Que agora comer é um luxo, é um luxo

 

Não se percebe, ou será apenas uma dificuldade minha, como pode ser que, apesar da crise, continuem a multiplicar-se os restaurantes. Nem sequer aqueles capazes de agradar a um público heterogéneo, mas cada vez mais especializados em coisinhas pequenas, maniazinhas, tiques refinados. Depois da moda das hamburguerias, agora é ver abrir as casas que só têm chás, as que só têm torradas, o restaurante que serve comida em pratos para cão (por Tutatis!), a casa que se especializou em cereais com leite, a que só confecciona refeições com conservas. No meu nada turístico bairro, cheio de casas em ruína e velhotes a sobreviver com reformas miseráveis, abriu um restaurante gourmet, com cozinha de fusão, ementas em inglês, citações refinadas na parede. Durou exactamente cinco semanas, das quais passou quatro às moscas. Era uma espécie de extraterrestre que nos aterrou ali e que olhávamos com a mesma estupefacção com que espreitaríamos uma manada de unicórnios a atravessar a rua. Um dia desapareceu para dar lugar ao velho cartaz “Aluga-se” que já conhecíamos bem.

Multiplicam-se os programas sobre cozinha, os chefs vedetas, o espaço nas livrarias para obras dedicadas aos hambúrgueres gourmet, ao cake design, às receitas na Bimby, e por aí fora. E os restaurantes que se propõem proporcionar-nos uma “experiência”, como esse onde entrei por engano aqui há tempos, e onde um snob ressabiado punha a boquinha em O para contar que naquele restaurante o tempo se detém, que tudo é feito na hora, com todo o amor que lhes merecemos, e que acabou a servir-nos comida sem graça a preços inflacionados, uma carta de vinhos a preços insultuosos, e, não contente com isso, ainda nos cobrou dez euros a mais por aquilo que não pedimos nem comemos. À reclamação apresentada, respondeu com um “pelo amor de Deus” que quase nos fazia sentir, a nós que estávamos a ser roubados, uns pelintras miseráveis que perdiam tempo com miudezas, incapazes de desfrutar da “experiência” e do “conceito”. Quando há “conceito”, diz-me a experiência, a comida não costuma ser grande coisa. Claro que no conceito deste mui elitista restaurante não cabia o pagamento com cartão e a factura era uma coisa manhosa emitida em papel e de aspecto duvidoso. Mas o IVA a 23% estava na conta, não havia dúvida.

Inversamente, também os tascos ficaram na moda. Num esplêndido tugúrio descoberto há séculos pelos meu pai, encontro agora gente modernaça que aparece com cara de quem vem para uma experiência radical, a semana passada fizeram rappel, esta semana vieram ao pratinho de tripas com rojões, para a próxima logo se vê. De um lado estão as matronas acompanhadas pelo amante que é um pai de família minhoto, um clássico dos sábados à tarde, e que limpam uma lágrima furtiva quando o empregado lhes serve o vinho da casa e confessa que é órfão de mãe desde pequenino, do outro estão os barbudos lumbersexuais ou os cravejados de piercings, como o Afonso (olá, Afonso!). Convivem todos bem e que remédio, que o espaço é pequeno e os tectos baixos.

A profusão de sítios emproados tem pelo menos a grande vantagem de fazer destacar o restaurante honesto, que pode ou não ser elegante, pode ou não esmerar-se na decoração, mas que entende que é na qualidade dos produtos e na perícia de quem os prepara e serve que radica a sua missão, e que há que cobrar o que se dá, não o conceito megalómano que se idealizou. E são esses que vão ficando, com uma classe média que deixou de poder ir comer fora como dantes, com a multiplicação de lancheiras à hora de almoço, e uma taxa de IVA igualzinha à de um descapotável topo de gama.

Como eu explicava no outro dia ao meu pai, que já não sai muito, o antigo “pobrezinho mas honrado” foi actualizado para “low cost mas gourmet”.

Foto: Abrinsky

Comments

  1. Alexandre Carvalho da Silveira says:

    É apenas uma dificuldade sua!

  2. jojoba says:

    Desde que este fenómeno dos restaurantes de “conceptual food” se instalou por estas paragens, passei aplicar a Portugal uma regra que já aplicava quando estava noutros países: evitar qualquer sítio de comezainas onde o inglês seja língua dominante (excluem-se por razões óbvias países anglo-saxónicos). Não me tenho dado mal.

  3. João Paz says:

    Excelente sátira a uma realidade cada dia mais intoxicante e provocatória para quem passa fome neste país Carla Romualdo.

  4. Mal por Mal says:

    Em vez de arroz dou 1 pacote de vinho para os pobres, aos garotos escuteiros à porta do super-mercado.

    Porra, os pobres à porta da igreja dava-se antigamente um tostão que dava para um copinho apenas.

    Aquilo é que era crise


  5. Gostei e aplaudo.
    Sugiro apenas que emende a gralha para “desfrutar” em
    “[…] incapazes de disfrutar da “experiência” e do “conceito””.

  6. celesteramos.36@gmail.com says:

    O Aventar anda de novo vivaço

  7. bacalhau com todos says:

    Qualquer dia,se tivermos dinheiro para nos sentarmos à mesa de um restaurante,teremos de indicar precisamente o que e como o queremos comer:
    Coza três batatas,sem as desfazer,oito feijões verdes,uma posta de bacalhau previamente demolhada.Se for preciso vou à cozinha ver o andamento da cozedura.Traga os tachos à mesa mais uma garrafita de azeite português,não é preciso biológico,um dente de alho,vinagre.Eu sirvo-me,obrigado.Se acha melhor da próxima vez trago feito de casa.Fique com as espumas e os éteres para si.

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