Postcards from Scotland #4 (between Glasgow and Aberdeen, by train)

«Tenha um dia bonito», disse-me o condutor do autocarro, em português

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As férias estão oficialmente interrompidas até sexta-feira. Quanto aos postais, não tenho a certeza, já que creio que o que acontece num congresso de sociologia rural interessará pouco aos que não tiverem este assunto como objeto de estudo. Claro que num congresso – mesmo que seja de sociologia rural – acontecem mais coisas para além do congresso. Mas, ainda, assim, veremos se haverá material não académico suficiente para escrever postais.

Por falar em escrever postais, hoje ao meu lado no comboio que me trouxe de Glasgow para Aberdeen (a cidade ‘between Don and Dee’) uma rapariga escrevia postais para alguém na Hungria. Lembrei-me que tenho de escrever um postal a sério para Itália. Devo esta carta ou este postal há mais de 4 meses e começo já a ficar envergonhada com a minha demora. É verdade que há sms, emails, telefonemas, e talvez por isso, porque essas coisas são rápidas e usamo-las logo ali, no momento em que nos apetece ou temos um bocadinho de tempo. As cartas e os postais, sobretudo escritos à mão e numa língua diferente da minha, ainda que a mais bela do mundo, levam tempo a escrever. Levam mais cuidado a serem compostas, trabalhadas, palavra a palavra, com a caneta sobre o papel – branco, geralmente. Mas vejo a rapariga escrever postais e lembro-me disto. Tenho de comprar um postal aqui em Aberdeen ou depois em algum outro local e escrever, com vagar, a quem devo carta. Gosto, além do mais, da expressão ‘devo carta’. Devo carta, e cuidado e tempo a uma pessoa, portanto. Uma pessoa que conheci noutra viagem, que fala a língua mais bonita do mundo (à parte o napolitano, claro) e que vive num país bastante mais quente do que este onde agora me encontro.

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Postcards from Scotland #2 (Glasgow)

«Swirling clouds in violet haze»*

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Afinal levantei-me a tempo de tomar o pequeno almoço que, hoje, por ser domingo, terminava às 10h30. São 10h10 quando entro na bela cozinha do Grasshopper (que é como quem diz gafanhoto… o hotel fica na Union Street, 87). O pequeno almoço é bom, mas não sei se justifica que me levante de madrugada. De qualquer maneira não fiquei com fome. São quase 11h quando ponho os pés na rua e fumo o primeiro cigarro. O hotel é completamente anti-fumadores pelo que tenho de refrear o meu vício durante várias horas. Decidi ontem à noite apanhar hoje o autocarro turístico cuja primeira estação é na George Square. Antes vou à estação central, aqui mesmo ao lado do hotel, para tirar umas fotografias, porque ontem a achei soberba. Ainda acho. Está uma brisa muito fresca enquanto avanço pela Gordon Street para encontrar a Buchanan e subir um pouco até à St. Vincent. Aqui encontro um café italiano aberto no meio de todo o silêncio e o vazio de domingo, que percorrem as ruas. Bebo um expresso sofrível. Deambulo um pouco pela praça onde fica o City Chambers e um memorial às vítimas da I Guerra Mundial. As nuvens parece que redemoinham contra o céu azul, mas não demasiado, aqui e ali salpicado de cinzento, laranja, violeta.

Apanho o autocarro turístico e fico a saber que o percurso completo demorará uma hora e cinquenta e cinco minutos. Gosto de fazer primeiro o percurso todo e só depois, entrar e sair onde me apetecer. Se me apetecer. Deste modo creio que fico a dominar melhor as cidades. Até hoje nunca falhou o meu método. A guia do autocarro é fenomenal. Com o mesmo humor escocês que encontrei hoje no senhor que entrou no 2º andar, no elevador, quando eu descia do hotel. Diz-me que por momentos pensou que eu lhe iria cobrar bilhete. Ainda não estou bem acordada e levo uns minutos para perceber a piada. Depois de me rir o senhor fala do tempo. ‘Lovely day’, diz ele e não sendo piada, eu penso – sem lhe dizer, no entanto – ‘só se for para um escocês, com este frio…’. Na rua eu acento o cigarro e ele aquelas maquinetas eletrónicas. Digo-lhe adeus e ele retribui ‘have a nice day’.

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Postcards from Scotland #1 (between Liverpool and Glasgow, by train)

«The railway cuttings covered in wild flowers, the deep meadows where the great shining horses browse and meditate»*

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Acordo em Liverpool antes das dez e meia e está um sol encantador e um céu azul de verão. Arrumo as coisas, tomo banho, visto-me, pago e deixo as malas para ir tomar o pequeno almoço à Dale Street Eatery, como nos últimos dias. O hotel é muito simpático, tem apenas seis meses e, já o disse no postal de antes de ontem, era uma antiga prisão. É tudo limpo e confortável, mas minimalista. Deve ser por isso que não é caro, apesar de ser absolutamente central. É o Main Bridewell (da cadeia Staycentral) e fica em Cheapside. O pequeno almoço é servido a 2 minutos de distância, num café muito simpático. Mal entro, hoje, uma das meninas pergunta se quero o mesmo que ontem, ou seja, fruta e ovos. Digo que seria ‘lovely’ ter outra vez fruta em vez de feijões e tomates guisados e que desta vez quero os ovos mexidos. Uma taça com maçã, uvas e, que bom, morangos. Os ovos mexidos, pão e um sumo de laranja a que acrescento depois um café expresso. A arte de fazer café não é muito praticada nesta parte do mundo. Mas bebo o café, assim mesmo. Penso que na estação poderei beber outro, no Costa. Aí tenho a certeza que um café expresso é um café expresso. Assim farei.

Ando um bocado pelas ruas a seguir ao pequeno almoço até que são horas de ir para a Lime Street Station e apanhar o comboio para Glasgow. Quando chego à estação cumprimento, e despeço-me, do senhor e da senhora da escultura Chance Meetings e, desta vez, tiro uma fotografia com o senhor. Bebo o café e vou procurar a plataforma 5. Quando me aproximo ouço um barulho de vozes grossas e vejo mais de 10 polícias daquele lado da estação. Chego-me à frente e vejo um grupo pequeno de homens vestidos de preto, com as cabeças rapadas e, alguns, com as caras tapadas. Sei imediatamente do que se trata mas, mesmo assim, pergunto a um rapaz que tem uma máquina fotográfica… responde-me que são nazis e que vai haver uma manifestação em Liverpool, hoje – a White Men March. Faço uma cara de nojo e ele diz-me que lá fora estão manifestantes de esquerda e que a polícia teme que existam confrontos. Os nazis gritam muito alto com as mãos estendidas e aquilo assusta-me tanto que digo adeus ao rapaz da máquina fotográfica e vou fumar um cigarro do outro lado da estação, arrastando o trambolho da mala. Enquanto fumo vejo mais nazis do lado de fora da estação. Penso que é um excelente dia e uma excelente hora para deixar a cidade.

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