Pobres eleitores do centro-esquerda

Percebo o dilema de quem vota tradicionalmente no centro-esquerda. Percebo a orfandade de que padecem os eleitores face à oferta do cardápio eleitoral. Em 2009, nas últimas legislativas, a direita estava desprovida de massa muscular, não era ameaça plausível nas urnas, o governo, diziam os estudos de opinião, era assim-assim, o primeiro-ministro popular e o eleitor de esquerda viu no voto no Bloco, que cresceu sobejamente, uma travessura de percurso, um puxão de orelhas, um ralhete, talvez, para pôr as gentes do governo na ordem. Uma forma de obrigar o executivo, agora sem maioria absoluta, a uma maior humildade e a mais diálogo. A intenção até era boa, pensava-se que os danos colaterais seriam limitados. Sabemos agora, porém, que não houve personalidades que validassem grandes entendimentos e o resultado foi a constante ameaça do caos, uma negociação contínua à beira do abismo.Em 2011, o PSD tem novo líder, ganhou musculatura, mas nunca teve um discurso tão encostado à direita, diz-se, ou pelo menos sente-se epidermicamente, e é uma ameaça nas urnas. O governo já é mau, confirmam os estudos de opinião, a popularidade do primeiro-ministro caiu a pique (será que o PS já vale mais do que Sócrates, quando sempre se afirmou o contrário?), está cansado (estamos cansados?), o Bloco demitiu-se da responsabilidade de negociar a ajuda externa, uma posição que lhe custa votos, as sondagens vêm aos pares e dão empate técnico e o pobre eleitor de centro-esquerda indeciso sente-se asfixiado pela sua responsabilidade. Não votar PS já não é apenas uma travessura, é pactuar com uma vitória dos partidos da direita nas eleições. Votar PS é, sempre, votar no actual governo, premiar um défice histórico, o colapso das contas públicas e a bancarrota. A pouco mais de uma semana do acto eleitoral, percebo o dilema de quem vota tradicionalmente no centro-esquerda, percebo o desejo de alheamento, de fazer a merenda e partir para onde não haja jornais ou televisão.

Comments

  1. Pedro M says:

    Cara Filipa Martins, duas incríveis falsidades numa só frase:

    “Bloco demitiu-se da responsabilidade de negociar a ajuda externa”

    1. Não é “ajuda” nenhuma, é um empréstimo. Quando faço um crédito à habitação não estou a receber “ajuda” do banco, estou a fazer um negócio.

    2. O Bloco não negociou porque não há nada a negociar, a própria troika chamou ao que fez uma consulta pública, nunca fez nem disse fazer uma “negociação” com quem falou. Fez uma consulta pública porque pareceria mal não fazer qualquer tipo de auscultação, limitando-se a entregar um programa ao governo. Como disseram a UGT e a CGTP após a “negociação”: “Eles devem ter ouvido o que dissemos porque não disseram nada e olhavam para nós”. Mas que maravilha de “negociação”!
    Só o Governo podia negociar (algo que previamente já tinha acordado), apesar do teatro todo que a restante oposição fez a brincar à “negociação” que só existe no discurso. Nem os líderes do PP/PSD estiveram presencialmente nas fantochadas que pelos vistos toda a gente engoliu como “negociação séria”, jornalistas acéfalos incluídos.
    “Auscultação prévia ao empréstimo”, não “negociação da ajuda”. Poupem-me.

  2. Ricardo says:

    Caros eleitores, voces não pensam pela vossa cabeça.

    Hipotese número 1: O que está a dar é votar PSD. Se votarem PSD são espertos, se votarem PS são burros.

    Hipotese número 2: O que está a dar é votar PS. Se votarem PS são espertos, se votarem PSD são burros.

  3. Nightwish says:

    Como votante constante no BE, sabendo o que sei hoje, tenho muita pena de não ter votado na Ferreira Leite…
    Mas nunca se pode ir pelo voto útil porque nenhum dos candidatos se mostra até lá chegar. Só Passos Coelho é burro o suficiente para se enterrar.