Como Se Fora Um Conto – As Minhas Férias na Montanha (segunda parte)

AS MINHAS FÉRIAS NA MONTANHA (SEGUNDA PARTE)

(CONTINUAÇÃO DAQUI)

Um ano sem nos vermos. Tanto tempo!

A ESTADIA

Da minha idade, os meus amigos eram o A e o O, a A e mais alguns, cujos nomes a memória apagou, provocada por quarenta anos de ausência, que não as caras, essas presentes e marcadas indelevelmente em mim. E todos os outros, que pela idade poderiam ser meus pais ou avós. A sra Isaura, a sra Zulmira, o sr Manuel Inácio, a I, o primo T M, o Zé das porras (interjeição sempre presente nas suas palavras), o Brasileiro, porque esteve para ir para o Brasil embarcado, o B.

Havia ainda o Padre que tinha um rádio a pilhas que tocava alto na janela, e a irmã mais nova deste, que um dia se zangaram connosco. Tanta gente boa, tantas lembranças saudosas.

Em Meneses viviam os Marta, os Maio, os Miranda, e outros igualmente importantes. Esta aldeia chegou a ter um movimento imenso de pesssoas. Hoje está reduzida a meia dúzia de habitantes.

Depois de tudo arrumado, ou ainda antes dada a euforia do momento, saía de “nossa” casa em direcção à casa do meu amigo A. Por lá, o pai, a mãe e o irmão, davam-me calorosamente as boas vindas. A prova do presunto ou do salpição, acompanhados pelo minúsculo copito de vinho, era obrigatória. Durante a prova, que os donos da casa faziam questão de providenciar, contavam-se as novidades, e punha-se a conversa em dia. Havia sempre muito que contar. Um ano de ausência é muito tempo.

Depois corria as “capelinhas” todas. A casa do primo, a casa do Padre, a casa da A, e acabava em casa da I. Em todos os lados, as mesmas conversas, e as mesmas provas, com as cambiantes próprias das diferenças de interesses de cada um.

O regresso a casa foi numa das vezes, complicado. Convém dizer que entre as duas casas mais afastadas não distavam mais de duzentos metros. A aldeia é pequenina.

Já perto do fim da tarde, com o sol a pôr-se para lá dos montes, regressava eu da minha última visita, quando me perdi. Dei por mim a não saber onde estava nem o que fazia por ali. Depois das muitas provas, quatro ou cinco, de um copito meio cheio de vinho em cada casa, de muitos cigarros (sim, naquela altura eu fumava uns cigarritos) a acompanhar, e de pouco pão de centeio e pouco presunto e salpicão, fiquei um pouco etilizado. Deveria ter perto de dezoito anos quando isso aconteceu. Com muita dificuldade, e também um pouco de sorte, já escuro, cheguei a casa. O jantar foi frugal, mas a bebida continuou a acompanhar-me, assim como os cigarros. Estava instalada a minha primeira bebedeira assumida (tinha havido, anos antes, uma outra, dizem as más línguas, que nunca aceitei que o fosse). Aquela noite ficou-me gravada para sempre. Passei mal, muito mal, e como resultado, não bebi mais durante dois anos, e não fumei durante cinco. Infelizmente ainda retomei o cigarro durante sete anos, altura em que acabei com eles para sempre.

No dia seguinte, começavamos a acalmar da euforia do dia anterior. Com a chegada do pão, fresquíssimo, grande, de centeio ou de mistura, acordávamos. A noite mal se tinha despedido de nós. Depois as coisas habituais. Ver quem ia primeiro à casa de banho, minúscula. Era uma “guerra”. Quem se levantasse mais cedo, mais sorte tinha. Depois, o pequeno almoço. A mesa já posta, o leite, o café, o chocolate, a manteiga, tudo em cima da mesa a chamar por nós. E os seus cheiros, esses, acompanham-me desde então. Quando os sinto, salivo, e uma saudade tremenda apodera-se de mim. Comíamos como se fosse a nossa última refeição. Os ares da montanha tinham começado já a fazer efeito. Saboreávamos tudo muito devagar. Tudo era feito com muita calma.

Como sempre, após ter comido, e em paz comigo e com o mundo, saía, dava a volta à casa, e ficava durante algum tempo, a olhar o vale, a serra e os campos espalhados pela encosta. Também me deliciava a sentir os cheiros que ali eram totalmente diferentes dos da cidade. Não me cansava de olhar. Era a altura do dia que eu mais gostava. Dei comigo a pensar muitas vezes, nos últimos anos que por lá andei, que seria ali que gostaria de vir a acabar os meus dias.

Nos anos, e foram bastantes, em que todos os primos, ou quase, estavam juntos, não havia lugar para todos dormirem em casa da sra Margarida. Por essa razão, eu ia dormir em casa do meu amigo A. Era bom, era diferente. Era uma maravilha.

A casa dele, separada da outra por uma vereda, era antiga, o chão era de largas réguas de madeira, em grande parte por cima das cortes do gado e tinha uma varanda sobre o vale e a serra. Perdia-me de amores pela varanda. Adorava estar lá a olhar, a olhar.

Foi lá que aprendi a ouvir o silêncio, quebrado aqui e além pelo vento, por um restolhar dos braços das árvores, pelo chilrear de algum pássaro ou pelo mugir de algum boi.

Fui muitas vezes com estes meus amigos, “trabalhar” para os campos. Eu nada fazia, claro. Mas levava a enxada, a mais pequena como é evidente, e às vezes a barriquinha do vinho, ou a merenda.

Quando isto acontecia, o dia era diferente para melhor. Os pés nus na lama e nos regos da água, os cheiros, o da terra acabada de cavar, ou o da erva cortada, ou ainda o do folhelho arrancado e atado mesmo ali a meu lado.

Era uma jorna dura, de trabalho árduo, de que eu mal me apercebia. Eu era o menino da cidade que nada sabia fazer e só estava a passar férias. Os meus amigos e o pai deles, trabalhavam quase sem parar. Os intervalos eram raros, e só para um gole na barrica ou para uma bucha de pão.

Quando regressávamos a casa, eu vinha feliz. Sujo de terra, mas feliz. Tinha sido um dia em cheio. Dos que valem a pena lembrar pela vida fora.

Noutras alturas, estamos em Setembro, lembram-se (?), acertávamos na semana da vindima. A azáfama era imensa. Era preciso ser rápido, que havia muita uva para apanhar.

Na minha memória ficaram estampados os grandes cestos de vime onde todos despejávamos o que íamos colhendo, os pequenos cestos pendurados nas ramadas ou nas escadas, as tesouras, os cheiros, sempre os cheiros que ainda hoje sinto, os carros de bois, a alegria estampada no rosto de toda a gente.
Nestas coisas eu já ajudava, embora pouco, e por pouco tempo. Depois, mais tarde, quando tudo apanhado, havia o pisar das uvas com os cânticos dos homens descalços dentro do lagar, a pisar, a pisar, a pisar.

Adorava estar no meio deles. Sentia cócegas nos pés ao calcar as uvas. Entalado entre dois dos homens, era engraçado reparar como, ombro com ombro, íamos pisando ritmadamente sem parar. E mais uma vez, o cheiro forte da uva pisada.

Mas os trabalhos que aqui relato, eram esporádicos, para nós, crianças. Na maior parte do tempo, os dias eram gastos em brincadeiras infantis. Um “pau” de milho (o caule da planta, que na sua parte superior faz uma curva onde encaixa a espiga), servia como espada, e também servia como cavalo. Com um pau atravessado a unir dois caules na sua parte superior servia como junta de bois. E lá fazíamos as nossas lutas de capa e espada, as nossas cavalgadas, ou os nossos trabalhos do campo, imitando o som maravilhoso dos carros puxados pelos bois. Iiiiióóóó … íiiiióóóó… íiiióóóó.

As horas passavam bem depressa. Logo logo era noitinha e íamos para casa. Durante o dia só lá passávamos para o almoço ou para o lanche. De resto andávamos pelos montes, sozinhos, sem necessidade de quaisquer cuidados. Por vezes íamos às aldeias vizinhas, Moçães, Torgueda, Arrabães, só por ir, ou para telefonar aos nossos pais, ou ainda para comprar, na “venda”, alguma coisita que a sra Margarida necessitasse (a venda era uma espécie de mercearia onde havia de tudo, desde pão ou grão ou caramelos, até enxadas ou productos para a terra, ou ainda telefone ou serviços de correio). Também para deitar qualquer carta no marco do correio, ou para comprar o respectivo sêlo. Se a memória me não falha, naquelas bandas, só havia um telefone em Moçães e outro em Arrabães. Sá havia marco do correio em Arrabães e uma venda em cada uma dessas aldeias. Em Torgueda, havia a igreja onde aos domingos íamos à missa, e o cemitério.

Foi em Meneses que pela primeira vez, vi lacraus. Os meus amigos mostraram-mos, levantando algumas pedras, e ensinaram-me a não me meter com eles. Foi por lá, que me familiarizei com os bichinhos que existem por todo o lado, aprendendo a não ter medos e a saber respeitá-los. Foi lá, em Meneses que aprendi muito do que a vida é.

As noites eram engraçadas. Quando nada havia para fazer, jogávamos às cartas (ao burro, à bisca dos três ou dos sete, ao crapô ou à canasta), ao dominó, ao jogo chinês e às adivinhas. Tudo debaixo da luz do petromax ou do gasómetro. E era giro. Adorávamos as noites sem horário para deitar.

Mas quando havia que fazer, valia ainda mais a pena. E o que havia para fazer, era trabalho que todos fazíamos com muita satisfação. O mais interessante de todos era o debulhar do milho. Juntavamo-nos numa espécie de cabanal, ou eira fechada, sentavamo-nos em roda e começávamos a debulhar o milho. Havia conversas, cânticos, anedotas, tudo o que se possa imaginar. Na roda, muita gente, nova e menos nova. Rapazes e raparigas das mais diversas idades. Tudo numa alegria imensa, que explodia quando alguém apanhava uma espiga vermelha. O milho rei. O felizardo ou felizarda, tinha então direito a festa, a beijos, a abraços e a ditos maliciosos. Quando tinha a sorte de me calhar a mim, sempre corava de vergonha. Tinha de escolher uma moça para me beijar, e a minha timidez não me deixava. A vontade era imensa, e no fim, depois de risos e chacotas, lá acabava por se concretizar o meu prémio. E o beijo lá vinha, acompanhado das brincadeiras dos restantes, e era dado na parte da cara que mais longe estivesse da boca. Às vezes, quase na orelha, que na testa não era permitido. Satisfação interior grande, a minha, e a cara mais vermelha que o milho. Havia quem fosse malandro e  escondesse a espiga de milho rei atrás das costas para que ciclicamente fosse bafejado com a “sorte”. Eu, nunca fui capaz de o fazer. Azar o meu!

As férias acabavam depressa. Normalmente no dia de aniversário do dono da casa, ou no Domingo a seguir, que era o dia do almoço, onde toda a minha família ia, e onde quase não se notava que era para festejar a ocasião. No entanto, nunca vi aquele senhor queixar-se de alguma coisa. A felicidade dele e da sra Margarida em nos ter lá a todos, assim como de toda a gente que connosco convivia, era enorme, e não se preocupavam com menores atenções, se é que alguma vez existiram. Eu, também só acabei por reparar nessas coisas, muito mais tarde, e é até possível que nem fosse tanto assim.

A tarde chegava num ápice. Tínhamos de estar no Porto antes de anoitecer, que o Marão era perigoso de descer. Encontrávamos nevoeiro com muita frequência. Pelo menos duas horas de caminho, se não mais.

Despedidas, abraços, promessas, beijos.

-Até para o ano.

-Adeus, até para o ano.

-Façam boa viagem.

-Obrigado, fiquem bem.

Um último aceno antes da curva da estrada que nos impedia a visão.

Uma lágrima no canto do olho, aparecia por vezes, e eu fazia todos os possíveis para a disfarçar, mesmo de mim.

Quando dei por ela, tinham passado alguns anos, muitos, sem que eu lá voltasse naquela altura do ano, e até alguns, demasiados, em que simplesmente não ia de forma alguma. As minhas férias na montanha, naquela aldeia maravilhosa, tinham acabado há muito. E aí, a saudade chegou, mas não havia nada a fazer.

A não ser, talvez, conseguir deixar um testemunho saudoso.

In O Primeiro de Janeiro, 4-11-2009

Como Se Fora Um Conto – AS MINHAS FÉRIAS NA MONTANHA (PRIMEIRA PARTE)

Antigamente, no meu tempo de criança e de adolescente, os afortunados, como eu e meus primos, tinham férias na praia e férias no campo. Nós, os nove netos de meu avô paterno, tínhamos ainda férias na montanha. Éramos duplamente afortunados.

A praia era a de sempre, no Porto, na Foz, a praia de Gondarém. Habituei-me a ela como se fosse a minha roupa interior. Até aos dezassete ou dezoito anos, não conheci outra. Ao longo da vida, acabei por fazer praia em Matosinhos, em Leça, em vários locais do Algarve, e no Porto Santo. Mas sempre venceram, quando as comparava, as férias da praia de Gondarém.

Disso no entanto, falarei noutra altura.

As férias na praia duravam quase dois meses, às vezes mais. As férias no campo, tinham a duração de semanas, mas nunca eram seguidas. Uns dias agora, outros depois. Uma semana aqui, outra acolá. Nunca tiveram muita expressão enquanto tempo seguido e sem intervalos. Mas era tempo de qualidade, e minha avó tinha pulso de ferro para domar os netos. A educação era uma constante. A aprendizagem necessária, e sempre presente. Iamos para casa do meu avô Júlio, e por lá andávamos, no campo, no curral, na casa do forno, em casa de uns tios que também tinham um grande terreno, etc.. As brincadeiras com os meus primos arrastavam-se pelo dia todo. Foi lá que aprendi a andar de bicicleta. Fiz por lá bons amigos, de que um dia falarei. Era perto do Porto, cerca de trinta quilómetros, num planalto, e os ares eram bons. A vila, hoje uma cidade que cresceu mal, era pacata, e convidava ao descanso e ao fazer nada. Havia, ao longo das ruas, árvores. Grandes amoreiras de enormes amoras brancas e estremamente doces.

O importante, a quinzena que mais desejávamos, os nove netos, uns mais que outros claro, até pela diferença de idades (entre o mais velho e a mais nova havia treze anos de diferença), era a que, em Setembro, iríamos passar a Meneses.

Meneses é uma aldeia quase perdida no cimo do Marão, já a poucos quilómetros de Vila Real. A minha família paterna por parte da minha avó, era de lá, daquela zona. Campeã, Boavista, Gontães, Bisalhães, Paradela, Moçães, Pomarelhos, Arrabães, Torgueda, e por aí fora, num rosário de nomes de aldeias por onde andei ao longo dos anos, fizeram parte, a par com Meneses, da minha infância e da minha juventude.

Meneses era o nosso posto de comando. Lá ficavamos, em casa da sra Margarida e do sr Aurélio, criados (como se dizia na altura e sem sentido algum pejorativo) de meus avós, e ainda parentes afastados por via de um tio casado com uma irmã de minha avó, e homónimo do dono da casa. No fundo eram os nossos grandes amigos, que nos cediam a casa para passarmos dos melhores dias das nossas vidas, e ainda se atarefavam a cuidar de nós. Eram umas excelentes pessoas.

As semanas escolhidas eram duas de Setembro, que ficassem próximam do dia de aniversário do sr Aurélio. Fazíamos uma grande festa em honra dele, nessa altura, e toda a minha família paterna estava presente. Quase parecia que o almoço era em nossa honra e não dele, tal a importância que cada um dava a si mesmo. De qualquer forma, ninguém se esquecia de levar um presente, claro.

Durante os quinze dias em que por lá andávamos, felizes com a liberdade alcançada pela ausência das nossas mães e pais, fazíamos de tudo. Ou melhor, fazíamos de nada, já que só nos deixavam ver como se fazia. Víamos tratar do gado, tratar das terras, tratar das roupas, dos almoços e jantares, e também víamos como o tempo passava devagar, à velocidade dos pachorrentos bois amarelos e de grande cornadura que por lá abundavam. Como me lembro tão bem das idas diárias para o campo, com o meu grande amigo e o irmão mais novo e o pai deles. Como me recordo, como se fosse hoje, dos meus pés nús enterrados na terra molhada, feita lama, das barricas pequeninas de pôr à cinta, com vinho, e da merenda que sempre se levava, que a fome a certa altura apertava.

A VIAGEM

Naquele tempo, já lá vão umas dezenas de anos, íamos para Meneses, de camioneta. Saíamos de Paços de Ferreira, terra de meu pai e onde vivia o meu avõ, ainda a manhã estava sonolenta. Íamos no velho Anglia azul até Paredes. Por lá passava a camioneta da carreira, que vinda do Porto, iria até Vila Real. Eram quatro horas de caminho, com o tempo a aquecer cada vez mais.

Uma primeira parte do trajecto era feita até Amarante, onde se fazia uma paragem prolongada, depois das muitas paragens rápidas para entrarem e saírem pessoas, que a espaços a camioneta fazia. Nessa paragem, que fazia parte do sofrimento que era a viagem, eu aproveitava para ir visitar um amigo da praia a sua casa, o Alberto, que morava mesmo em frente ao local de paragem da carreira, e pertencia a uma família abastada da cidade. A visita era necessariamente rápida, mas servia para lembrar os dias na praia de Gondarém, que recentemente tinham acabado, e para fazer as últimas despedidas até ao verão do ano seguinte. Só nos víamos nessas alturas. Depois de acabarem as nossas idas anuais a Meneses, nunca mais o vi, nem na praia, para onde nunca mais deve ter ido. Anos mais tarde soube que a firma do pai, já não existia, devorada pela voragem dos nossos dias. Dele, nada mais soube.

Quando tínhamos sorte, nós os netos de meu avô, íamos acompanhados unicamente pela sra Margarida, de quem já falei noutra crónica. Ela, coitadinha da senhora, levava ao colo, sempre, um balde e um saco plástico, pois que ainda estaria para vir o dia em que não enjoasse com os solavancos do transporte. Quando a sorte era menor, mas mesmo assim agradável, claro, íamos também acompanhados pela única tia solteira da família. Nessas alturas tudo era mais controlado.

A segunda parte da viagem, ia começar. Mais de duas horas a subir lentamente o Marão. Curvas e mais curvas e contra-curvas. Devagar, muito devagar. E a sra Margarida a enjoar. Padronelo, Ansiães, sempre muito lentamente, com paragens sussessivas e a sra Margarida numa agonia terrível. Quando chegavamos à Campeã e à Boavista, estava já perto o fim do sofrimento, e um sorriso ia aparecendo naquela cara rechonchuda.

Nunca íamos os nove na camioneta. Os dois mais velhos, ou já não iam nessas alturas, ou já tinham permissão de irem mais tarde, de carro. Um ou outro dos restantes, num ano ou noutro faltavam à chamada. Na maior parte dos anos, éramos entre cinco e sete, os que ficávamos os quinze dias inteiros. Desde muito novo e até aos meus dezoito anos, não me lembro de ter faltado vez alguma.

Por fim lá chegávamos ao Alto da Serra. Pouco depois, numa curva da estrada, junto ao Barro Vermelho, saíamos. À nosso espera, o sr Aurélio. A seu lado, um carro de bois, ou de boi, já que a maior parte das vezes em que vinha, só trazia um. Noutros anos, não estava ninguém à nossa espera para nos ajudar, e o caminho até casa era mais penoso. Tínhamos mais uma hora, ou mais, de caminho, pelos montes, a corta mato, a caminho de Meneses. Iiiióóóó´… iiiiióóóóó … iiiiióóóó… lá íamos nós acompanhados do ruído calmo e característico do eixo de madeira do carro.

Infelizmente, o progresso acabou poucos anos depois com a hipótese de fazermos essa viagem, uma vez que alargaram e arranjaram a estrada entre Arrabães e Meneses, por onde já se podia passar de carro, e era mais fácil e curto o trajecto, mais tarde com os eixos de madeira, e dessa forma com o cantar maravilhoso que os carros faziam. E, mais tarde ainda, a ida para aquele paraíso era feita por cada um por si, ou pelos paizinhos respectivos que nos levavam. A viagem ia perd
endo a graça e ganhando comodidade.

O som desses carros de bois, que ainda de madrugada e depois ao fim da tarde, ouvíamos pela serra, ainda hoje ecoa na minha cabeça, e enchem-me de saudade.

A chegada a casa era para nós um momento de glória, depois de tantas horas de caminho.

A casa da sra Margarida, como nós lhe chamáva-mos, era muito pequenina, com pouco menos de quarenta metros quadrados, e a janela de um dos quartos e a da sala estavam viradas a poente. A casa em si, debruçava-se sobre um vale. Nos primeiros anos, nem paredes interiores tinha. As divisões eram feitas por meio de cortinas, e, convenhamos, era fabuloso. Da janela da sala, lá longe, viam-se as antenas no cimo do Marão.

Depois de arrumadas as coisas e instalados e desfeitas as malas ou sacos, era a vez de ir visitar os amigos.

Um ano sem nos vermos. Tanto tempo!

(CONTINUA)

(In O Primeiro de Janeiro, 28-10-2009)

Como Se Fora Um Conto – Uma Língua Falada… Uma Nação com… Um País Subdesenvolvido

UMA LÍNGUA FALADA POR DUZENTOS MILHÕES DE PESSOAS.

UMA NAÇÃO COM QUINZE MILHÕES DE GENTE AMBICIOSA E TRABALHADORA.

UM PAÍS SUBDESENVOLVIDO

Estão na moda os jogos de computadores. Há-os de todos os géneros.

Em alguns, é até possível construir uma vila, uma cidade, um país ou uma vida, virtuais e paralelos aos existentes.

Assim, comecei a imaginar, sem jogo nem computador, o meu país de sonho, com as minhas cidades de sonho, e que vida aí poderia ter.

Comecei devagar, delineando a situação geográfica e climática. Poderia ficar situado no hemisfério norte e com um clima temperado. Isto do clima é importante porque ninguém gosta de extremos e eu muito menos. Temperaturas nem altas de mais, nem baixas de mais, nem muita chuva nem chuva a menos. Temperaturas negativas só mesmo nas terras mais altas, que eu queria que tivesse, onde a neve caísse e eu pudesse brincar com ela. Temperaturas altas também, mas sem passar os trinta e poucos no pico do verão para poder ir a banhos, à praia ou à piscina. Para isso seria preciso, ter montanha, uma serra pelo menos, ou duas, razoavelmente altas para ter neve, e outras mais baixas para fazer montanhismo que é coisa que gosto muito, e mar, muito mar com praias de areia. Não queria ter a temperatura da água do mar muito baixa, mínimo de quinze ou dezasseis graus, nem muito alta, aí até aos vinte e dois, que tomar banho em sopa não gosto muito. Já agora colocava de onde a onde, rios, riachos, ribeiros, lagoas, albufeiras, rias, e mais que fosse com água, nas mais diversas situações de terreno, desde planícies até gargantas fundas entre montanhas. Colocava serras e montes das mais variadas configurações, com vertentes viradas para todos os pontos cardeais, grandes planícies e planaltos diversos. Fazia com que o meu país, fosse diminuindo de altitude até acabar à altura do mar, com alguns pontos altos, promontórios, com o mar a bater lá em baixo para que a costa fosse menos monótona e ganhasse encanto. Não queria um país muito grande, aí uma coisa com cerca de cem mil metros quadrados e com menos de dois mil quilómetros de costa marítima. Aproveitava também para colocar umas quantas ilhas, de diversos tamanhos e características, onde as pessoas pudessem viver de forma diferente umas das outras, e até melhor, se assim o entendessem.

Acabado de construir a parte física do meu país, colocava-lhe gente afável, acolhedora, algo ambiciosa, com um bom ambiente social, com um nível de segurança elevado, não esqueçamos que seja onde for a criminalidade aparece, por todo o lado gente inteligente, trabalhadora e competente. Para aí uns quinze milhões de pessoas, sendo que um terço delas trabalharia e viveria fora do país, para que de uma maneira ou de outra, ajudassem os que aqui ficam, com dinheiro, conhecimentos externos, novas vivências etc.. Para completar, fazia-os falar uma língua que mais uns duzentos milhões de pessoas também falassem no mundo inteiro, para que pudessem estar bem acompanhados nas relações internacionais.

Como o país tem um clima maravilhoso de contrastes temperados, a agricultura seria pujante. Seríamos auto-suficientes na carne, nos legumes, no vinho, na água, no leite, no azeite, e em todos os outros arigos necessários à sobrevivência. Com uma costa tão grande seria impensável que não tivéssemos uma frota pesqueira à altura, pelo que também de peixe e seus derivados, estaríamos bem servidos.

A nossa economia seria florescente, pois que com esta capacidade produtiva o comércio e a industria estariam em alta, com uma estrutura productiva de primeira água. As exportações para outros países seriam uma constante. Como temos uma costa marítima tão grande, a nossa frota mercantil seria uma das maiores, sendo os nossos portos centros nevrálgicos de saída e entrada de mercadorias de e para todo o mundo. Por via disso, os transportes e comunicações ferroviários e terrestres, seriam rápidos, seguros, modernos e eficazes.

Já agora que estou nesta construção virtual, dava ao meu país uma história cultural com muitos séculos, e um património em conformidade com esse tempo todo.

As cidades, as vilas e as aldeias, seriam bonitas, arejadas, com um nível de qualidade de vida superior, e governadas por pessoas dedicadas à coisa pública. A vontade de bem servir seria apanágio de todos os dirigentes e governantes. A seriedade nas relações, a educação esmerada, e as poucas diferenças sociais, fariam com que a corrupção não existisse. O governo geral, trabalharia para o bem do país, no seu todo, e não para só para o bem de alguns.

As pessoas viveriam felizes …

Aqui parei. Afinal estava a falar do meu País, já construído, já feito, já existente.

A grande diferença para o que eu construí, estava só nas pessoas que dirigem e governam, o resto era tudo igual.

As pessoas do meu País real, são da mesma forma trabalhadeiras, acolhedoras, inteligentes, ambiciosas e pacíficas. Mas as pessoas que nos governam e nos dirigem, e mandam, são incultas, incapazes e com características autistas, asfixiam a economia, destruíram a agricultura salvando-se por pouco a vitivinicultura, acabaram com as pescas o que é uma vergonha para um País que com a costa que tem deveria estar virado para o mar, não têm objectivos estratégicos, deixaram que a estrutura productiva ficasse velha e caduca, permitiram que o turismo, continuasse sazonal e fraco apesar das enormes potencialidades do nosso território. As pessoas que nos governam e nos dirigem tentam transformar-nos em cidadãos quase medíocres, e nós vamos deixando.

Poderíamos ser um dos países mais ricos do mundo, aproveitar a força trabalhadora dos quinze milhões da nossa nação, e a classe dirigente transformou-nos em subsídio dependentes e nos coitadinhos da Europa. Somos um País sub-desenvolvido, onde os interesses, a corrupção e o compadrio fazem parte do dia-a-dia. Os nossos emigrantes, um terço da nação, quase esqueceram o seu país de origem, e são altamente produtivos e bem considerados nos seus países de acolhimento, e as segundas gerações quase não sabem quem nós somos. O País abandonou-os.

Podíamos ser um dos países mais ricos e evoluídos do mundo, como no meu sonho virtual, mas não somos, e a culpa é só nossa, que nos deixamos levar e governar assim.

Como Se Fora Um Conto – A Tia

A TIA!

Ter tios e tias, qualquer um tem, ter tios e tias como se fossem pais, é a sorte suprema, de que poucos se podem gabar hoje em dia!

A tia, simplesmente tia, é uma das irmãs do meu pai. A Matriarca da família.

Havia outras, e outras ainda que não sendo irmãs eram igualmente tias. Para mim, havia a tia A, a outra tia A, a tia E, a tia H, a tia L e ainda outra que nunca conheci. Todas elas com nome, excepto esta tia. A Tia!

De todas, é a única que felizmente ainda anda por cá. Por isso, agora, é na verdade a tia. A minha tia. Minha e também de todos os outros sobrinhos que tem, e para quem é também e simplesmente, a Tia!

Pois a minha tia, a única que ainda tenho, sempre foi uma segunda mãe para todos os sobrinhos. Mesmo, e em especial, para uns quantos idiotas, que agora a ignoram e lhe viram a cara se por ela passarem na rua. O quanto a senhora deverá sofrer, quanta tristeza sentirá, de cada vez que se confrontar com essa situação, ou mesmo de cada vez que pensar nela.

A minha tia casou tarde. Por essa razão a possibilidade de ter filhos próprios foi nula, e os sobrinhos que já assim eram, passaram a ser, ainda mais filhos.

A casa em que sempre habitou até alguns anos atrás, era a casa de todos, sem distinções e sem perguntas. Sobrinhos, sobrinhas, mulheres e maridos destes e destas, filhos dos sobrinhos e o mais que pudesse ser, entravam pela casa dentro como se fora a própria, sem pedir licença, bastando só beijar aquando da chegada e dizer, cheguei, cá estou! Havia sempre comida, bebida, um ou outro mimo, dependendo qual fosse o sobrinho a que fosse dirigido (o meu mimo era o estrelar quase imediato, pela senhora Margarida, de dois ovos), e boa disposição.

Para se imaginar o quanto a minha tia tinha de apreço pelos sobrinhos, um dia comprou um apartamento numa cidade soalheira e de temperatura amena todo o ano, para fugir das agruras do frio invernal do planalto onde vivia. Sendo na altura já casada, em conjunto com o meu tio, decidiram que durante os meses de estio, a casa serviria para que os sobrinhos pudessem beneficiar dela. Quase quatro meses destinados à sobrinhada.

Como disse, casou tarde. Decisão repentina e que apanhou toda a família desprevenida. Em muito poucas semanas passou a ser uma jovem casada e feliz. O marido, olhado de soslaio durante algum tempo por todos, mostrou-se em pouco tempo, um homem digno da minha tia, correcto, honesto e boa pessoa, apesar do seu feitio duro e difícil. Mas, quem não tem coisas no seu?

A partir dessa altura, a tia, que sempre foi singular para todos nós, passou a plural. Passaram a ser designados por “os tios”. Sem nomes! Também ele, o agora tio, era como ela, sem nome. Simplesmente Tio! Para mim, havia o tio A, o tio M, o outro tio M, o tio S, o tio R, e ainda outro que nunca conheci, todos com nomes, e agora tinha passado também a haver “o tio”.

Os tios, não passaram a ter atitude diferente da que tinha a tia. Nada mudou!

Os anos foram passando e os tios lá vão estando na sombra, olhando por nós na medida do que lhes é possível. Sem interferir em nada. Estando lá, simplesmente.

Podemos estar meses sem aparecer, como é o meu caso, sem falar nem nada, podemos virar-lhes as costas como é o caso de alguns idiotas, podemos estar lá sempre metidos ou convidá-los para nossa casa com assiduidade.

Eles estão lá! Como se tivéssemos falado com eles no dia anterior.

Como sobrinho não serei bom. Serei até mau aos olhos de muita gente. Mas os meus tios têm sobrinhos bons, que eu sei. De qualquer modo, sou assim, sinto em silêncio, escondido. Só vou, se chamado – não procurando reconhecimento ou palavras bonitas – ou se souber que precisam de mim. Mas para os tios, isso não tem importância, porque não deixei de ser sobrinho, quase filho, do mesmo modo que todos os outros sobrinhos são quase filhos, mesmo os idiotas.

São assim os meus tios. São assim os tios como deve ser. À moda antiga, à moda das famílias tradicionais. Tios a sério, à moda das boas pessoas.

Todos nós temos ou tivemos em algum momento, tios e tias. Os sortudos como eu, têm ou tiveram tios assim. Tios que se importam, tios/pais. Mas eu sei que há poucos. Eu sei que a maioria não é assim. Eu sei que poucos tiveram esta dose de felicidade.

Um dia, se esta tia se vai, deixo de ter tias. Passo a ter só tios. Um com nome e outro sem ele. De qualquer forma não haverá mais quem, de longe, olhe por nós. A não ser esta, lá de cima.

Bem que eu gostaria de poder pensar que, num futuro qualquer, os meus sobrinhos pudessem pensar em mim, da mesma forma que eu penso na minha tia.

Como Se Fora Um Conto – Ciclismo, Sameiras, Caramilos e Pirolitos

CICLISMO, SAMEIRAS, CARAMILOS E PIROLITOS

Com a minha infância ainda a meio, o ciclismo era uma modalidade rainha em Portugal. O hóquei em patins e o futebol, eram as outras, que moviam milhares de adeptos em delírio por esse País fora.

Como muita gente da minha geração, percorria muitos quilómetros para ver os ciclistas passarem na estrada ou para assistir a um desafio de hóquei.

Nas férias de verão, que se prolongavam quase por três meses, as brincadeiras reflectiam essa alegria e essa “afficcion”.

Durante a parte das férias que se passavam na aldeia (vila na altura e hoje cidade), a poucas dezenas de quilómetros do Porto, fazia, em conjunto com um primo que ainda hoje é um aficionado tremendo do ciclismo, uma brincadeira que julgo ser inédita.

Contada de uma maneira simples, era assim que as coisas se passavam. Cortavam-se quadradinhos de papel, pequenos, onde se escreviam os nomes e os números dos ciclistas concorrentes à prova. De um modo geral, eram os mesmos que corriam na volta a Portugal do ano em que estávamos. As equipas, claro, eram também as mesmas. Porto, Benfica, Sporting, Sangalhos, Tavira, etc.

Jogava-se de uma maneira engraçada. Como se lembrarão, alguns poucos, a rega dos campos era feita através de regos de água que percorriam um trajecto mais ou menos grande, desde o tanque onde estava armazenada até à leira a regar, com curvas largas ou em ângulos apertados. Assim, colocavam-se os quadradinhos de papel na água, e íamos seguindo o trajecto dos “ciclistas” até à leira que se pretendia regar na altura. No fim, escrevia-se numa folha de prova, a ordem de chegada, e os pontos que cada um recolhia pela classificação que obtinha. Durante o trajecto, se um papel encalhava nas pedras ou nos paus do caminho, era de imediato solto para continuar viagem. Se insistia em encalhar, era desclassificado. Havia várias etapas, cada uma no seu campo de cultivo, ou em trajectos diferentes no mesmo campo. Estas corridas, demoravam semanas a terminar uma vez que no fim de cada etapa, era necessário secar os ciclistas. Cada etapa demorava cerca de duas horas, pelo que estávamos muito tempo entretidos com estas brincadeiras.

Durante a parte das férias que se passavam na praia, as brincadeiras eram outras. Havia corridas a pé de uma praia a outra, jogos de matraquilhos (na Praia do Molhe), natação nas águas frias da Foz do Douro (Praia de Gondarém), saltos para a água (Praia do Molhe), jogos com o prego, à babona, e acima de tudo, corridas de sameiras. Era o nosso jogo por excelência, que demorava horas a executar. Era preciso construir a pista, em areia, com subidas íngremes, descidas, pontes estreitas, saltos, túneis, zonas estreitas, zonas largas, metas volantes e meta final. Quem saísse fora da pista voltava à meta volante anterior. O jogo era simples. Pegava-se nas sameiras, e na parte interior colocava-se o número e o nome do ciclista. Eu corria com o Joaquim Leão,

Um bocado de casca de laranja para dar peso no interior da sameira, ou uma tampa plástica de garrafa com areia dentro, para dar o mesmo efeito, e toca a jogar. Na altura eu era muito bom no jogo, tinha certeza na mão, força nos dedos e técnica, que era bem necessária. Havia quem tomasse nota das classificações das etapas, e no fim da corrida, com meia dúzia de etapas que se prolongavam por uma semana, o que ganhava sentia um orgulho imenso e era considerado o melhor pelos outros.

Na altura, a meio da tarde, logo após a hora do banho, não esquecer que fazíamos as três horas inteirinhas de digestão, passava a senhora da língua da sogra, ou a das bolas de berlim em miniatura, e, antes ou depois, o homem das batatas fritas à inglesa. Quem tinha dinheiro (éramos poucos os que o tinham), comprava alguma dessas coisas. Eu, tradicionalmente, esperava pelo caramileiro, depois de comer um pacote de batatas. O homem, todo vestido de branco, vendia caramilos, espécie de rebuçado em forma de guarda chuva, doce, muito doce, que eu me deliciava a comer. Na barraca de meus pais, estava à minha espera um pirolito que avidamente bebia a acompanhar o caramilo.

Eram tempos bons, esses. Sabíamos brincar. Inventávamos brincadeiras. Não havia brinquedos caros que brincavam sozinhos (por vezes nem brinquedos havia), e não nos sentíamos tristes por não termos mais nada para fazer.

Ah, esqueci-me de dizer, as sameiras, nome que na nossa zona norte dávamos às coisinhas que usávamos para brincar, eram as tampas das garrafas dos refrigerantes, que coleccionávamos (havia quem tivesse dezenas, todas diferentes). Hoje, infelizmente perdeu-se o uso do nome, e como outras coisas que nos foram impostas por terceiros e às quais mudaram o nome, chamam-lhes caricas.

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(In O Primeiro de Janeiro, 4-08-2009)

Como Se Fora Um Conto – Futebol, A Vida do Dia-a-Dia

FUTEBOL, A VIDA DO DIA A DIA

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Acho o futebol um desporto engraçado. Não que alguma vez o tenha jogado, pois que para tal prática era uma perfeita nulidade, mas gostava de ver. Na altura, já lá vão muitos anos, era eu sócio do F C Paços de Ferreira com o nº 2022, nunca me esqueci do número, ia com o criado (empregado para todo o serviço) de meu avô paterno, ou com um tio ou ainda com um primo do lado materno, ver a bola, no campo do Paços e uma ou outra vez no campo do Freamunde. O que mais me interessava era o espectáculo à volta das linhas brancas. O que os vinte e dois homens de cuecas, onze de cada lado com camisolas diferentes conforme os lados, e os três senhores de preto (na altura estavam sempre de preto) faziam, correndo atrás de uma bola, não era muito do meu interesse. Mas o que os acompanhantes, os adeptos, os simpatizantes de cada uma das equipas em confronto estavam a fazer ou dizer, tinha toda a minha atenção. Eram umas centenas de almas agritar a plenos pulmões, insultos, desabafos, incentivos e o mais que fosse, para dentro do campo. Às vezes também para fora do campo, para os outros, para os da outra equipa, para os inimigos. Os jogos mais interessantes eram os que punham frente a frente o Paços (de que eu era adepto e sócio por causa da minha família paterna) e o Freamunde (de que eu era adepto, embora não sócio, por causa da minha família materna). Em todos os jogos a que assisti, havia num dado momento pancadaria. Os de Paços e os de Freamunde, vilas que distavam entre si cerca de três quilómetros, eram inimigos figadais. Essa inimizade alastrava-se para fora do campo de futebol chegando ao cúmulo de um jovem de uma das vilas não poder casar com uma jovem da outra. No caso de meus pais, isso não aconteceu, a proíbição, pois que minha mãe, apesar de ter toda a família a viver em Freamunde, tinha nascido no Porto. Sorte a deles, que assim puderam ser felizes.

Mas voltando ao jogo, na verdade os encontros entre as duas equipas, eram sempre acompanhados de encontros físicos entre os adeptos e muitas vezes também entre os jogadores.

Naquele tempo, não havia claques, os adeptos não estavam separados, não havia bancadas, à volta do campo só havia uns quantos metros de terra batida, de um dos lados com alguma inclinação. Por todo o lado havia gente. Alguns, empoleirados nos postes ou no muro que circundava o campo, ou em cima das cabines dos jogadores ou dos árbitros ou ainda em cima de uma cabine existente num dos lados e perto da porta de entrada e que eu supunha ser de electricidade.

Quando a pancadaria começava, fosse qual fosse o motivo, uma falta mal assinalada, uma rasteira de um jogador a outro, ou simplesmente porque sim, ninguém sabia quem era quem. Pelo menos eu não sabia. De imediato, a pessoa que me acompanhava, fosse o sr Aurélio, ou o meu tio ou um qualquer primo, empurravam-me para um canto, de maneira a que eu estivesse protegido das arremetidas dos populares. Numa das vezes, em que essa acção foi menos lesta, ouvi de repente uma voz a meu lado, “Paços ou Freamunde?”. Bloqueei sem saber que responder. Fosse qual fosse a resposta, poderia ter como prémio um murro. Salvou-me o meu tio, que me arrastou de imediato para o lado. Por todo o lado estava espalhada uma batalha campal. Já não me lembro de como saímos do campo, mas sei que essa terá sido uma das últimas vezes em que fui ver um Paços-Freamunde, já que a minha avó teve conhecimento do caso e proibiu terminantemente fosse quem fosse de me levar, ordem que foi ainda algumas vezes desrespeitada.

Desde essa época para cá, as coisas não mudaram muito no mundo do futebol. A rivalidade continua, os adeptos da outra equipa são inimigos, os árbitros  erram e são insultados, os jogadores são incentivados, e de vez em quando, em quase todos os jogos de equipas rivais, há assistentes que medem forças uns com os outros. Hoje como antes, acarinham-se os que cometeram os erros que nos são favoráveis e invectiva-se quem praticou os que nos prejudicaram. Hoje, como antes, as ameaças aos árbitros e aos dirigentes, incluem as de morte.

Uma coisa mudou, para mim a mais importante. Os jogadores já não são da equipa A ou B. Já não são adeptos da equipa em que jogam. Já não vestem a camisola do clube com amor e entrega total. Os jogadores são uns meros empregados, contratados a peso de ouro, que ora estão nesta equipa, ora estão no seu rival mais directo, desde que o vencimento mensal ou de prémios seja aliciante. O dinheiro tomou conta do futebol, como aliás tomou conta de toda a nossa existência. Os jogadores são tratados como mercadoria. O que interessa são os milhões. O futebol profissional, aquele de que toda a gente fala, aquele sobre o qual toda a gente lê, aquele que move multidões, já não é um desporto, é uma profissão. Os jogadores, os treinadores e outros agentes do futebol, ganham quantidades de dinheiro estupidamente altas, absurdamente elevadas, que são uma afronta à fome, ao desemprego, às dificuldades que o comum dos mortais vive diariamente. São uma afronta a todos nós, e mesmo assim, esta indústria, move multidões, que paga bilhetes a preços exorbitantes, quotas elevadas, lê avidamente os jornais que diariamente falam de futebol, ouvem atentamente todos os programas de rádio e de televisão sobre futebol, como se nada mais no nosso quotidiano interessasse. Quantos, para pagar o bilhete que para além das quotas mensais têm de comprar para assistir aos jogos, não deixam mulher e filhos em casa, sem apoio económico.

Hoje, como antes, o futebol aliena as mentes, desde as dos mais sábios às dos mais tacanhos, desde as dos mais educados, às dos mais burgessos.

Hoje, como antes, convém aos governantes, de uma ponta a outra do espectro político, que o futebol, a par de outras alienações religiosas ou políticas, seja parte integrante das nossas vidas.

Não convém muito, que a população pense pela sua cabeça. Interessa levá-la a pensar o que o objecto da sua alienação lhe diz para pensar. Se as pessoas pensarem sozinhas, pode surgir daí uma qualquer ideia disparatada, como por exemplo, entenderem que estão a ser mal governadas.

Hoje já só vejo futebol, pela televisão, e desde que o meu clube jogue. Como qualquer adepto, o meu clube é o maior.

COMO SE FORA UM CONTO – As Frases da M…

AS FRASES DA M….!

Vá-se lá saber porquê, dei por mim a visitar na Net o “The Art Museum Toilet Museum of Art”. Por lá se encontram as fotografias das mais variadas casas de banho dos museus mundiais. Desde a mais banal à mais moderna e à mais sofisticada, por lá as vamos apreciando.

Enquanto as via, lembrei-me das maravilhosas (pelo uso que permitiam e pelos ensinamentos que nos davam) retretes públicas que existiam, e algumas ainda existem, cá pela cidade, e que em tempos idos eram muito frequentadas pelos meus concidadãos.  Havia sentinas, em catacumbas no meio da Avenida dos Aliados e no túnel para peões frente à Igreja dos Congregados, havia-as na praia do Molhe e na praia de Gondarém bem viradas para o mar, no meio do Jardim do Passeio Alegre e noutros lugares, todas elas com empregados que procediam à limpeza (sempre imaculadamente limpas) e cobravam entrada (na altura era de cinquenta centavos), um homem para a secção dos homens e uma mulher para a secção das mulheres, onde eles liam o jornal e ouviam um velho rádio a pilhas e elas faziam crochet ou malha, e também mictórios espalhados por muitas ruas do Porto. A juntar a estas, havia também algumas casas de banho públicas, onde se podia tomar um banho completo, havendo ainda uma que funciona em frente à Praça 24 de Agosto. Também as escolas, as universidades, os estádios de futebol, os cafés e restaurantes, os museus e em geral todos os edifícios públicos, tinham para uso dos seus frequentadores vários urinóis e casas de banho.

Nessas retretes, com um design extremamente válido do mais banal que podia haver, com azulejos, portas, e sanitas e urinóis de tamanhos e alturas diferentes, e demais materiais, todos brancos, havia nas que eram mais evoluídas ou pertencentes a espaços mais nobres, máquinas para venda de escovas e pastas de dentes (máquinas essas já desaparecidas para dar lugar a máquinas para venda de preservativos), e havia e ainda hoje há, inscrições de todo o género e feitio, sobre as mais variadas coisas. No entanto, enquanto hoje o que se pode ler nas sentinas, em especial na parte designada para os homens, quase se limita a nomes de mulheres e seus números de telefone, por vezes com uma ou outra descrição de serviços que prestam e com observações asquerosas baixas e repugnantes, anos atrás, encontravam-se comentários e declarações sobre a intolerância, sobre o racismo, sobre sexo, e até sobre política e religião. Encontravam-se com frequência, frases profundas, pensamentos, queixas, juras de amor eterno, poesia, mensagens com destinatário, informações económicas e financeiras, datas a testemunhar a presença de um qualquer frequentador, tudo o que debaixo de anonimato espelhava o quotidiano citadino. Muitos adolescentes daquela altura, aprenderam os factos da vida pela leitura das frases escritas nas portas e nas paredes das sentinas públicas.

Hoje, perdeu-se o prazer de visitar as casas de banho públicas, onde, no meio de uma qualquer dificuldade momentânea, sempre um sorriso nos aflorava os lábios por via da leitura dos comentários e sugestões que alguém bem intencionado lá deixara.

JM