Postcards from Romania (23)

Elisabete Figueiredo

Entre Sighisoara e Cluj-Napoca

Digo que o dia não começa bem. Tomo um pequeno-almoço sem jeito e, não sei porquê, aliás sei, mas para o caso não interessa, há qualquer coisa, que me diz que este dia será esquisito.
Ao pequeno-almoço reencontro os romenos da noite anterior, os mesmos que me convidaram para um copo de vinho branco que não aceitei, mas com quem acabei por conversar durante um bocado, antes do jantar. São 9h30 da manhã e estão já a beber cerveja. Aliás, verifico que isso acontece em quase toda a parte, aqui. São simpáticos, especialmente um deles, que fala melhor inglês e tem opiniões sobre tudo. De qualquer maneira tenho de ir apanhar o comboio.

Este comboio é um inter-regional, bastante aceitável, se comparado com o regional que tomei entre Brasov e Sighisoara. Viajo agora entre esta última vila e Cluj-Napoca, a terceira maior cidade da Roménia. Avanço para norte, um pouco na diagonal, quase até à fronteira com a Hungria. E à medida que o comboio avança ‘entre a floresta’ (tradução literal de Transilvânia), apercebo-me que a paisagem se torna diversa. As aldeias não são tão arcaicas, não há tantas carroças de ciganos, as vacas substituem, nos campos, as ovelhas, e tudo tem um ar, como direi, mais asseado. [Read more…]

Postcards from Romania (22)

Elisabete Figueiredo

Todo aquele que não souber falar latim, será afastado à paulada

A igreja na colina (de cujo interior não se podem tirar fotografias) tem vários frescos. Um deles, do século XV, retrata a santíssima trindade. Uma só figura, com três cabeças. A da esquerda é o espírito santo e este santo espírito é – pasme-se – uma mulher! Whatever that means, ganhei o dia.

No coro há outra inscrição e o papelinho que me deram à entrada explica-me que está escrito: «todo aquele que se quiser sentar aqui, mas que não souber falar latim deverá afastar-se ou, mesmo, ser afastado à paulada». Pelo sim, pelo não, afasto-me.

Cá fora, um cemitério enorme, onde não entro. Além, uma casinha na colina com um pátio delicioso, acho eu. Não sei o que acharão os senhores da UNESCO. Percebo a importância dos rótulos, mas ao mesmo tempo parece-me que não seriam precisos. Que são, até, perversos.

Falemos, outra vez, de folclore, se quiserem. [Read more…]

Postcards from Romania (21)

Elisabete Figueiredo

A igreja na colina é o lugar mais bonito do mundo

Subo, com dificuldades, os 176 degraus das escadas cobertas. São de madeira e pedra, escuras e irregulares. Mas chego ao cimo do monte. Ainda tenho folego. E subo mais ainda até à Biserica din Deal que é como quem diz, em romeno, a ‘igreja na colina’.

«Esta obra foi concluída, com a ajuda de Deus, no ano de 1488 quando, no dia de S. Gerardo (23 de setembro) um forte nevão destruiu as árvores de fruto», leio no papel que me dão com a tradução da inscrição em latim por cima da porta principal. No dia em que um forte nevão destruiu as árvores de fruto? Que descrição tão rara.

Onde estaria Deus? A ajudar nas obras, provavelmente, penso. E sorrio sozinha, diante da ideia de um deus servente de pedreiro que, no afã de concluir a obra dos homens, deixa que um forte nevão destrua as árvores de fruto.

(Sighisoara, 11 de Agosto de 2012)

Postcards from Romania (20)

Elisabete Figueiredo

Há uma velha a vender flores nas escadas cobertas

Subo uma rua empedrada. Irregular. Há passeios direitos mas em cima deles estão, que surpresa, os automóveis. Chego à escada coberta. 176 degraus até ao Monte da Escola. Avanço. Ao avançar, reparo nela. Um pequeníssimo ramo de flores numa das mãos. Milhares de rugas na cara, como estradas num mapa para que ninguém olha. Com a outra mão mostra um dedo: 1 leu pelas flores.

Estou para lhe comprar o ramo, mas depois, que farei dele? Fico ali, à entrada das escadas a olhar para ela. E penso, outra vez, que o património da humanidade é isto, não as pedras. Estas ruas que atravessam a cara dela, para lugar nenhum. Ou para o mundo inteiro.

Não há, em nenhuma torre do mundo, uma placa que diga a que distância estou eu desta mulher.

(Sighisoara, 11 de Agosto de 2012)

Postcards from Romania (19)

Elisabete Figueiredo

Os olhos do Drácula

Desço da torre sem dificuldades. Haverei de ter algumas um pouco mais tarde. Atravesso a rua que vai dar à praça principal de Sighisoara, passo a casa onde supostamente nasceu e viveu Vlad Dracul, no século XV e dou de caras – estamos no século XXI, portanto – com um homem vestido de Drácula.

Falemos de folclore, então, se vos apetecer.

Tiro uma fotografia ao homem. Há no olhar dele qualquer coisa de profundamente triste, talvez não triste afinal, mas há nestes olhos qualquer coisa difícil de compreender, enquanto encara a máquina que lhe aponto. Chego a envergonhar-me. Hei-de cruzar-me com ele, mais três ou quatro vezes neste dia e reparar sempre na dificuldade daqueles olhos.

Se eu tivesse que me vestir de Drácula, todos os dias, como seria o meu olhar? Ainda bem que, assim como assim, prefiro o Rato Mickey.

(Sighisoara, 11 de Agosto de 2012)

Postcards from Romania (18)

Elisabete Figueiredo

Do cimo das torres vê-se o mundo inteiro.

Não podia ser mais verdade isto. Placas no varandim informam-nos das distâncias a Londres, Paris, Baden-Baden, Sydney, Nova Iorque… a Lisboa não. Do cimo das torres vê-se (quase) o mundo inteiro.

Uma das placas informa-me que me encontro a 3975 km do Pólo Norte. Coisa pouca, se pensarmos que o Pólo Sul dista 14025 km daqui.

Tenho amigos mais longe de mim do que daqui ao Pólo Norte. No entanto, não conheço ninguém em nenhum destes sítios e decido que o melhor é ficar por ali. Ver o mundo inteiro, esta pequena vila, a partir da torre.

Reparo num homem e num miúdo. Terá 5 ou 6 anos. Pergunto ao senhor se me tira uma fotografia. Diz-me que até duas. E ri-se. O puto olha para mim e diz muito alto: ‘germania, germania?’ Respondo-lhe que não. Volta a repetir, tão alto como a torre, numa expetativa que me custa não cumprir: ‘germania, germania?’. Digo: Portugal. Encolhe os ombros. Vira-me as costas. [Read more…]

Postcards from Romania (17)

Elisabete Figueiredo

Em Sighisoara, vila medieval, património da humanidade

Andava aos dias a pensar que ainda não tinha subido a uma torre. Em mim, é estranho. Uma vez na Estónia, em Tallinn, num dia, hei-de ter subido a umas cinco torres. Tenho a mania das alturas, apesar, como já disse, das vertigens.

Eis a torre do relógio. Uma torre para subir. E eu subo. 120 degraus, nada de mais. Sobretudo se comparado com os quase 400 degraus que uma vez subi em Praga. Quando cheguei lá acima, andava tudo à roda e eu sem folego. Aqui não. Os degraus sobem-se bem e, apesar dos cigarros, digamos, que poderia estar em piores condições.

(Sighisoara, 11 de Agosto de 2012)

Postcards from Romania (16)

Elisabete Figueiredo

O património que importa

… e enquanto as pessoas são o património que importa, chego a Sighisoara. Património da UNESCO. Mais uma folclorização. Podia ser pior, suponho, e é bonito de se ver, acrescento.

(Sighisoara, 10 de Agosto de 2012)

Postcards from Romania (14)

 Elisabete Figueiredo

As mãos peganhentas e o cheiro a ferrugem

Reparo numa senhora a fumar. Proibido? Penso em pedir-lhe que me deixe fotografá-la. Mas está longe e não peço e fotografo-a na mesma.

O comboio para em todas as estações e em todas elas, até menos de meio caminho, até Augustin, saem ciganos e sacos e caixas. Em todas as estações há carroças puxadas por cavalos e eles sobem para elas numa alegria sem fim. No comboio, há longos minutos, um miúdo cigano canta, desalmadamente, com a voz cheia de trinados. [Read more…]

Postcards from Romania (13)

Elisabete Figueiredo

O comboio para Sighisoara

Nunca vi um comboio tão velho, tão ferrugento, tão sujo. Sento-me e imediatamente a minha pele se entranha no cheiro a ferrugem. Ao meu lado uma família. À minha frente senta-se uma senhora. Ponho a mala na grade. Que grade, senhores! Juro que nunca vi nada assim. Entrei noutro filme do equivalente romeno do Kusturica e desta vez, desta vez, é a sério. Mil olhos. Quem dera, para guardar tudo. Para ver tudo, para experimentar tudo aquilo.

Peço à senhora da frente se me olha pelo saco em cima do banco. Vou à plataforma fumar um cigarro. Diz que sim, com a cabeça. A viagem, diz-se, demora 3 horas. É proibido fumar no comboio. Depressa me darei conta que, também isto, não faz qualquer sentido.

Ao fumar penso que raio, por que raio não vou no rápido uma hora mais tarde. Digo de mim para mim por que raio não hei-de ir neste. Sabe-se lá se voltarei a andar num comboio assim, Foram precisos 45 anos para andar num comboio assim. Reentro. Abro a janela. Sento-me.

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