Será que não aperto bem?

(Porm.adão cruz)

Não é que eu me considere tolo, embora os meus amigos digam que às vezes eu não bato bem. Eu penso, de facto, que há uma ou outra vez em que eu não aperto bem, ou melhor, aperto à minha maneira, que não é exactamente a maneira como os outros apertam.

Dá-se o caso que, vindo eu de Lisboa, de uma reunião médica, saí da auto-estrada para ir almoçar ao centro de Ílhavo. Estacionei o carro e procurei um restaurante, o qual, por acaso, estava ali mesmo à beira. Restaurante Villa Madrid.

Agradável, aconchegado e com um ambiente acolhedor. Televisão abafada, só com imagem, e no ar uma música suave e melodiosa que já não é habitual ouvir-se na maioria dos restaurantes: a Barcarola, dos contos de Hoffman, de Offenbach.

Sentei-me. A meio da refeição, uma Senhora idosa, dos seus oitenta anos, que me pereceu muito bonita, entrou na sala e sentou-se na mesa em frente à minha. Tinha um rosto vincado e sofrido, uma daquelas caras que parecem estar sempre prestes a chorar. Os nossos olhares cruzaram-se duas ou três vezes durante a minha permanência na mesa. O suficiente para eu achar, com efeito, que aquela Senhora deveria ter sido muito bonita. [Read more…]

A Nai Esperanza Revisitada

lembranças dos tecidos da alma da Nai Esperanza

Parte do livro que escrevo: Esperanza

É-me quase impossível tornar a escrever qualquer texto, sem me referir mais uma vez a essa mulher que não se furtava ao trabalho. Essa Senhora que sabia ser não apenas Nai (em luso galaico, Mãe em luso português), mas também uma boa mulher do seu marido. Sempre pensei nela como uma Senhora. Não dessas Senhoras que sabem vestir à moda imperante, com fatos de seda e penteados de cabeleireiro. Desde que me lembro, vestia da mesma forma, uma blusa com fundo amarelo, com flores estampadas para decorar esse fundo. A saia era cor castanha obscura, até os joelhos, e meias grosas para se defender do frio.  [Read more…]

O meu pai tambem foi minha mãe

O dia do PAI é um belo dia, faz-me pensar em quem me deu o ser e quem me deu umas palmadas, uns abraços, gozou com a altura da minha primeira namorada (é pá, para ela te dar um beijo tem que se pôr em cima dum banco), chateava-me por eu jogar futebol federado, queria que eu estudasse e me deixasse de futebóis, era o único que dizia que eu não sabia jogar.

Um dia disse-me ” meu filho a minha maior alegria foi quando tu nascestes, mas nunca pensei que me ías dar o desgosto de seres do Benfica”, porque lá em casa eram todos dos “Andrades”, até chamava ao meu irmão o “Jaburu” celebre avançado do FCP que marcava golos em série. Tive pouco sucesso ao tentar explicar-lhe, a ele que andou toda a vida com a casa e os filhos às costas, que nós devemos “ser” da terra que nos recebe, mesmo transitoriamente, porque a terra onde nascemos é que é mesmo uma circunstância, não foi nosssa escolha.

A minha mãe deve ter sido das primeiras mulheres em Portugal que tomou a iniciativa de se divorciar, o meu pai em troca quiz ficar com os filhos todos, foi meu pai e minha mãe, cozinhava para nós, deixava a comida embrulhada em jornais para não arrefecer, e nós lá íamos para a escola enquanto ele estava no trabalho. Era funcionário público, representava o Estado na Direcção das grandes obras públicas, como os quartéis das Caldas da Rainha, de Abrantes, Trafaria, Castelo Branco…

Uma das conversas que teve comigo foi que ele e o pai do ex-Presidente Eanes ( que nessa altura seria um estudante da Academia Militar) eram as duas únicas pessoas sérias naquelas obras mas tambem eram as únicas que eram pobres. Como se vê já naquela altura as obras do Estado davam para fazer fortunas rápidas, um dia, era eu adolescente, fui esperado por um adulto que me disse : “diz ao teu pai que se não quer fazer a vida deixe os outros fazê-la”  e eu com o gajo a apertar-me o colarinho ainda perguntei:” mas o que quer dizer com isso? “, diz-lhe que ele sabe! foi a resposta.

Eu até julgava que o meu pai andaria metido com a mulher dele mas depois quando contei ao meu pai , disse-me que sabia quem era e que não tivesse medo, e assim fiz, andei sempre com gajos a chatearem-me porque o meu pai não os deixava roubar, e quem tambem me chateava eram as viúvas que queriam saber coisas da vida do meu pai, mas aí confesso que nunca deixei que alguma se aproximasse dele.

Mas um dia o meu pai teve que ser operado aí no Porto, num hospital qualquer coisa “… da Ordem Terceira” será? e antes de o operarem ele disse-me, olha vai ali ao jardim ao fundo desta rua , está lá uma senhora sentada num banco, o primeiro do jardim, e diz-lhe que está tudo a correr bem, e que tu és o Luís…

As mulheres do Porto a quererem roubar-me o meu pai…