O palhaço e o anão do caralho

No fim-de-semana, os portugueses puderam assistir a um debate entre um palhaço e um anão do caralho. Quando temos a possibilidade de ouvir vozes autorizadas, não devemos desperdiçar a ocasião e todos sabemos que, desde o mundo académico do futebol até ao campo relvado da política, não há melhor do que um palhaço e do que um anão do caralho.

A garantia de que estas duas designações estão bem aplicadas releva do facto de que os participantes no debate as aplicaram um ao outro: coube ao anão do caralho designar o outro como palhaço, levando a que este, simpaticamente, confirmasse que o oponente era exactamente um anão do caralho.

O rigor, como se sabe, nasce, frequentemente, do distanciamento – nada melhor do que um Outro para nos definir. Ainda recentemente descobri a minha condição de bovino, quando um simpático automobilista me chamou a atenção para o facto de me ter esquecido de assinalar a mudança de direcção, gritando-me ternamente: “Ó boi, olha o pisca!” E aquele momento foi, para mim, uma epifania, o reconhecimento de que só um animal ruminante poderia andar a pastar no meio do trânsito, sem explicar para onde vai. Mugi uma desculpa e pensei em palha. [Read more…]

Ide todos acordar com uma pérola no cu

evaristo

A não-questão de um fiscal das finanças poder interpelar um cidadão à porta das lojas (o medo, formatado já em paranóia,  anda de tal forma espalhado na sociedade portuguesa que alguns levaram a sério algo que só poderia  convidar o comum cidadão a chamar de imediato a polícia), levantou um problema linguístico que sendo clássico merece tratamento sem pinças, nem pintelhices.

Perante um “tomar no cu” vindo do Francisco José Viegas, porque foi secretário de estado, algumas almas, tão puras  putas como os seus privados vícios, insurgiram-se com o cu. Destaca-se o Público, que eu por vezes penso ser um jornal a sério, mas a coisa espalhou-se.

É o português educadinho, das aparências, gravata, salamaleque e muita irritação contra o malcriado dos palavrões. Sim. ele há palavras, palavrinhas e palavrões, para os mesmos mentecaptos que  distinguem calão de gíria e pensam ser a língua sua propriedade erudita, grávida de normas, padrões, etimologias e outros absurdos que um mínimo de História da Língua arrasa em instantes, eles que ainda falariam latim com um pouco de grego à mistura não fosse o português propriedade colectiva e a lei do menor esforço o primeiro artigo da sua constituição.

Parentes de direita dos que à esquerda não gostaram de um “escurinho” na boca de Arménio Carlos, trata-se basicamente de caralhetes que confundem significado com aparência, elegância com o linguajar abichanado da burguesia, língua portuguesa com preconceitos sociais de classe. Sim de classe, que elas existem, destilam ideologia e lutam entre si, discretamente num enrabanço não desejado por quem o toma, apanha ou mesmo leva, no cu e na vida (aqui entraria na pseudo existência de brasileirismos onde há uma única língua transoceânica, mas essa variante nacionalista do mesmo fascismo e seus anti-acordismos xenófobos e  primários fica para outra ocasião, que infelizmente há muitas). [Read more…]