Mentiras ortográficas

With regard to the prepalatal sibilants, the tip of the tongue touches the gums and the base of the lower teeth, and the form of the tongue is convex.

— Oihane Muxika-Loitzate

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No outro dia, foi a SIC.

Hoje, é A Bola.

Rafa escreve objectivo.

O jornal da resistência silenciosa em tempos de liberdade de expressão transcreve objetivo.

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Recordar o “louco” Tour de France de 1998

Pelo periscópio de Jeremy Whittle aqui no Cycling News.com

Quantas mais vezes terá que vencer Rui Costa para ser destaque na imprensa portuguesa?

É português, é um dos desportistas mais consagrados do desporto português da actual geração, já foi campeão do mundo de estrada (foi o único português a conseguir o feito), já venceu por 3 vezes a geral da prova que serve de antecâmara ao Tour de France, a Volta à Suiça, já venceu etapas no Tour entre outras vitórias em etapas em várias provas, e anda sempre a lutar pelas vitórias nas clássicas da primavera, em especial, na Flèche Wallone, na Liège-Bastone-Liège e na Amstel Gold Race. É chefe-de-fila absoluto das equipas por onde passa há 4 anos.

Ontem, Rui Costa voltou a vencer, desta feita na Volta à Abu Dhabi, prova categorizada como World Tour (a categoria máxima do ciclismo mundial) na média montanha, derrotando a nata dos trepadores da actualidade, ou seja, Contador, Aru, Quintana, Dumoulin, Zakarin, Samuel Sanchez, Bauke Mollema, entre outros, arrebatando a liderança da prova. O que é que o ciclista português terá que fazer para ser primeira página de um jornal português?
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Le Tour de France

Rui Naldinho
Le Tour 2017

Le Tour 2017

Um evento digno de uma peregrinação!

Declaração de interesses: Sou um maluco pelo ciclismo. Se vejo na televisão como a maioria dos aficionados, por vezes adormeço. Mas aquilo é como as telenovelas. Dez minutos de sesta e toca a ver o resto da prova. Se estou na disposição de ir ver ao vivo, faço como todos os crentes. Torno-me numa espécie de peregrino, mochila às costas, e espero pacientemente que desfilem as minhas divindades.

No passado dia 18 de Outubro foi apresentado em Paris, no Palácio dos Congressos, o “LE TOUR 2017.” A Volta a França é o maior evento desportivo anual do mundo em termos de impacto mediático. Note-se que outras grandes competições como o Mundial de Futebol e os Jogos Olímpicos, não são anuais, mas sim quadrienais. Logo, não são comparáveis.
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A vitória da humildade e da abnegação

rui vinhas

As palavras menos simpáticas de Marco Chagas, comentador de ciclismo da RTP, para Gustavo Veloso, no final da Volta a Portugal em bicicleta, fazem-me recuar até 1981. Porque Marco Chagas sabe do que fala!

Tal como o galego, o homem de Pontével era unanimemente considerado o mais forte do pelotão, fruto de experiência no estrangeiro, Volta a França incluída. E também ele era o grande favorito a vencer, nesse ano, a Volta a Portugal, também ele era o chefe de fila da equipa de ponta do FC Porto, que já, por essa altura, dominava o pelotão.

Uma circunstância de corrida, daquelas que acontecem raramente, Manuel Zeferino viu-se com mais de 10 minutos de avanço, na frente (a seguir ao prólogo que Belmiro Silva, também do FCP, venceu), vestiu a camisola amarela em Vila Real de Santo António e não haveria de a despir mais até final. [Read more…]

Um dia glorioso para o desporto português

Patrícia Mamona, campeã europeia de triplo salto

Hoje foi um dia glorioso para o desporto português. Campeões da Europa de futebol, duas medalhas de ouro e duas de bronze no atletismo e até o Rui Costa, no ciclismo, se chegou à frente. Não tarda algum artista vir dizer que estamos a ganhar acima das nossas possibilidades.

Sara Moreira, campeã europeia de meia-maratona

Crónicas Desportivas (8)- Sagan, o feiticeiro

Na despedida de Fabian Cancellara da Volta à Flandres (com muita pena nossa, a bom da verdade; assim como também lamento a despedida da equipa Tinkoff no final desta temporada) Spartacus, alcunha carinhosa pela qual é conhecido este suíço nascido nos arredores de Berna há 35 anos, julgava-se no direito de despedir-se da prova com mais uma vitória, aquela que seria a 4ª da sua carreira no Tour de Flandres, um dos designados 5 monumentos do ciclismo. Numa prova novamente marcada pelas quedas, Spartacus bem tentou anular a diferença para Sagan nos 12 km finais mas o eslovaco, campeão do mundo em título provou que é neste momento o ciclista em melhor período de forma para abordar as clássicas, resistindo à perseguição do suíço e do holandês Sep Vanmarcke da Lotto-Jumbo-NL.

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Crónicas Desportivas (2) – Sagan, o quebra-maldições

O Campeão do Mundo Peter Sagan voltou a vencer no difícil pavé da Flandres uma das suas provas fetiche: a clássica Gent-Wevelgem, uma das provas que serve de antecâmara às duras clássicas e provas por etapas de pavé e colinas da primavera (Liège-Bastogne-Liège, Amstel Gold Race, Paris-Roubaix, Fleche-Wallone; 4 dias de Panne). Sagan continua a confirmar que após um início de carreira a todo o gás no qual batia tudo e todos ao sprint, evoluiu para um  all-rounder disposto a vencer todas as grandes clássicas do calendário World Tour.

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A bicicleta liberta

mulheres no Afeganistão

Temos campeão

Final da última etapa da Volta à Suiça, terceira vitória de Rui Costa, preparando-se agora para o Tour.

É este ano, acredito, que o 3º lugar de Joaquim Agostinho em 1978 e 79 merece ser atacado, o nosso recorde mundial no ciclismo de estrada pela pedalada do agora campeão mundial.

Há desportos, populares, onde até somos campeões do mundo, o que há é menos gente a dar por isso.

o que eu ando a ver #1

1. NBA Finals

1.1 Dita-me a experiência que nas finais da NBA, o jogo 2 é um dos momentos chave (em conjunto com o jogo 5 caso este tenha de ser realizado) que determina o vencedor da competição. Todas as equipas que tem factor casa nas finais (por factor casa entende-se o direito de jogar o jogo directivo, o 7º, caso seja necessário, em casa; esse direito advém do score averbado pelas duas equipas na fase regular, pertencendo o factor casa à equipa com melhor score averbado nessa mesma fase) jogam os primeiros dois jogos em casa. As equipas que ganham os primeiros 2 jogos em casa nas finais, raramente perdem o campeonato. Exemplo contrário foi o do ano passado por exemplo, no qual precisamente Miami e San Antonio venceram 1 partida fora. [Read more…]

Orgasmos

orgasm-bike

a alta velocidade é na bicla.

A meta

rui costa
Rui Costa vence o Campeonato Mundial de Estrada 2013, foto Reuters

O grande vencedor do Domingo passado

[youtube http://youtu.be/qCcgjh4cmd8]

Aprendi a gostar de ciclismo com o avô, mais depressa que a andar de bicicleta, assunto que nunca correu bem. A Volta é no Verão, pela rádio e pelo Século seguíamos o desporto que era muito dele não apenas pelas vitórias do seu Sporting: violento, duríssimo, mas simultaneamente reservado ao sucesso de gente com grande cabecinha a pedalar.

Ciclismo é desporto do povo mais do que popular, do povo que tinha na pasteleira o que é hoje um Clio e entretanto foi uma Casal, mais rural que urbano, camponês e operário. Com os meus amigos das férias na aldeia construíam-se pistas em terra batida a sacho e à mão, com pontes de fazer inveja ao Edgar Cardoso, prémios da montanha de primeiríssima categoria, onde as caricas convenientemente vestidas com nas cores dos clubes em papéis afanosamente procurados, escritos os nomes e os números dos nossos heróis, faziam à conta de calos no dedo médio a simulação possível; sim, fomos nós que inventámos os jogos de computador muito antes de alguém imaginar sequer que um dia haveria um tal de spectrum. [Read more…]

Desistir de lutar não pode ser a saída

Confesso que não esperava a desistência do Lance.

Foram muitas as horas que passei em frente à televisão a ver este mágico no Tour. Tudo o que se tinha como certo em relação ao ciclismo e ao Tour era alterado por Lance Armstrong. Queria aqui encontrar um termo de comparação, mas no desporto, não estou a ver ninguém que tenha sido tão esmagador.

Eu quero continuar a acreditar que foi ele que venceu as 7 voltas a França, sem batotice, mas o texto por ele publicado no site oficial deixa-me muitas dúvidas.

Rui Costa entra em “blackout”

Imagem da última conferência de imprensa de Rui Costa

O ciclista Rui Costa, vencedor da Volta à Suíça, resolveu deixar de fazer declarações à imprensa. O facto de a mesma imprensa o ter ignorado facilitou muito o blackout.

Em círculos mais próximos do velocipedista, ficámos a saber que Rui Costa procurará, em próximas ocasiões, imitar os futebolistas da selecção nacional, ficando irritado quando uma prova lhe correr mal e os jornalistas escreverem expressões como “a prova correu mal a Rui Costa”. Para além disso, procurará, ainda, reforçar essa imitação, evitando ganhar qualquer prova internacional importante.

Coisas sem qualquer importância


Dizem que num desporto a que os portugueses não ligam nenhuma, o ciclismo, pela primeira vez um indígena ganhou uma competição de alto nível, a Volta à Suiça (um país quase inacessível localizado no coração de África). A vitória de Rui Costa não teve cobertura na nossa comunicação social dadas as dificuldades, compreensíveis numa altura de crise, em deslocar jornalistas para tão remotas paragens.

A vitória de Sérgio Paulinho numa etapa do Tour e o país dos mínimos

É bonito que Sérgio Paulinho tenha vencido a etapa (uma etapa) da Volta a França em bicicleta. Afinal, não foram assim tantos os portugueses que o conseguiram, mas a festa em redor deste feito é a prova das fraquezas do desporto português.

É feito histórico apenas porque foram muito poucos os lusitanos a obter um triunfo numa etapa do Tour. Para corredores espanhóis, franceses ou italianos, por exemplo, é o pão nosso de cada dia. É por isso que somos um país de mínimos. Só queremos os mínimos. Os máximos é melhor deixar para os outros, que estão mais habituados.

Como Se Fora Um Conto – Ciclismo, Sameiras, Caramilos e Pirolitos

CICLISMO, SAMEIRAS, CARAMILOS E PIROLITOS

Com a minha infância ainda a meio, o ciclismo era uma modalidade rainha em Portugal. O hóquei em patins e o futebol, eram as outras, que moviam milhares de adeptos em delírio por esse País fora.

Como muita gente da minha geração, percorria muitos quilómetros para ver os ciclistas passarem na estrada ou para assistir a um desafio de hóquei.

Nas férias de verão, que se prolongavam quase por três meses, as brincadeiras reflectiam essa alegria e essa “afficcion”.

Durante a parte das férias que se passavam na aldeia (vila na altura e hoje cidade), a poucas dezenas de quilómetros do Porto, fazia, em conjunto com um primo que ainda hoje é um aficionado tremendo do ciclismo, uma brincadeira que julgo ser inédita.

Contada de uma maneira simples, era assim que as coisas se passavam. Cortavam-se quadradinhos de papel, pequenos, onde se escreviam os nomes e os números dos ciclistas concorrentes à prova. De um modo geral, eram os mesmos que corriam na volta a Portugal do ano em que estávamos. As equipas, claro, eram também as mesmas. Porto, Benfica, Sporting, Sangalhos, Tavira, etc.

Jogava-se de uma maneira engraçada. Como se lembrarão, alguns poucos, a rega dos campos era feita através de regos de água que percorriam um trajecto mais ou menos grande, desde o tanque onde estava armazenada até à leira a regar, com curvas largas ou em ângulos apertados. Assim, colocavam-se os quadradinhos de papel na água, e íamos seguindo o trajecto dos “ciclistas” até à leira que se pretendia regar na altura. No fim, escrevia-se numa folha de prova, a ordem de chegada, e os pontos que cada um recolhia pela classificação que obtinha. Durante o trajecto, se um papel encalhava nas pedras ou nos paus do caminho, era de imediato solto para continuar viagem. Se insistia em encalhar, era desclassificado. Havia várias etapas, cada uma no seu campo de cultivo, ou em trajectos diferentes no mesmo campo. Estas corridas, demoravam semanas a terminar uma vez que no fim de cada etapa, era necessário secar os ciclistas. Cada etapa demorava cerca de duas horas, pelo que estávamos muito tempo entretidos com estas brincadeiras.

Durante a parte das férias que se passavam na praia, as brincadeiras eram outras. Havia corridas a pé de uma praia a outra, jogos de matraquilhos (na Praia do Molhe), natação nas águas frias da Foz do Douro (Praia de Gondarém), saltos para a água (Praia do Molhe), jogos com o prego, à babona, e acima de tudo, corridas de sameiras. Era o nosso jogo por excelência, que demorava horas a executar. Era preciso construir a pista, em areia, com subidas íngremes, descidas, pontes estreitas, saltos, túneis, zonas estreitas, zonas largas, metas volantes e meta final. Quem saísse fora da pista voltava à meta volante anterior. O jogo era simples. Pegava-se nas sameiras, e na parte interior colocava-se o número e o nome do ciclista. Eu corria com o Joaquim Leão,

Um bocado de casca de laranja para dar peso no interior da sameira, ou uma tampa plástica de garrafa com areia dentro, para dar o mesmo efeito, e toca a jogar. Na altura eu era muito bom no jogo, tinha certeza na mão, força nos dedos e técnica, que era bem necessária. Havia quem tomasse nota das classificações das etapas, e no fim da corrida, com meia dúzia de etapas que se prolongavam por uma semana, o que ganhava sentia um orgulho imenso e era considerado o melhor pelos outros.

Na altura, a meio da tarde, logo após a hora do banho, não esquecer que fazíamos as três horas inteirinhas de digestão, passava a senhora da língua da sogra, ou a das bolas de berlim em miniatura, e, antes ou depois, o homem das batatas fritas à inglesa. Quem tinha dinheiro (éramos poucos os que o tinham), comprava alguma dessas coisas. Eu, tradicionalmente, esperava pelo caramileiro, depois de comer um pacote de batatas. O homem, todo vestido de branco, vendia caramilos, espécie de rebuçado em forma de guarda chuva, doce, muito doce, que eu me deliciava a comer. Na barraca de meus pais, estava à minha espera um pirolito que avidamente bebia a acompanhar o caramilo.

Eram tempos bons, esses. Sabíamos brincar. Inventávamos brincadeiras. Não havia brinquedos caros que brincavam sozinhos (por vezes nem brinquedos havia), e não nos sentíamos tristes por não termos mais nada para fazer.

Ah, esqueci-me de dizer, as sameiras, nome que na nossa zona norte dávamos às coisinhas que usávamos para brincar, eram as tampas das garrafas dos refrigerantes, que coleccionávamos (havia quem tivesse dezenas, todas diferentes). Hoje, infelizmente perdeu-se o uso do nome, e como outras coisas que nos foram impostas por terceiros e às quais mudaram o nome, chamam-lhes caricas.

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(In O Primeiro de Janeiro, 4-08-2009)