Postcards from Scotland #2 (Glasgow)

«Swirling clouds in violet haze»*

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Afinal levantei-me a tempo de tomar o pequeno almoço que, hoje, por ser domingo, terminava às 10h30. São 10h10 quando entro na bela cozinha do Grasshopper (que é como quem diz gafanhoto… o hotel fica na Union Street, 87). O pequeno almoço é bom, mas não sei se justifica que me levante de madrugada. De qualquer maneira não fiquei com fome. São quase 11h quando ponho os pés na rua e fumo o primeiro cigarro. O hotel é completamente anti-fumadores pelo que tenho de refrear o meu vício durante várias horas. Decidi ontem à noite apanhar hoje o autocarro turístico cuja primeira estação é na George Square. Antes vou à estação central, aqui mesmo ao lado do hotel, para tirar umas fotografias, porque ontem a achei soberba. Ainda acho. Está uma brisa muito fresca enquanto avanço pela Gordon Street para encontrar a Buchanan e subir um pouco até à St. Vincent. Aqui encontro um café italiano aberto no meio de todo o silêncio e o vazio de domingo, que percorrem as ruas. Bebo um expresso sofrível. Deambulo um pouco pela praça onde fica o City Chambers e um memorial às vítimas da I Guerra Mundial. As nuvens parece que redemoinham contra o céu azul, mas não demasiado, aqui e ali salpicado de cinzento, laranja, violeta.

Apanho o autocarro turístico e fico a saber que o percurso completo demorará uma hora e cinquenta e cinco minutos. Gosto de fazer primeiro o percurso todo e só depois, entrar e sair onde me apetecer. Se me apetecer. Deste modo creio que fico a dominar melhor as cidades. Até hoje nunca falhou o meu método. A guia do autocarro é fenomenal. Com o mesmo humor escocês que encontrei hoje no senhor que entrou no 2º andar, no elevador, quando eu descia do hotel. Diz-me que por momentos pensou que eu lhe iria cobrar bilhete. Ainda não estou bem acordada e levo uns minutos para perceber a piada. Depois de me rir o senhor fala do tempo. ‘Lovely day’, diz ele e não sendo piada, eu penso – sem lhe dizer, no entanto – ‘só se for para um escocês, com este frio…’. Na rua eu acento o cigarro e ele aquelas maquinetas eletrónicas. Digo-lhe adeus e ele retribui ‘have a nice day’.

Voltando ao autocarro, que deixei no humor escocês da guia, ele faz um longo percurso desde o centro até ao Jardim Botânico, passando por muitos sítios que já ontem havia visto e também pelo centro de conferências e exposições, pelo centro de ciência e planetário e o museu Riverside, todos com belíssimos edifícios de arquitetura moderna. Gosto muito. A seguir e antes de chegarmos aos Botanic Gardens e à Universidade de Glasgow, passamos por outro belo museu – o Kelvingrove. Também fomos ao mercado Barras, ao Merchant Center e à Catedral e à necrópole. Vou tirando fotografias à medida que as nuvens se dissipam e o céu vai ficando cada vez mais azul. A guia do autocarro faz piadas com o nosso ‘bronzeado’ escocês. Temos de compreender, ‘a sunny day’ é uma coisa rara na Escócia.

Quando o autocarro regressa ao ponto de partida já é uma e pouco. Não é que tenha fome ainda, mas resolvo ir à Royal Exchange Square ao Costa. Café a sério, um brownie e uma água. Ao sol. Os habitantes de Glasgow parecem estar todos cá fora, aproveitando o bom tempo. É agradável esta cidade. Além de bonita. Parece-me maior que Liverpool e creio que é, mas no entanto, assim mesmo, parece-me mais amigável. Não é que Liverpool não seja uma cidade amigável. Mas Glasgow parece-me mais. Apenas isso. Depois do Costa preciso de levantar dinheiro e ando bastante até encontrar um multibanco. Regresso a George Square para apanhar de novo o autocarro e ir à catedral de Glasgow. Esta é muito bonita, com a ‘lower e a upper churches’, a tumba do santo padroeiro de Glasgow (Saint Mungo ou Saint Kentigern), belos vitrais e – claro – magníficos órgãos de tubos. Cá fora nos jardins algumas campas, com as pedras muito gastas na sua maioria. Uma delas chama-me a atenção. Diz: ‘In memory of Sundays – 1977-1989’. A pedra é pequena e as letras estão cheias de musgo. Não sei quem foi Sundays, apenas que morreu muito jovem e tenho pena. Mas depois resolvo dar outra interpretação ao epitáfio. Decido que é em memória de todos os domingos do mundo. Deste domingo, em particular, que passo em Glasgow, e de todos os que hão-de vir na minha vida. Com este pensamento entro na necrópole.

Um lugar calmo. As campas contam estórias dos falecidos. Muitos jazigos têm vários familiares e nas lápides é contado o seu parentesco. Leio algumas mas fico triste quando encontro a campa de Elizabeth e William e os seus vários filhos. Sim, bem sei que Elizabeth é um nome muitíssimo comum no Reino Unido mas aquilo perturba-me um pouco e reparo que as nuvens voltaram, num redemoinho, ao céu e que em certos sítios há como uma névoa ténue. Sento-me numa escada a contemplar as magníficas vistas da catedral e a fumar um cigarro. Fumar mata, avisa-me, como sempre, o meu maço de tabaco e eu já estou num cemitério. Seja o que Saint Mungo e os restantos santos todos quiserem. Regresso devagar à paragem do autocarro e, desta vez, não é do comboio que fico à espera. Saio perto da estação central e percorro toda a Union Street até encontrar a Jamaica Street que me há-de levar, de novo, ao rio Clyde. Ontem tinha lido num site que há barcos que fazem passeios no rio. Lamentavelmente não vejo qualquer barco, nem qualquer anúncio a passeios, embora exista efetivamente um pequeno cais. Desapontada sento-me, como as outras pessoas, ao sol, a contemplar a água. Acho que me constipei ligeiramente – pelo menos, até ver – e sinto-me um bocadinho sozinha. São cinco da tarde. E sinto-me um bocadinho sozinha.

Raramente me sinto sozinha. Não apenas nas viagens, mas em geral. Aceito, no entanto, com, digamos, uma certa ternura por mim mesma, estes momentos. Regresso ao hotel e acabo por adormecer durante uma hora e qualquer coisa. A cama é tão confortável. Quando acordo, a solidão já não existe. Ou melhor, já a não sinto. Saio e vou passear nas ruas próximas. Volto à praça Royal Exchange. É muito bonita com a GoMA – Galery of Modern Art – que penso visitar amanhã, assim como a Lighthouse. Sento-me na esplanada, onde ontem, à chegada, bebi um café expresso verdadeiro – o café Barolo. Italiano, portanto. Reparo que as pessoas comem e resolvo comer ali também. Uns crostinis bastante aceitáveis e um ‘pappardelle alla ragu’ excelente. Empurro tudo com uma ‘birra alla spina’. Um dos empregados, com os olhos muito azuis, fala comigo e eu reparo no sotaque italiano. Respondo-lhe em italiano. Diz-me ‘ah, ma lei parla italiano?’. ‘Un po’, respondo. Ele diz-me, pesaroso, ‘scusa ma io non parlo greco’. Olho aqueles belíssimos olhos azuis com espanto e respondo: ‘ ma io non sono greca, sono portoghese’. ‘Portoghese? parla en portoghese con me, per favore, mi piace tanto’. E eu falo em português e ele vai saboreando cada coisa que lhe digo e perguntando como se dizem outras palavras. É, além de incrivelmente bonito, absolutamente simpático e ‘chiacchierone’. No fim diz-me que não gosta dos escoceses. Que, nós, pessoas do sul, somos muito mais simpáticas e temos o sangue quente. Concordo, mas digo que os escoceses de Glasgow também não estão nada mal, mesmo que tenham o sangue mais frio, pelo menos têm um sentido de humor formidável.

Em frente da esplanada um homem americano toca guitarra e canta. Quando estou para me levantar começa a cantar ‘Vicent’, do Don McLean. Há quantos anos não ouvia esta música. Mais outra da minha juventude em que passava tardes inteiras, com a Carla a ouvir este tipo de música e a ser adolescente. Não vejo a Carla há alguns anos. Não sei se ainda ouvirá o Don McLean. Mas eu ouço-o nesta noite, no centro de Glasgow, ao pé de um empregado que tem – como Vincent Van Gogh a quem a música é dedicada, tinha – os olhos muito azuis, uns olhos onde redemoinham todas as nuvens do céu das terras do Mezziogiorno.

* frase de ‘Vincent’, de Don McLean (https://www.youtube.com/watch?v=dipFMJckZOM)

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