O Almoço dos Senadores

O ardina ficou aprisionado no lar. Teso, sem vintém para o transporte, nem estatuto para  integrar o núcleo de membros ilustres da Câmara Alta; núcleo que se  reunirá na Invicta, Capital do Trabalho, para a pitança. Ao acto, alguém chamou ‘O Almoço dos Senadores’. Com o mar no horizonte, as elevadíssimas figuras destacar-se-ão num restaurante conhecido por ‘Transparente’. Nunca poderia ser no escuro. Para mais, no Porto, como no País, não há opacidades. E até a Noite é Branca.

Os senadores, a partir da hora combinada, começam a reunir-se. Uns vêm das cercanias, outros de mais longe. O senador ferroviário chegará em viatura própria. Compreende-se. Com tanto ‘grafitti’, extinguiram-se os comboios de verdadeiro luxo; do género do Expresso do Oriente, esse sim, recomendado a nobres e à alta burguesia. No meio dos senadores, haverá uma senadora. Sim, apenas um elemento feminino. Mas porque é citada em grupo e até a gramática é machista, o género, no colectivo, muda para o masculino.

O que comerão eles? Alguns possivelmente francesinhas. Arreigados às tradições portuenses, não as dispensam. [Read more…]

Como Se Fora Um Conto – As Francesinhas na Revolução Francesa

I

Vivia-se no ano da graça de 1809 e o mês de Junho.

Soult, General e mais tarde Marechal, regressava a casa triste, acabrunhado e abalado com a derrota. A bem da verdade não tinham sido os Portugueses a vencê-lo, tinham sido os Ingleses, mas isso era ainda uma desonra maior. Perdera fama, prestígio e muita gente nesta campanha. E só fora ‘dono’ da cidade pouco mais de dois meses.

Era de noite e o General tinha fome. Apesar de a Galiza estar ocupada pelas suas tropas e no trono espanhol estar o irmão de Napoleão, José Bonaparte, há dois dias que só comia fruta dos pomares por onde passava e um caldo horroroso que Pascal, seu novo escudeiro, lhe preparava com o que ia encontrando pelo caminho. Estava a ser difícil o regresso por terras espanholas, os Galegos também lutavam contra o invasor, e os seus mais dedicados criados tinham desaparecido. E que falta lhe faziam, já que um era o seu cozinheiro particular que sabia segredos culinários que mais ninguém sabia e o outro o padeiro cujas mãos para amassar pão de diversas qualidades o levara ao seu serviço. Há já alguns anos, a bem dizer muitos, que esses dois homens o acompanhavam. Teriam morrido? Teriam sido capturados pelas gentes do Porto? Não sabia e não tinha hipóteses de os ir procurar. Que maçada! [Read more…]