolsonaro, que premiou Moro com um ministério, por serviços prestados à extrema-direita brasileira. E não, não se trata de defender Lula da Silva. Trata-se de constatar dois factos: que o julgamento do antigo presidente foi uma farsa, encenada pelo Ministério Público brasileiro, e que esse Ministério Público, comandado à distância por um juiz que se está nas tintas para a separação de poderes, se deixou corromper e mentiu os brasileiros. Não admira que Bolsonaro o tenha escolhido.

Sérgio Moro é corrupto?

JBSM

Fotografia via Deutsche Welle

CORRUPÇÃO

cor.rup.ção
kuʀuˈpsɐ̃w̃
nome feminino
1. DIREITO aliciamento de uma ou mais pessoas, geralmente através dão oferta de bens ou de dinheiro, para a prática de actos ilegais em benefício próprio ou de outrem; suborno
2. DIREITO prática de ato lícito, ilícito ou de omissão contrária à lei ou aos deveres de determinado cargo, por parte de alguém que, no cumprimento das suas funções, aceita receber uma vantagem indevida em troca da prestação de um serviço
3. decomposição de matéria orgânica; putrefacção
4. modificação das características originais de algo; adulteração
5. figurado degradação de costumes, de valores morais, etc.; perversão

(via Infopédia/Porto Editora)

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Alessandra Strutzel, a merda que resulta do politicamente incorrecto

Merda1

Este monstro cruel e hediondo, que dá pelo nome de Alessandra Strutzel, está longe de ser um caso isolado. A blogger brasileira é até bastante representativa daquilo que é parte muito significativa do eleitorado de Jair Bolsonaro, repleto de defensores da violência indiscriminada, que sonham com o regresso da tortura e com fuzilamentos à moda antiga, que querem ser livres para espancar homossexuais, e quem diz homossexuais diz a própria mulher, ou outra mulher qualquer, e que desejam armas, muitas armas na rua. Gente que celebra o torturador Ustra ou a morte de Marielle Franco. É deste tipo de “gente” que estamos a falar. [Read more…]

Lula Lidera. Elite Enlouquece.

Quando pego ônibus para faculdade fico ouvindo os relatos das mulheres (geralmente negras) sobre suas patroas e patrões. Penso até em começar a sistematizar esses relatos em alguma forma artística ou jornalistica.
É impressionante como essa elite, essa classe média brasileira, acha que pobre é burro e preguiçoso.
Essa narrativa é perpetuada desde o Brasil colonia mesmo quando a tal princesa assinou o papel enquanto as sinhás e sinhôs mandavam escravizados às ruas para vender a produção de suas propriedades.
Um dos grandes erros dessa classe escravocrata e preconceituosa que utiliza a vida de tantos para manter os privilégios é os tratar assim e ainda de forma brutal.
E é por isso que o voto do patrão ou da patroa diverge do voto daqueles que os “servem”.
Os 40% de Lula são um tapa na cara e que deveria muito ensinar algo essa elite.
Esse percentual não crê na total inocência do Lula, como querem fazer muitos integrantes dessa direita reacionária. Apesar grande imprensa publicar diariamente sobre triplex e etc, a população mais pobre do Brasil entendem que os mesmo que o perseguem não gostam de pobres, pretos, indígenas, nordestinos e etc.
Eles tem plena consciência que aquelas pessoas fazendo dancinha nas ruas usando camisa verde e amarela não fizeram absolutamente nada para melhorar a vida na favela, nos ônibus lotados, no SUS e etc. Fizeram apenas por si mesmas. Por suas famílias corruptas (algumas no poder desde as capitanias hereditárias).
Pobre não é burro. Os avanços sociais do lulismo, como a dignidade mínima de um prato de comida, energia elétrica, possibilidade de entrar na universidade, não são, necessariamente, marcas de um governo de esquerda. São apenas o básico para começar a conversa em um país que está entre os mais ricos do mundo e, simultaneamente, entre os campeões mundiais de desigualdade, com milhões de notas na mão de um e milhões de outros sem nem uma nota na mão. Os 40% de Lula não são uma guinada do país ou do eleitorado para a radicalidade ou o “bolivarianismo”. São apenas a resposta aos manifestantes brancos da Avenida Paulista, que deram o golpe em 2016, dizendo que as faxineiras também existem, que os porteiros e serventes de pedreiro existem, que as cozinheiras e garçonetes existem, que as mães da periferia, os lavadores de carro, garis, todos existem e são a grande maioria. A meia dúzia de sempre deu um golpe, tirou Dilma à força, prendeu Lula com pressa em um processo judicial contestado hoje ao redor do mundo. Bastaria depois eleger um candidato deles. Faltou combinar com os pobres.

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Lula

Pouco percebo de política brasileira, pelo que me limito a citar duas evidências e a tirar uma ilação.

Parece que Lula foi condenado por corrupção devido a um apartamento no valor de cerca de 2.2 milhões de reais (531 mil euros). Por outro lado, Temer foi formalmente acusado pela Procuradoria-geral da República em Junho, tendo, no entanto, escapado ao julgamento devido à Câmara dos Deputados não o ter autorizado. Apesar das provas claras.

Dilma afirmou ontem que Lula estava a ser alvo de “perseguição política”. Penso que a declaração não é exacta. O ex-presidente do Brasil está a ser objecto de excepção política, num país onde a corrupção é lei. Concluo que a justiça é um instrumento político no Brasil, muito ao contrário do título sonante da Folha de S. Paulo, “Julgamento de Lula mostra que ninguém está acima da lei, diz jornal britânico“.

Brasil: entre a espada e a corrupção

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Enquanto escrevo estas linhas, o pedido de habeas corpus do antigo presidente Lula da Silva é votado pelos 11 juízes que constituem o Supremo Tribunal Federal do Brasil. Tudo parece indicar que a matemática final ditará a prisão do metalúrgico que chegou a presidente e que caiu em desgraça por causa de um apartamento que ninguém conseguiu ainda provar ter alguma vez sido sua propriedade. Excentricidades de um estado falhado.   [Read more…]

Brasil: golpe (de Estado) mediático em curso?

Perante a cobertura mediática da crise política no Brasil, que não se tem pautado pela isenção e que insiste em tratar de forma diferente aquilo que é igual, a televisão Al-Jazeera apresenta-nos uma nova perspectiva sobre os acontecimentos que tem marcado o Brasil, com o foco na cobertura mediática da imprensa brasileira, cujos principais órgãos de comunicação social são controlados por famílias ligadas ao regime ditatorial e, actualmente, à direita brasileira. O caso da Rede Globo e da família Marinho, que ergueu o seu gigantesco império de comunicação social com o apoio da ditadura, ilustra bem o seu posicionamento e a forma sectária como tem acompanhado a crise brasileira. [Read more…]

Breve sumário da crise política brasileira

A era da informação trouxe-nos um obstáculo de maior quando nos debruçamos perante este tipo de acontecimentos: a cada hora que passa, o rol de informações e contra-informações que os órgãos de comunicação social nos dão a conhecer a uma velocidade, diria, de torpedo, fazem com que por vezes, o nosso discernimento sobre o ponto de situação seja cada vez mais difícil e confuso. Grande valia no mundo actual é conseguir, no meio do cataclismo informativo que nos injectam, conseguir criar uma âncora que nos permita fundar uma opinião limpa e isenta.

Sobre a actual crise brasileira, resumidamente, chego a 4 conclusões e 3 dúvidas:

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