O naufrágio

naufragio

O navio adornava perigosamente. Os tripulantes estavam agitados e temerosos. Os passageiros, esses, dividiam-se. Havia os que confiavam que tudo acabaria bem e as coisas se comporiam por si. Havia mesmo um ou outro que acreditavam na competência da tripulação.

Todavia, a maioria não estava satisfeita e havia mesmo quem pensasse que era melhor substituir o comando do barco antes que fosse tarde. Manhoso e espreitando com seu ar de fuinha, o imediato, ciente de que tudo, por aquele andar, iria dar para o torto, escapuliu-se pé ante pé, silenciosamente, sem bater com as portas e, sem dar cavaco – por assim dizer -, pirou-se num salva vidas que estava ali à mão.

Bem lhe parecera que não conseguiriam levar o navio a bom porto, sobretudo depois de o oficial da contabilidade e logística se ter demitido na escala anterior. Mas a sua alegria durou pouco. Por todo o lado se viam tripulantes a atirar-se pela borda fora nadando, atontadamente e sem destino.

Uma sombra, então, desenhou-se no ar e um corpo caiu sobre o seu, apertando-lhe o pescoço com as mãos. Era o comandante. E assim, engalfinhados um no outro, rodeados por desatinados marinheiros, se foram afundando.

Os que estavam mais perto ainda ouviram a voz do capitão que rosnava para o imediato: – “Sacana! Se nos afundamos, afundas-te connosco!”. E lá foram desaparecendo nas profundezas do oceano. No barco, espalhava-se o cheiro a coelho queimado.

O cozinheiro Aníbal, vendo que era o último tripulante que restava, tinha largado os tachos e aprestava-se a partir no último salva-vidas. “E os passageiros?!” – gritou-lhe alguém. “Os passageiros que se lixem!”. E lá foi.

Comments

  1. adelinoferreira says:

    Bom post. Procura-se criativo de banda
    desenhada!

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