O meu pai tambem foi minha mãe

O dia do PAI é um belo dia, faz-me pensar em quem me deu o ser e quem me deu umas palmadas, uns abraços, gozou com a altura da minha primeira namorada (é pá, para ela te dar um beijo tem que se pôr em cima dum banco), chateava-me por eu jogar futebol federado, queria que eu estudasse e me deixasse de futebóis, era o único que dizia que eu não sabia jogar.

Um dia disse-me ” meu filho a minha maior alegria foi quando tu nascestes, mas nunca pensei que me ías dar o desgosto de seres do Benfica”, porque lá em casa eram todos dos “Andrades”, até chamava ao meu irmão o “Jaburu” celebre avançado do FCP que marcava golos em série. Tive pouco sucesso ao tentar explicar-lhe, a ele que andou toda a vida com a casa e os filhos às costas, que nós devemos “ser” da terra que nos recebe, mesmo transitoriamente, porque a terra onde nascemos é que é mesmo uma circunstância, não foi nosssa escolha.

A minha mãe deve ter sido das primeiras mulheres em Portugal que tomou a iniciativa de se divorciar, o meu pai em troca quiz ficar com os filhos todos, foi meu pai e minha mãe, cozinhava para nós, deixava a comida embrulhada em jornais para não arrefecer, e nós lá íamos para a escola enquanto ele estava no trabalho. Era funcionário público, representava o Estado na Direcção das grandes obras públicas, como os quartéis das Caldas da Rainha, de Abrantes, Trafaria, Castelo Branco…

Uma das conversas que teve comigo foi que ele e o pai do ex-Presidente Eanes ( que nessa altura seria um estudante da Academia Militar) eram as duas únicas pessoas sérias naquelas obras mas tambem eram as únicas que eram pobres. Como se vê já naquela altura as obras do Estado davam para fazer fortunas rápidas, um dia, era eu adolescente, fui esperado por um adulto que me disse : “diz ao teu pai que se não quer fazer a vida deixe os outros fazê-la”  e eu com o gajo a apertar-me o colarinho ainda perguntei:” mas o que quer dizer com isso? “, diz-lhe que ele sabe! foi a resposta.

Eu até julgava que o meu pai andaria metido com a mulher dele mas depois quando contei ao meu pai , disse-me que sabia quem era e que não tivesse medo, e assim fiz, andei sempre com gajos a chatearem-me porque o meu pai não os deixava roubar, e quem tambem me chateava eram as viúvas que queriam saber coisas da vida do meu pai, mas aí confesso que nunca deixei que alguma se aproximasse dele.

Mas um dia o meu pai teve que ser operado aí no Porto, num hospital qualquer coisa “… da Ordem Terceira” será? e antes de o operarem ele disse-me, olha vai ali ao jardim ao fundo desta rua , está lá uma senhora sentada num banco, o primeiro do jardim, e diz-lhe que está tudo a correr bem, e que tu és o Luís…

As mulheres do Porto a quererem roubar-me o meu pai…

Comments

  1. carla romualdo says:

    Bonita evocação do teu pai

  2. Luis Rocha says:

    Luís,
    Conheci o teu pai quando ainda eras criança, quando já estavas a estudar e a trabalhar em Lisboa e quando já eras pai.
    Da infância recordo que no intervalo dos exames do ensino secundário, lá estava ele e a minha mãe para nos darem ânimo com a sua presença e pasteis de nata.
    Do tempo em que já estávamos em Lisboa a trabalhar e a estudar (à noite) e partilhavamos o quarto de uma pensão (casa particular) e o teu pai nos visitava para saber se precisávamos de alguma coisa, continunado a estimular-nos para estudar e sermos como ele dizia “alguém na vida”.
    De quando foste pai, do orgulho que ele sentia (apesar de já ter até bisnetos) por ti e por ele.
    O teu pai/mãe como dizes e eu conheci como tal, continua vivo nos nossos corações.
    Um abraço do amigo
    Luis Rocha

  3. carla romualdo says:

    Ordem Terceira do Carmo, deve ser, na Praça Carlos Alberto

  4. Luis Moreira says:

    Isso, Ordem Terceira do Carmo. Obrigado, amigos meus. O meu pai foi um bom homem e um bom pai.

  5. maria monteiro says:

    e tu também és, Luís

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