O cravo das mãos do povo

A maior parte do território que é a minha alma está ocupada por um imenso oceano de cinismo, em que os políticos são todos demasiado parecidos, a humanidade é essencialmente desagradável e o futuro é tão provavelmente mau que a felicidade é constituída por pequenas ilhas onde habitam hojes prazenteiros que convém aproveitar, porque os amanhãs até poderão cantar, mas há sempre o risco de desafinarem.

Esse cinismo afasta-me frequentemente do orgulho ou do sentimentalismo, mas há excepções. Lembrar-me da alegria do 25 de Abril e ouvir a “Grândola” deixam-me sempre arrepiado e perto da lágrima feliz.

Por estes dias, morreu Celeste Caeiro, lembrada pelo João Mendes. E eu, avesso a trompas épicas, impedido pela minha personalidade de ser bairrista, de ser saudosista ou de acreditar desmesuradamente em qualquer ideologia, sorrio, enternecido, quando me lembro que o símbolo de uma das revoluções mais bonitas da História saiu das mãos de uma mulher do povo, do mesmo povo que o monstro do salazarismo pisou durante quase 50 anos.

É por isso que, todos os anos, faço um pequeno intervalo no meu cinismo e pego num cravo. Muito obrigado, Celeste Caeiro.

Celeste dos Cravos, Sempre!

No dia em que se assinalam os 50 anos da aprovação do decreto-lei que deu a todas as mulheres portuguesas o direito de votar em liberdade, perdemos uma das mais icónicas personagens do 25 de Abril. Celeste Caeiro, a mulher que, sem saber, se eternizou a distribuir cravos pelas espingardas dos militares revoltosos no dia da revolução, partiu hoje, aos 91 anos.

Espero que Lisboa saia à rua para lhe dar a despedida que merece. Ela não hesitou, apesar das debilidades, em descer a Avenida nos 50 anos do 25 de Abril.

Descansa em paz, Celeste dos Cravos.

O 25 de Abril também se festeja aqui

Esta foto é da @streetart_mallorca e o autor do grafiti é Abraham Calero. Está na Rambla em Palma de Maiorca. Porque a Liberdade é universal. Porque o 25 de Abril é de todos. Porque Celeste Caeiro não será esquecida.