Postcards from Scotland #1 (between Liverpool and Glasgow, by train)

«The railway cuttings covered in wild flowers, the deep meadows where the great shining horses browse and meditate»*

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Acordo em Liverpool antes das dez e meia e está um sol encantador e um céu azul de verão. Arrumo as coisas, tomo banho, visto-me, pago e deixo as malas para ir tomar o pequeno almoço à Dale Street Eatery, como nos últimos dias. O hotel é muito simpático, tem apenas seis meses e, já o disse no postal de antes de ontem, era uma antiga prisão. É tudo limpo e confortável, mas minimalista. Deve ser por isso que não é caro, apesar de ser absolutamente central. É o Main Bridewell (da cadeia Staycentral) e fica em Cheapside. O pequeno almoço é servido a 2 minutos de distância, num café muito simpático. Mal entro, hoje, uma das meninas pergunta se quero o mesmo que ontem, ou seja, fruta e ovos. Digo que seria ‘lovely’ ter outra vez fruta em vez de feijões e tomates guisados e que desta vez quero os ovos mexidos. Uma taça com maçã, uvas e, que bom, morangos. Os ovos mexidos, pão e um sumo de laranja a que acrescento depois um café expresso. A arte de fazer café não é muito praticada nesta parte do mundo. Mas bebo o café, assim mesmo. Penso que na estação poderei beber outro, no Costa. Aí tenho a certeza que um café expresso é um café expresso. Assim farei.

Ando um bocado pelas ruas a seguir ao pequeno almoço até que são horas de ir para a Lime Street Station e apanhar o comboio para Glasgow. Quando chego à estação cumprimento, e despeço-me, do senhor e da senhora da escultura Chance Meetings e, desta vez, tiro uma fotografia com o senhor. Bebo o café e vou procurar a plataforma 5. Quando me aproximo ouço um barulho de vozes grossas e vejo mais de 10 polícias daquele lado da estação. Chego-me à frente e vejo um grupo pequeno de homens vestidos de preto, com as cabeças rapadas e, alguns, com as caras tapadas. Sei imediatamente do que se trata mas, mesmo assim, pergunto a um rapaz que tem uma máquina fotográfica… responde-me que são nazis e que vai haver uma manifestação em Liverpool, hoje – a White Men March. Faço uma cara de nojo e ele diz-me que lá fora estão manifestantes de esquerda e que a polícia teme que existam confrontos. Os nazis gritam muito alto com as mãos estendidas e aquilo assusta-me tanto que digo adeus ao rapaz da máquina fotográfica e vou fumar um cigarro do outro lado da estação, arrastando o trambolho da mala. Enquanto fumo vejo mais nazis do lado de fora da estação. Penso que é um excelente dia e uma excelente hora para deixar a cidade.

Regresso à plataforma 5 e sento-me num banco a observar a bela estação. Até mim chegam ainda os gritos horríveis, as palavras de ordem dos nazis que permanecem no átrio da estação. Uma senhora aproxima-se e comenta comigo que aquilo é uma coisa horrível. Digo-lhe que não devia ser permitido. Que gostaria de dizer que todos têm o direito de se manifestar mas… que penso mesmo a sério que os nazis não o têm. Ou não o deveriam ter. Ela concorda. O meu comboio chega e eu digo-lhe adeus e que fique em paz, longe daquela manifestação atroz. Subo com a mala para o comboio e sento-me. Ali já não ouço os gritos. E o comboio parte à hora exata, para meu grande alívio. O comboio vai até Wigan North Western onde devo depois tomar outro para Glasgow. Demora aproximadamente uma hora, esta primeira parte da viagem. Desço na estação de Wigan e aguardo na plataforma cerca de 20 minutos. Fumo sossegada. Continuo a pensar que este foi um belo dia para deixar Liverpool. Está sol. Mas um frio ligeiro atravessa-me a pele. O comboio para Glasgow chega.

Sento-me no meu lugar. Em frente a mim está um casal. Ele tem a cabeça rapada e está coberto de tatuagens – isto não significa nada, obviamente – e ela é loira platinada, tem um decote gigantesco e retocará a maquilhagem umas seis vezes nas duas horas e pouco que há-de durar a viagem. Põe perfume duas vezes. O perfume tem um cheiro tenebroso, se querem saber e eu, das duas vezes, escondo a cara no meu lenço que cheira ao meu próprio – e maravilhoso, ainda que misturado com tabaco – perfume. Do outro lado do corredor vai outra família. Mais novos que os primeiros e que eu, com uma criança de dois ou três anos, profundamente sossegada. O homem e a mulher deste segundo casal são a antítese dos primeiros. Ela muito alta e elegante traz um vestidinho magnífico que lhe assenta perfeitamente. Ele, alto e saudavelmente musculado, com barba e uns olhos muito azuis. O menino parece-se com ambos. Adormecem todos, menos eu e a criança. Penso que ainda bem que somos todos tão dversos. Mas… ao mesmo tempo, se alguma vez eu me maquilhar seis vezes e puser um terrível perfume duas, numa viagem de comboio, mandem internar-me. De preferência num sítio com vista para o mar. E com um banco de madeira com o meu nome.

Leio mais um bocado do livro, quando não estou a reparar pormenorizadamente nos outros passageiros à minha volta ou na paisagem. Confesso que é nesta que mais reparo. Quando entramos na Escócia, nota-se bem a diferença. Para começar, as ovelhas como flocos redondos de algodão espalhadas pelas colinas muito verdes. Depois os mansos cavalos que vagueiam devagar. E as vacas que pastam sossegadas indiferentes aos comboios, aos casais, às crianças. Tudo me lembra – apesar dele ter escrito isto sobre a Inglaterra – uma passagem de Homenagem à Catalunha, de George Orwell, em que descreve o seu regresso ao Reino Unido: «os carris dos comboios cobertos de flores selvagens, os profundos prados onde os cavalos brilhantes vagueiam e meditam (…)».

Que bonita que é a paisagem da Escócia. Entramos nas Lowlands. Se calhar as Highlands serão ainda mais bonitas. Daqui a alguns dias o saberei. O mais alto que tinha subido no Reino Unido foi a Newcastle, vinda de Durham, uma vez, há muitos anos. Mas nada disto me recorda essa viagem. Tudo isto é novo e profundamente calmo, mesmo se a senhora da frente continua a maquilhar-se e a perfumar-se. Entre as colinas, algumas montanhas, uns quantos rios e muitas ovelhas, vacas e cavalos, chegamos todos a Glasgow. A estação de Glasgow Central é imensa e muito bonita. Sei que o hotel onde vou ficar estes dias é aqui muito perto. Há muita agitação na rua, quando saio da estação e pergunto a um taxista pela Union Street. A primeira à direita. Vê o número que tenho no papel e diz ‘two seconds’. Vou com a mala por onde ele me disse e encontro imediatamente o hotel. Confesso que a entrada não promete nada de bom. Mas quando entro há uma placa que diz ‘Grasshoppers’ guests go to the 6th floor, please’. Assim faço. Quando saio do elevador nem quero acreditar no que me espera. Um dos hoteis mais bonitos onde já estive, contando os mais caros e com mais estrelas. É tudo branco. O meu quarto é um primor. Tem vários espaços separados e uma janela enorme com uma vista fabulosa. Até ver, é perfeito como nos filmes, exceto nos horários do pequeno almoço. Em Liverpool podia tomar o pequeno almoço até às cinco da tarde se quisesse. Aqui, aos fins de semana até ás 10h30. Aos dias de semana até às 9h30. Protesto ligeiramente com a miúda da receção. Digo que sou uma pessoa noctívaga e que estou de férias… ela diz que vai ver o que pode fazer, mas desconfio que, ou me levanto com as galinhas ou fico sem pequeno almoço.

Nunca percebi esta coisa nos hoteis, juro. Estes horários absurdos, especialmente no verão, se estamos de férias, para o pequeno almoço. Uma vez em Roterdão fiquei num hotel (também bestial!) onde se podia tomar o pequeno almoço (e era um pequeno almoço brilhante, devo dizer) 24 horas por dia. Assim, sim. Agora estes horários estapafúrdios! Mas adiante. Tirando os horários, o hotel parece-me o paraíso na terra. Amanhã vos direi (ou não) se compensa levantarmo-nos cedo para tomar aqui o pequeno almoço. Pouso a mala no quarto, olho para a bela vista e volto a sair. Viro à esquerda, depois à direita para a Gordon Street. Há um café italiano e eu sento-me e peço um expresso. Bom, por sinal. Pensava ir até à catedral, mas, enquanto bebo o café, mudo de ideias e decido ir até ao rio Clyde. Vou até à Royal Exchange Square e descubro ali mesmo a Galeria de Arte Moderna que amanhã ou depois visitarei. Uma bela praça. Meto pela Buchanan Street e admiro os edifícios e as montras, na primeira parte da rua de lojas muito caras, na segunda de lojas banais, das que há em toda a parte. Chego a St. Enoch Square e há um café lindo no meio da praça. Mas já bebi o meu expresso e por isso continuo em frente até ao rio.

O rio é bonito, muito mais estreito que o Mersey de Liverpool. A Glasgow Bridge está bonita sob o sol que começa a cair, ainda que bastante devagar. Percorro as margens do rio por um bocado. Há pessoas sentadas nas escadas que vão dar às margens, outros na relva. Passam ciclistas e corredores. Vejo a St.Andrews Cathedral, uma igreja católica romana e entro. Está uma missa a terminar e sento-me. A igreja é bonita mas não tem qualquer comparação com a Metropolitan Cathedral de Liverpool. Reconheço os tempos da missa, apesar de há muito tempo não a frequentar. O padre manda-nos em paz e que o senhor nos acompanhe. E eu aproveito a deixa e saio por uma das portas laterais. Volto à Buchanan Street que, desta vez, percorro até ao fim, até ao Royal Concert Hall de Glasgow. Dois músicos sob a estátua do primeiro escocês ‘first ever first minister’ tocam uma música de que gostava muito quando era nova, Fast Car de Tracy Chapman**. Cantarolo com eles um bocado e continuo a caminhar pela Sauchiehall Street até à Renfield que começo a descer. Reparo nos muitos pubs e na grande quantidade de gente. Mulheres bem vestidas, se se for escocês bem entendido, homens de gravata, miúdos, teenagers… parece que todo o Glasgow saiu à rua. Lembro-me que é sábado. Resolvo entrar num pub chamado Maltman. Ainda servem comida ‘until quarter past eight’ diz-me um dos empregados. Muito bem. Peço frango recheado e puré de batata e legumes e uma pint da cerveja local. Tennent’s, informa-me outro empregado.

Sento-me a uma mesa entre dois grupos de raparigas que falam muito alto e riem de tudo e de nada. O pub começa a encher-se. Depreendo que a maior parte dos que ali estão são locais. Novos e menos novos. Todos bebem coisas e falam alto demais. De repente as luzes baixam e começa a tocar um êxito qualquer dos anos 80. O povo todo de Glasgow levanta-se das mesas e dança, dança, dança. Eu fico ali, a beber outra pint de Tennent’s e a apreciar minuciosamente tudo aquilo. De vez em quando vou lá fora fumar e toda a gente que se cruza comigo me sorri e eu retribuo. Deve ser fácil fazer amigos no Maltman, especialmente ao sábado à noite ao som dos greatest hits dos anos 70 e 80. Tudo aquilo acaba por ser divertido. As pessoas, o modo como estão vestidas, especialmente as mulheres, que parecem bolas de espelhos de uma discoteca, na verdade. Quando passam uma música dos ABBA decido que já é demais para mim e saio. Cá fora anoiteceu de vez. Percorro o que me falta da Renfield Street até chegar à estação e entrar de novo na Union Street. Pelo caminho cruzo-me com grandes grupos de mulheres, estranhamente vestidas e, algumas, muito bêbadas. Uma cai à minha frente e as amigas levantam-na e arrastam-na praticamente pela rua enquanto ela grita coisas que não consigo entender. Prefiro, penso, ser como um grande e brilhante cavalo nos prados escoceses, vagueando e meditando, e tenho saudades do silêncio de Liverpool.

* excerto de ‘Homage to Catalonia’, de George Orwell. Em português há, pelo menos, uma tradução dos Livros do Brasil (que é a que tenho).

** Fast Car, Tracy Chapman – https://www.youtube.com/watch?v=uTIB10eQnA0

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