Professores a colocar meninos nas filas e a limpar salas

A Escola Pública está a viver um momento muito delicado  porque o poder político pretende desmontar este pilar da nossa Democracia aos mercados. E o Governo recorre a diferentes estratégias, uma das quais passa por criar dificuldades nas mais elementares práticas do dia-a-dia – a ausência de funcionários é a mais evidente e um dos maiores problemas das escolas.

E a ausência de auxiliares, que poderá parecer um problema menor, coloca dificuldades ao nível da higiene e da segurança dos espaços e das crianças. Cria também imensas dificuldades nos “pequenos” procedimentos de apoio às práticas lectivas.

E se a Escola é mais do que um espaço onde se toma conta de crianças, também não é possível que o Ministro da Educação e os Directores pensem que podem substituir os funcionários por docentes, por exemplo, em horário zero.

O Estatuto da Carreira Docente é muito claro. No seu artigo 35º define o conteúdo funcional da profissão, dos quais destacaria

“leccionar as disciplinas; planear, organizar e preparar as actividades lectivas; conceber, aplicar, corrigir e classificar os instrumentos de avaliação das aprendizagens; elaborar recursos e materiais”.

Pois bem, são muitas as escolas que colocam os docentes a limpar salas ou a tomar conta de meninos nas filas da cantina. São várias as questões complicadas que estas situações colocam:

 – estão a ser usados recursos excessivamente caros para as tarefas em causa, quando podiam (deviam!) ser usados no apoio aos alunos;

– os alunos identificam os docentes em diferentes planos, criando confusões e dificuldades posteriores na gestão de sala de aula, isto é, os putos pensam: “se na cantina ele está aqui a fazer de funcionário, se calhar poderei também falar com ele como”…

– há necessidade de colocar funcionários nas escolas, mas isso não acontece porque há alguém a tapar o buraco.

Claro que esta argumentação não se coloca no plano do “somos melhores do que eles” ou “somos um intelectuais que não podemos fazer isto ou aquilo”. Nada disso. A dignidade de cada função passa pela sua qualificação e não pela sua desvalorização. Ou irá agora o Presidente da SAD do Real colocar o CR7 a porteiro do estádio? Poderá o Juíz vir limpar os vidros do tribunal?

A Escola Pública é melhor do que este governo e se cada um de nós colocar um travão a estas ilegalidades, então estaremos a defender a Escola Pública.

O meu pai tambem foi minha mãe

O dia do PAI é um belo dia, faz-me pensar em quem me deu o ser e quem me deu umas palmadas, uns abraços, gozou com a altura da minha primeira namorada (é pá, para ela te dar um beijo tem que se pôr em cima dum banco), chateava-me por eu jogar futebol federado, queria que eu estudasse e me deixasse de futebóis, era o único que dizia que eu não sabia jogar.

Um dia disse-me ” meu filho a minha maior alegria foi quando tu nascestes, mas nunca pensei que me ías dar o desgosto de seres do Benfica”, porque lá em casa eram todos dos “Andrades”, até chamava ao meu irmão o “Jaburu” celebre avançado do FCP que marcava golos em série. Tive pouco sucesso ao tentar explicar-lhe, a ele que andou toda a vida com a casa e os filhos às costas, que nós devemos “ser” da terra que nos recebe, mesmo transitoriamente, porque a terra onde nascemos é que é mesmo uma circunstância, não foi nosssa escolha.

A minha mãe deve ter sido das primeiras mulheres em Portugal que tomou a iniciativa de se divorciar, o meu pai em troca quiz ficar com os filhos todos, foi meu pai e minha mãe, cozinhava para nós, deixava a comida embrulhada em jornais para não arrefecer, e nós lá íamos para a escola enquanto ele estava no trabalho. Era funcionário público, representava o Estado na Direcção das grandes obras públicas, como os quartéis das Caldas da Rainha, de Abrantes, Trafaria, Castelo Branco…

Uma das conversas que teve comigo foi que ele e o pai do ex-Presidente Eanes ( que nessa altura seria um estudante da Academia Militar) eram as duas únicas pessoas sérias naquelas obras mas tambem eram as únicas que eram pobres. Como se vê já naquela altura as obras do Estado davam para fazer fortunas rápidas, um dia, era eu adolescente, fui esperado por um adulto que me disse : “diz ao teu pai que se não quer fazer a vida deixe os outros fazê-la”  e eu com o gajo a apertar-me o colarinho ainda perguntei:” mas o que quer dizer com isso? “, diz-lhe que ele sabe! foi a resposta.

Eu até julgava que o meu pai andaria metido com a mulher dele mas depois quando contei ao meu pai , disse-me que sabia quem era e que não tivesse medo, e assim fiz, andei sempre com gajos a chatearem-me porque o meu pai não os deixava roubar, e quem tambem me chateava eram as viúvas que queriam saber coisas da vida do meu pai, mas aí confesso que nunca deixei que alguma se aproximasse dele.

Mas um dia o meu pai teve que ser operado aí no Porto, num hospital qualquer coisa “… da Ordem Terceira” será? e antes de o operarem ele disse-me, olha vai ali ao jardim ao fundo desta rua , está lá uma senhora sentada num banco, o primeiro do jardim, e diz-lhe que está tudo a correr bem, e que tu és o Luís…

As mulheres do Porto a quererem roubar-me o meu pai…