Catroga está a trabalhar atrás do biombo?

Aqui ou no Brasil, espero que Eduardo Catroga ou qualquer outro guru das finanças dos sociais-democratas esteja a trabalhar nos bastidores, em colaboração com o executivo, no acompanhamento da concretização das medidas acordadas com a troika, que têm de ser postas em prática no imediato e que serão auditadas de três em três meses. Espero que o governo, por seu turno, se escuse a jogadas tácticas e que não esteja a atrasar decisões ou legislação que lhe podem causar mossa nas urnas, empurrando responsabilidades para o próximo executivo. Espero, igualmente, que os formalismos sejam neste momento postos de lado e que as declarações dos líderes sobre quem comunicou a quem alegadas alterações ao memorando da troika e sobre quem ficou sem saber dessas alterações não passem de fumo branco lançado sobre uma negociação e um acompanhamento que estão, de facto, a ser feitos por todos os partidos que serão chamados, independentemente do resultado das eleições, a cumprir aquilo com que se comprometeram. Espero que a resposta evasiva de Belém – que pode ser lida na página 17 – sobre as informações disponibilizadas pelo governo junto do Presidente da República não queira dizer que, uma vez mais, o executivo deixou na ignorância agentes políticos fundamentais no garante de um solução futura. Espero que o partido que vencer as próximas eleições saiba que no dia 6 de Junho o cronómetro não está a zero e que tem à sua frente um contra-relógio. Espero que quem ficar na oposição não use o descontentamento da aplicação necessária das medidas de austeridade para galvanização política. Espero, desta forma, que os partidos ajam de uma forma em muito diferente daquela a que nos têm habituado. Espero que se superem.

O que (não) quero ouvir dia 5 de Junho

Não faço apostas sobre vencedores ou sound bites discursivos, mas sei o que (não) quero ouvir da boca do vencedor das eleições na noite de 5 de Junho de 2011. Não quero um discurso virado para o passado, de dedo apontado, mas palavras maturadas por uma longa reflexão sobre o caminho que nos trouxe até aqui. Não quero a responsabilização, mas a responsabilidade de quem sabe que o Estado serviu mal e se tem servido enquanto as assimetrias crescem. Não quero o discurso milagreiro – anos de políticas erradas não se solucionam a 5 de Junho, numa noite, nem provavelmente num mandato eleitoral. Não quero a apologia do fácil, o discurso da ilusão, a negação dos problemas – só uma radiografia honesta poderá evitar falsas partidas. Não quero a diabolização, a exploração do medo, mitos bafientos sobre esquerda e direita ou dicotomias ultrapassadas. Não quero unanimismo, mas promessa de diálogo e decisão firme na discórdia. Não quero um vencedor diminuído por imposições externas ou pronto a sacudir a responsabilidade dos sacrifícios para Bruxelas. Não quero um discurso vazio de prioridades ou de soluções. Não quero um discurso economicista, de números, preso ao défice, à dívida, sem rostos, sem gente, sem histórias – quando a troika nos dá as metas, cabe-nos a nós cuidar das pessoas. Não quero um discurso paternalista, que não lance desafios, que não seja exigente – o mediano não é bom, o bom não é o muito bom, o muito bom não é o excepcional. Não quero um discurso choramingas, de país incompreendido pela Europa, vítima de calculismo interno de outras nações.

Quem fizer o discurso de vitória dia 5 de Junho terá que ter a consciência de que tempos de excepção requerem palavras de excepção.

Atenção, há um elefante na sala

Chegámos ao fim da primeira semana de campanha. Na sala, estão José Sócrates, Passos Coelho e um elefante que se chama troika. Passos Coelho começa por acusar Sócrates de andar a esconder nomeações, que não são publicadas em Diário da República por ordem do governo. Sócrates responde a Passos que não existem nomeações de manhã, mas, à tarde, lá vai dizendo que afinal foram nomeados seis governadores civis. Passos pede mais explicações. O elefante boceja. Sócrates diz que Passos quer fazer política de casos. Passos garante que afinal o que se anda a esconder são gastos públicos. Cita relatórios. O elefante mexe-se na cadeira. Sócrates ensaia uma aula de economia: transferências entre organismos do Estado não aumentam o défice – é tirar de um lado e pôr no outro. Passos responde com a falta de transparência. Agora, são as contratações. Sócrates está indignado, chocado ou com qualquer outro estado de espírito perturbador. O elefante olha para o relógio, no respeito dos prazos democráticos, antes de entrar em cena: vai ter de estar na sala com aqueles dois pelo menos mais uma semana. No entretanto, o tema passa a ser o aborto. Passos votou sim no referendo à Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG), mas considera necessário reavaliar a lei. Sócrates percebe que a intenção do líder do PSD é a de voltar atrás na lei. Sócrates está novamente indignado, chocado ou com qualquer outro estado de espírito perturbador. O elefante começa a ficar impaciente e ausenta-se, por momentos da sala, para reavaliar um novo empréstimo à Grécia e passar os olhos nas últimas do caso DSK. Na sala não há casos – daqueles que envergonham a política e que são esmiuçados pela comunicação social até ao ponto do condenável – há casosinhos. E não é com casosinhos que se esconde um elefante.

Pobres eleitores do centro-esquerda

Percebo o dilema de quem vota tradicionalmente no centro-esquerda. Percebo a orfandade de que padecem os eleitores face à oferta do cardápio eleitoral. Em 2009, nas últimas legislativas, a direita estava desprovida de massa muscular, não era ameaça plausível nas urnas, o governo, diziam os estudos de opinião, era assim-assim, o primeiro-ministro popular e o eleitor de esquerda viu no voto no Bloco, que cresceu sobejamente, uma travessura de percurso, um puxão de orelhas, um ralhete, talvez, para pôr as gentes do governo na ordem. Uma forma de obrigar o executivo, agora sem maioria absoluta, a uma maior humildade e a mais diálogo. A intenção até era boa, pensava-se que os danos colaterais seriam limitados. Sabemos agora, porém, que não houve personalidades que validassem grandes entendimentos e o resultado foi a constante ameaça do caos, uma negociação contínua à beira do abismo.Em 2011, o PSD tem novo líder, ganhou musculatura, mas nunca teve um discurso tão encostado à direita, diz-se, ou pelo menos sente-se epidermicamente, e é uma ameaça nas urnas. O governo já é mau, confirmam os estudos de opinião, a popularidade do primeiro-ministro caiu a pique (será que o PS já vale mais do que Sócrates, quando sempre se afirmou o contrário?), está cansado (estamos cansados?), o Bloco demitiu-se da responsabilidade de negociar a ajuda externa, uma posição que lhe custa votos, as sondagens vêm aos pares e dão empate técnico e o pobre eleitor de centro-esquerda indeciso sente-se asfixiado pela sua responsabilidade. Não votar PS já não é apenas uma travessura, é pactuar com uma vitória dos partidos da direita nas eleições. Votar PS é, sempre, votar no actual governo, premiar um défice histórico, o colapso das contas públicas e a bancarrota. A pouco mais de uma semana do acto eleitoral, percebo o dilema de quem vota tradicionalmente no centro-esquerda, percebo o desejo de alheamento, de fazer a merenda e partir para onde não haja jornais ou televisão.

O Braga das eleições

Há, sem dúvida, um lado muito clubístico no exercício do voto. A bipolarização, reflectida nas sondagens, em torno das eleições de 5 de Junho acentua esta evidência. Podemos não gostar do ponta de lança, ter dúvidas sobre a táctica, achar que a equipa está demasiado à defesa, ter pouca fé no derby final, assistir à derrota em casa por goleada, mas o cachecol, a bandeirola no espelho retrovisor do carro, o cartão de sócio do filho mais novo estão sempre garantidos à espera de alegrias futuras. Da mesma forma, muitos portugueses, quando questionados, consideram que a situação do país é trágica, responsabilizam o governo, têm a certeza de que o memorando da troika trará mais sacrifícios, avaliam o executivo com nota muito negativa, atacam o primeiro-ministro, consideram a liderança do PSD fraca ou inexperiente ou contraditória e, ainda assim, penalizam nas sondagens os partidos que recusaram um acordo com o FMI, BCE e União Europeia e mantêm o voto no PS ou no PSD. Os estudos de opinião confirmam que dos cerca de 70% dos eleitores que vão, de facto, às urnas mais de metade têm um partido com que simpatizam. Daí ouvirmos tantas vezes ”votei no partido X toda a vida”. O eleitor, e ainda mais num momento em que não há vencedor definido, deposita, na maior parte dos casos, o seu voto num partido ganhador. O jargão político do voto-útil é uma dura realidade para os partidos mais pequenos e uma dor de cabeça para o CDS-PP, que quer ser visto como um dos grandes. Tal como o Sporting de Braga, Portas não devia partir para a temporada a dizer que tem equipa para ganhar o campeonato. Até poderá acontecer, mas, ao assumi-lo, os comentadores desportivos depressa acusam o clube de sobranceria.

Sinais do tempo

A prova de que o país está em recessão é o facto de Catroga ainda não ter uma linha de merchandising

Ouvido no elevador

No que diz respeito ao FMI, a empregada do hotel de NYC conseguiu resistir melhor do que toda a extrema esquerda europeia

Dois homens, duas campanhas, um programa

A 5 de Junho os portugueses decidem que partido se coliga melhor com o FMI. O programa de governo será ditado de fora, a personalidade dos candidatos e uma ou outra marca ideológica marcarão as diferenças. Também isto explica o tom crispado da pré-campanha, os sms e as conversas por telefone ou pessoalmente.

Ode aos insubstituíveis

Jaime Gama disse: “Não há pessoas insubstituíveis no PS”. Como é óbvio, Gama falava dele próprio…

O congresso para aquecer para o próximo

Em Matosinhos há dois congressos: o do palco e o da bancada. No palco, a união em torno do líder. Na bancada, há a convicção de um novo congresso dentre de três meses – depois das eleições, portanto.

Com um beijo me trais ou a bênção ao próximo?

“Um dos mais talentosos e mais capazes políticos portugueses”. A frase foi de José Sócrates. O destinatário Francisco Assis.

Ó, Zé!

Há sempre um lado popular latente nos congresso do qual eu gosto muito. Lá fora há quem beba “finos”, cá dentro António Vitorino grita ‘Ó, Zé!’. O mesmo Zé que é há seis anos é primeiro-ministro.

Apagão em Matosinhos

Por aqui também faltou a luz, mesmo antes do almoço. Não foram accionados os sistemas de rega, mas como o congresso em Matosinhos toda a gente desconfia do Marco António Costa.

Jorge Gabriel do PS

José Sócrates tem feito o papel de apresentador do congresso. Num clima próprio de globos de ouro, apresentou Francisco Assis como cabeça de lista pelo Porto e agora acaba de lançar Ferro Rodrigues, novamente, para o estrelato do parlamento.

A partir de Matosinhos, um, dois, três

Este é o meu primeiro texto no Aventar e estou operacional a partir de Matosinhos onde sou testemunha do congresso do PS. Ao mesmo tempo que escrevo este post, a sala está ao rubro: um vídeo com as figuras mais marcantes do PS passa ao som de That’s What Friends are For de Dionne Warwick. Detalhe: apareceram, pelo menos, duas imagens e meia de Manuel Alegre.