Postcards from Scotland #4 (between Glasgow and Aberdeen, by train)

«Tenha um dia bonito», disse-me o condutor do autocarro, em português

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As férias estão oficialmente interrompidas até sexta-feira. Quanto aos postais, não tenho a certeza, já que creio que o que acontece num congresso de sociologia rural interessará pouco aos que não tiverem este assunto como objeto de estudo. Claro que num congresso – mesmo que seja de sociologia rural – acontecem mais coisas para além do congresso. Mas, ainda, assim, veremos se haverá material não académico suficiente para escrever postais.

Por falar em escrever postais, hoje ao meu lado no comboio que me trouxe de Glasgow para Aberdeen (a cidade ‘between Don and Dee’) uma rapariga escrevia postais para alguém na Hungria. Lembrei-me que tenho de escrever um postal a sério para Itália. Devo esta carta ou este postal há mais de 4 meses e começo já a ficar envergonhada com a minha demora. É verdade que há sms, emails, telefonemas, e talvez por isso, porque essas coisas são rápidas e usamo-las logo ali, no momento em que nos apetece ou temos um bocadinho de tempo. As cartas e os postais, sobretudo escritos à mão e numa língua diferente da minha, ainda que a mais bela do mundo, levam tempo a escrever. Levam mais cuidado a serem compostas, trabalhadas, palavra a palavra, com a caneta sobre o papel – branco, geralmente. Mas vejo a rapariga escrever postais e lembro-me disto. Tenho de comprar um postal aqui em Aberdeen ou depois em algum outro local e escrever, com vagar, a quem devo carta. Gosto, além do mais, da expressão ‘devo carta’. Devo carta, e cuidado e tempo a uma pessoa, portanto. Uma pessoa que conheci noutra viagem, que fala a língua mais bonita do mundo (à parte o napolitano, claro) e que vive num país bastante mais quente do que este onde agora me encontro.

É praticamente inverno em Aberdeen. Choveu copiosamente o dia todo, pelo menos desde que cheguei à estação central à uma e um quarto. Em Glasgow estava sol quando me levantei, vesti e tomei o pequeno almoço. Estava sol quando caminhei com a grande mala pelos poucos metros da Union Street até à estação central. Estava sol quando vi os girassois num banca da estação e estava sol quando realizei que estava na estação errada. Tendo chegado a esta estação, quando vim de Liverpool e sendo esta a principal estação da cidade não pensei que pudesse ser outra aquela onde me esperava o comboio para Aberdeen. Quando percebo o erro e que tenho que me dirigir para a Queen Street Station, a 10 minutos daquela, se não fosse o trambolho da mala, claro está, eram 10h20 e o comboio partia às 10h41. Saí tão depressa quanto a mala me permitiu da estação central, apanhei um taxi e 3 libras depois (barato, portanto) estava a sair na Queen Street Station e a perceber que o comboio partirá da plataforma 5.

Entro eu e as malas no comboio. A viagem faz-se sem sobressaltos mas mal abandonamos Glasgow começa a chover. E tem sido assim, desde então, até agora. Acabo de ler o livro da Flannery O’Connor e começo imediatamente a ler o romance que comprei ontem na Waterstones – ‘The First Bad Man’ da Miranda July. Estava, confesso, ansiosa por começar a lê-lo e a minha ansiedade justificou-se completamente. Que livro extraordinário. Que escritora maravilhosa. Estou rendida e disposta a ler as suas ‘short stories’ já publicadas, mal as apanhe. Estou a ler em inglês e é maravilhosa a escrita dela. Vou lendo e rindo sozinha com as (des)(a)venturas de Cheryl. Não é um romance cómico, no entanto, mas tem sarcasmo q.b. É brilhante, digo-vos eu novamente e fez-me companhia praticamente até chegar a Aberdeen. Paro de ler para contemplar o Mar do Norte, aqui e ali e as abruptas escarpas em alguns sítios que sobre ele se inclinam.

Saio do comboio e procuro os táxis. Há autocarros até ao local do congresso e onde fica o meu hotel, que é, deve dizer-se, bastante longe do centro da cidade. Estou nisto e liga-me o Renato que vem do aeroporto com a Isabel. Combinamos que a Isabel (que está no mesmo hotel que eu) esperará por mim para irmos para a Universidade de Aberdeen onde, hoje, é a abertura oficial. Na fila dos táxis encontro a Fátima, mas quero fumar e de qualquer modo não vamos para o mesmo hotel. Saio da estação para fumar. Fumar no Reino Unido é uma dor de cabeça, só vos digo. Mesmo ao ar livre não se pode fumar em qualquer sítio e… sim, é uma dor de cabeça encontrar os sítios onde se pode fumar. Acabo de fumar e volto à fila dos táxis. Chego ao hotel, a Isabel ainda não chegou. Vou ao quarto, tiro coisas da mala, lavo os dentes e constato que estou esfomeada. Desde as 9h30 já passaram muitas horas. Desço e fumo mais um cigarro à porta do hotel enquanto a Isabel não chega. Ela chega finalmente e eu vou comer enquanto ela faz o ‘check in’. Apanhamos depois um autocarro para a Universidade de Aberdeen. Chove. Está frio. É, já o disse, praticamente inverno em Aberdeen.

A Universidade de Aberdeen é muito verde e muito bonita, apesar da chuva e do frio. A cerimónia de abertura já começou. Ali está o Babis no palco, com os oradores convidados. Um deles, grego, é muito bom. Fala da crise, da Grécia, da Europa e de tudo aquilo que já sabemos mas nunca é demais ouvir. Uma boa palestra, ao contrário da anterior, uma senhora do norte da Europa que, apesar de falar na crise, não tem a mínima ideia do que é a crise – e sobretudo a crise do mundo rural – nos países periféricos da Europa. Ou terá uma ideia, muito pálida, medindo tudo à imagem e semelhança destes países ‘que importam’. A mim importam-me os meus colegas sul europeus e outros periféricos como eu. Vejo o Renato sentado na outra ponta do anfiteatro, a Fatma, a Fátima outra vez. Mais tarde havemos de sair todos, os do costume, depois da ‘Welcome Reception’ para ir beber ‘a última’ a um pub no centro da cidade. Os congressos são também isto. Estes reencontros. Não são apenas os sul europeus que reencontro, é evidente, mas outros colegas de muitos países. Gosto disto nos congressos e quem conhece o David Lodge percebe bem o que digo. No entanto, devo dizer, que comigo as coisas nunca se passam exatamente como nos livros sobre o mundo académico do autor.

Regresso ao hotel de táxi, deixando no caminho o Babis e o Renato. Os outros estão no centro da cidade. Dormirão menos meia hora que eu amanhã e isso para mim é importante, essa meia-hora a mais que poderei dormir de manhã. Tão importante como a suave gentileza dos escoceses, quase todos. Quando ía com a Isabel no autocarro para a Universidade, no meio da chuva, o motorista, ao sairmos na paragem disse qualquer coisa em escocês que, naturalmente, não pude compreender. Disse-lhe ‘sorry?’. ‘Are you Spanish?’ perguntou ele. ‘No, I am Portuguese’. ‘Ah. Then what I just said was ‘tenha um dia bonito’, respondeu, em português, com um maravilhoso sotaque. Apesar da chuva, do frio, de ser praticamente inverno em Aberdeen, acho que tive.

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