Ovos de serpente

Os grandes males começam por vezes com uma pequena afronta, a mancha inicial que, por ser pequena, se perdoa ou ignora, mas há-de alastrar.

Começam por prevenir-nos de que não podemos comer bife todos os dias. Ou que não podemos todos ter acesso aos mesmos tratamentos médicos. São frases que se apresentam como razoáveis, que pretendem apelar ao nosso bom senso e quem as profere garante não pretender ofender os mais pobres e muito menos pôr em causa os direitos dos mais vulneráveis. E de um ponto de vista estritamente racional e abstracto, imaginando que estamos a falar de células numa folha de cálculo, por exemplo, até podemos dar por nós a concordar. É verdade, não se pode comer bife todos os dias. E para quê desperdiçar um tratamento caro em alguém por quem a ciência pouco mais pode fazer? [Read more…]

O Bife

O BIFE JÁ NÃO AGUENTA
Pertenci a um grupo de pessoas que podia comer bife de vaca todos os dias, embora, por razões de saúde, o não fizesse. Hoje pertenço aos que o não podem fazer por razões económicas.
As carnes vermelhas, em excesso, fazem mal. As de porco também, e muitos outros alimentos o fazem de igual modo. Mas na realidade o que está na ordem do dia é o consumo do bife da vaca.
Por falta de dinheiro, já o foi por causa das vacas loucas, o consumo deste tipo de carne nos dias de hoje está em crise.
Do mesmo modo que na nossa vida de cidadão Português, em Portugal, quem vive do comércio da dita carne ganha menos dinheiro, e as vacas vivem mais tempo. É a crise na sua visão mais simplista.
As declarações da senhora Presidente do Banco Alimentar Contra a Fome provocaram uma azia quase geral nas gentes que pensam tudo saber e poder dizer. [Read more…]

Vazio

Vazio (mais um conto do meu filho Marcos Cruz; peço desculpa pelo abuso)

António era um bife. Mal passado, passava mal. Mas tinha a resistência suficiente para lutar contra os que o queriam passar bem, pois sabia que “uma vez bem passado, bem passado para sempre”. Passava mal no presente, mais precisamente, já que o seu passado fora até bem passado, ou, como todos os passados, bem e mal passado. Em parte, era com isso que ele se passava: se, por um lado, “uma vez bem passado, bem passado para sempre” e, por outro, o seu passado havia sido bem e mal passado, ou seja, em parte, bem passado, porque não estaria ele bem passado no presente? Talvez, sem o ter presente, estivesse. Mas então por que razão passava mal? [Read more…]