Maria Helena da Rocha Pereira (1925-2017)

[André Rodrigues]

O meu primeiro ano da Faculdade foi uma espécie de pesadelo, apenas no segundo viria o gosto de estudar e aprender e, ocasionalmente, algumas notas boas, que são o menos importante, ou deveriam ser.

Nesse primeiro ano, no meio da prosa “barbaramente académica” em que nos afogávamos, havia dois livros (“Estudos de História da Cultura Clássica”, vols. I e II, da FCG), escritos numa linguagem que era, ao mesmo tempo, clara e rigorosa, simples e de uma riqueza profunda. Dava-me a entender uma relação privilegiada com a língua portuguesa, própria daqueles quem lhe conhecem a ossatura.

Maria Helena da Rocha Pereira (MHRP) levava-nos pela mão para aprendermos o que diz um vaso grego sobre a vida daqueles que o fizeram, falava do escudo de Aquiles como um passaporte para uma outra civilização. Falava para todos, alunos do primeiro ano e especialistas, com a mesma clareza cristalina. [Read more…]

Latim na Alemanha: a lição das raízes

Vale a pena ler esta reportagem sobre a importância que o estudo do Latim tem na Alemanha. Há quem confunda recomendações dessas com caturrices  ou interesses em encontrar um nicho de mercado para as próprias habilitações. A verdade é que há muitos e variados argumentos a favor do estudo do Latim.

Relembre-se que a língua alemã não é uma língua novilatina como o português. Portugal, ao contrário dos alemães, prefere continuar a cultivar o esquecimento, apagando as bases históricas que estão na origem da sua própria língua e, portanto, do próprio pensamento.

No fundo, é uma questão de coerência, pois seria estranho que agisse de outra maneira um país que atira sobre as escolas programas de Português que desprezam os clássicos da literatura, terminologias linguísticas mal concebidas e um acordo ortográfico desnecessário e prejudicial. Com tanta gente a encher a boca com o prestígio internacional da língua, a morte do Latim é mais um degrau descendente em direcção ao desprestígio nacional da língua.

 

Ainda sobre a vitória de um aluno de Latim em Itália

Jorge Moranguinho

Professor de Latim e de Português

Escola Básica e Secundária Rodrigues de Freitas, Porto

António Gil da Silva Cucu, de 16 anos de idade, frequenta o 11.º ano de escolaridade do Curso de Línguas e Humanidades, na Escola Básica e Secundária Rodrigues de Freitas, no Porto, e venceu, na manhã de domingo do passado dia 6 de Maio, em Venosa, o XXVI Certamen Horatianum.

Organizado, desde 1987, pelo Liceo Classico Statale “Quinto Orazio Flacco”, o prestigiado concurso decorreu nos dias 4, 5 e 6 de Maio, tendo participado 125 escolas italianas e 5 estrangeiras (da Áustria, Bulgária, Croácia, Roménia e de Portugal). Em homenagem ao poeta venusino, a competição destina-se a estudantes que frequentam o penúltimo ano de escolaridade de liceus clássicos italianos e de escolas secundárias estrangeiras que integrem, na sua oferta formativa, o ensino do latim.

A prova consiste na tradução e no comentário linguístico e histórico-literário de um ou mais extractos da obra de Horácio, um dos poetas mais notáveis da literatura latina, que, a par de Virgílio, seu contemporâneo, maior influência exerceu nas literaturas modernas, depois do século XV. [Read more…]

Em Venosa

António Gil Cucu

Vencedor do Certamen Horatianum, aluno da Escola Rodrigues de Freitas, Porto

(Texto a ser publicado no Boletim de Estudos Clássicos)

Em Venosa, um mundo diferente. Já estou acostumado, em Portugal, aos olhares de dúvida e gozo, quando digo que estudo latim. “Isso não serve para nada”, e eu vou encolhendo os ombros. Em Venosa, tornou-se a coisa mais comum do mundo: italianos, búlgaros, austríacos e outros, todos estudam latim, como se de francês ou alemão se tratasse. Se, por um lado, fiquei contente, ao ver este diferente tratamento das clássicas, a banalização profunda do estudo do latim e do grego desapontou-me, pelo que, esperando uma certa atitude entusiástica, apenas tive um contacto mais intelectual com um dos alunos austríacos, o único com quem pude falar, de facto, em latim. [Read more…]