Postcards from Romania (19)

Elisabete Figueiredo

Os olhos do Drácula

Desço da torre sem dificuldades. Haverei de ter algumas um pouco mais tarde. Atravesso a rua que vai dar à praça principal de Sighisoara, passo a casa onde supostamente nasceu e viveu Vlad Dracul, no século XV e dou de caras – estamos no século XXI, portanto – com um homem vestido de Drácula.

Falemos de folclore, então, se vos apetecer.

Tiro uma fotografia ao homem. Há no olhar dele qualquer coisa de profundamente triste, talvez não triste afinal, mas há nestes olhos qualquer coisa difícil de compreender, enquanto encara a máquina que lhe aponto. Chego a envergonhar-me. Hei-de cruzar-me com ele, mais três ou quatro vezes neste dia e reparar sempre na dificuldade daqueles olhos.

Se eu tivesse que me vestir de Drácula, todos os dias, como seria o meu olhar? Ainda bem que, assim como assim, prefiro o Rato Mickey.

(Sighisoara, 11 de Agosto de 2012)

Postcards from Romania (6)

Elisabete Figueiredo

 The Dracula’s Castel is the fucking castel of the fucking sleeping beauty

Sou a única turista no autocarro. Os homens têm bigodes farfalhudos e bonés de lã. Pergunto-me como é que aguentam. As mulheres são as mulheres. Têm sempre, quase sempre, um ar mais delicado onde quer que nos encontremos.
Entra um casal de velhotes. Juro que estava em Portugal há 20 anos. Ou ontem. A senhora veste-se toda de preto, lenço e meias. O senhor tem um chapéu como usava o meu avô Alberto. Sim, de repente lembro-me do meu avô Alberto e de como punha um laço na minha trança, quando eu era pequena, ou já nem tanto. Para o meu avô Alberto, que tinha os olhos verdes, como os meus, uma trança havia de ser com laço na ponta, de preferência branco.
O autocarro arranca e na janela passam cavalos e vacas e rebanhos de ovelhas, casas em construção, ruínas, e entram mais pessoas. Chegamos a Bran. Depressa percebo a Walt Disneylização de tudo aquilo. Suponho que o Vlad Tepes, o empalador que originou, ao que consta, a lenda do conde Dracula, se revolva na tumba indignado. De certa maneira, penso em inglês, sei lá porquê, the Dracula’s Castle is the fucking Castle of the fucking Sleeping Beauty.

(Bran, 8 de Agosto de 2012)

Hoje dá na net: Nosferatu

Em dia de bruxas, de azar e de outras superstições, fica bem um clássico do terror. Nosferatu (Nosferatu: Eine Symphonie des Grauens) foi realizado, em 1922, por F. W. Murnau. O realizador baseou-se no Drácula de Bram Stocker, livro com uma grande fortuna no cinema. Max Schrek, o actor principal, compõe uma personagem verdadeiramente aterrorizadora, a ponto de se ter criado uma lenda de que seria um verdadeiro vampiro que teria como pagamento poder sugar o sangue da estrela feminina Greta Schröder.