Ide todos acordar com uma pérola no cu

evaristo

A não-questão de um fiscal das finanças poder interpelar um cidadão à porta das lojas (o medo, formatado já em paranóia,  anda de tal forma espalhado na sociedade portuguesa que alguns levaram a sério algo que só poderia  convidar o comum cidadão a chamar de imediato a polícia), levantou um problema linguístico que sendo clássico merece tratamento sem pinças, nem pintelhices.

Perante um “tomar no cu” vindo do Francisco José Viegas, porque foi secretário de estado, algumas almas, tão puras  putas como os seus privados vícios, insurgiram-se com o cu. Destaca-se o Público, que eu por vezes penso ser um jornal a sério, mas a coisa espalhou-se.

É o português educadinho, das aparências, gravata, salamaleque e muita irritação contra o malcriado dos palavrões. Sim. ele há palavras, palavrinhas e palavrões, para os mesmos mentecaptos que  distinguem calão de gíria e pensam ser a língua sua propriedade erudita, grávida de normas, padrões, etimologias e outros absurdos que um mínimo de História da Língua arrasa em instantes, eles que ainda falariam latim com um pouco de grego à mistura não fosse o português propriedade colectiva e a lei do menor esforço o primeiro artigo da sua constituição.

Parentes de direita dos que à esquerda não gostaram de um “escurinho” na boca de Arménio Carlos, trata-se basicamente de caralhetes que confundem significado com aparência, elegância com o linguajar abichanado da burguesia, língua portuguesa com preconceitos sociais de classe. Sim de classe, que elas existem, destilam ideologia e lutam entre si, discretamente num enrabanço não desejado por quem o toma, apanha ou mesmo leva, no cu e na vida (aqui entraria na pseudo existência de brasileirismos onde há uma única língua transoceânica, mas essa variante nacionalista do mesmo fascismo e seus anti-acordismos xenófobos e  primários fica para outra ocasião, que infelizmente há muitas).

Aturo isto desde pequenino, embora, convenhamos, tenha havido progressos. Quando Jorge Sousa Braga escreveu o genial poema onde roubo o título poucos o colocaram nas montras. Miguel Esteves Cardoso teve mais sorte com o Amor é Fodido, mas este não conta, o livro é uma cagada tão grande que nunca mais voltei a ler o MEC que idolatrava.

O português educadinho é uma construção utópica. Dá quecas, no intervalo de fazer amor, não fode. Facilmente manda alguém para o desemprego, nunca para o caralho. Eventualmente comenta a promiscuidade da senhora sua mãe, nunca invocará a respectiva labuta profissional como puta de estrada. Na versão de esquerda procura machismo e racismo em tudo o que seja frase, texto e subtexto, incapaz de chamar preto a um negro mesmo que lhe saia um “ó afro-europeu, és uma besta“. O problema disto tudo está em que uma besta não tem coloração de pele.  Um filhodaputa é apenas um sacana, não tem nada que ver com quem o pariu. Um par de mamas não tem melhor apreciação estética, ou amorosa, se lhe chamarmos seios (uma foda de palavra), e, com vossa licença, um caralho é um caralho e uma cona é uma cona, pénis e vagina têm os urologistas e os padres na boca. Isto não tendo classe nenhuma é de classe: o calão para eles não é uma mera gíria social, faz com muito boa vontade parte do registo popular da língua, que horror, misturar línguas de classes diferentes é uma felação, ou seja, um broche/minete/69 insuportável.

Disse com vossa licença porque foi através desta variante do desculpe lá qualquer coisinha que percebi toda a relatividade e inocência da língua portuguesa, chamem-lhe traiçoeira mas não a encornem. Algures nas fraldas da Serra do Açor, em conversa com gente idosa de caralho e foda-se e o catano fácil, a palavras tantas comentando a qualidade de um certo presunto solta-se um “é que este porco fui eu que o criei“, ups, o homem fica vermelho, a mulher acorre em socorro: “desculpem lá os senhores que ele é um malcriado” e  lá veio o retoque: “o porco, com sua licença, o bácoro, fui eu que o criei“.

Vim-me mentalmente, putaquepariu, quando construímos preconceitos sobre as palavras sai mesmo bacorada. Vale para ambos os lados da tal luta de classes.

Imagem: Rui Ferreira (Facebook)

Comments


  1. Abismada!!! Mas gostei do texto.


  2. bom texto.ler millor fernandes sobre este assunto

  3. Carla Romualdo says:

    Puta que pariu! (que é como quem diz, caprichaste, ó Cardoso)


  4. gramei como o caralho o que escreveste


  5. Brilhante!


  6. foda-se,como o caralho e outras expressões do genero deviam fazer parte da constituição

  7. Marilia Costa says:

    Wawwwwwwwwwwww……….. 😀


  8. Se as pessoas caralhassem mais, seriam muito menos stressadas. Viva o palavrão!


  9. Bem visto.

  10. Gisela Martins says:

    andas a falar bem

  11. palavrossavrvs says:

    Brilhante, amigo!


  12. Fodasse, que texto do caralho, um gajo tem que dizer uma puta duns palavrões de vêz em quando senão a merda aloja-se no cérebro.
    E este governo é mesmo chei ode filhos da puta.

    Não se se alguém tem conhecimento, na austrália é um comprimento normal chamar cona a alguém conhecido. Isso é que é gente com mentalidade de adulto.


  13. Sem duvida que um “punheta d’um cabrão” Alentejano ou um “filha das putas” da Ribeira não molestam mais que o discursso, do “Gasparzinho”, o fantasminha amigo…


  14. “A não-questão de um fiscal das finanças poder interpelar um cidadão à porta das lojas…”
    Nada de novo! De resto este tipo de manobra legislativa para entreter/distrair o pessoal é normal, e é prática corriqueira!
    Alguém que PENSE por dois segundos sobre esta treta legislativa, rapidamente dará conta de que é mesmo só conversa fiada de máfia sem grande talento… Mas com jeitinho!
    E de resto este pequeno texto legislativo está ao mesmo nível, em termos de real execução, de outros que padecem da mesma intenção. Como a proibição da venda de álcool a “menores”, ou a proibição da venda de tabaco a “menores”, e restantes proibições… Umas mais pornográficas que outras!
    Por isso a única coisa para que serve este curto texto legislativo já foi atingida…
    Distrair o pessoal.
    Fazer com que alguns que ainda acreditam na ILUSÃO de que vivem num “ESTADO DE DIREITO”, se sintam empossados do “dever fictício” de serem FISCAIS a CUSTO ZERO da Máfia do Estado, tais OTÁRIOS QUE SÃO 😆 😆
    Permitir que a Populaça liberte mais um pouco de vapor e alivie a pressão, dizendo e proferindo calões à vontadinha…

    De resto… Continua TUDO NA MESMA…
    Be 😎


  15. to or not to be.tomar ou levar.um paradoxo do caralho.

  16. Amadeu says:

    Perfeito. Não há a acrescentar um pentelho.


  17. Além de interessante, retratador. Enganchou-me o texto.


  18. Para vermos como somos um país de educadinhos atente-se como aqui ao lado o El País traduziu o nosso “Que se lixe a troika” para “que se joda la troika”…

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