Obituário de um escritor-fantasma

Manuel da Silva Silva não precisou de perder tempo com a escolha de um pseudónimo porque nunca deixou de ser um escritor-fantasma. Passou anos aprisionado a textos sem graça – manuais, recomendações técnicas, bulas – escritos a contragosto, por necessidade, mas a sua sorte haveria de mudar quando lhe chegou a encomenda de um texto inovador, um artigo escrito de um ponto de vista inaudito, e que haveria de ser o primeiro de uma longa série. Tinha por título “Eu sou o fígado da Maria” e foi um sucesso imediato. A partir de então especializou-se em dar voz a vísceras, glândulas, válvulas, artérias, descrevendo com alucinante rigor e meticulosa fidelidade a vida oculta e esquecida de quantos órgãos constituem o corpo humano. [Read more…]

De como a gripe A não quis nada comigo, e do desassossego em que isto me deixa

Tenho passado o inverno na expectativa de que me chegue a gripe A. Não me vacinei, não tomei nenhuma medida preventiva especial, a não ser continuar a lavar as mãos quando chego da rua, se bem que isso é mais um resquício de uma fase vagamente obsessivo-compulsiva. Ora, tendo em conta que eu me constipo ou engripo 5 a 6 vezes por inverno, que, na verdade, é mais fácil assinalar os dias em que não estou constipada ou engripada, então seria certo que o insidioso H1N1 me apanharia a jeito.

E cá estou, desde ontem em casa com uma gripe, sim, mas uma gripe normalíssima (até há quem me diga que é só constipação, mas eu recuso essa hipótese), sem febre, sem dores de cabeça insuportáveis, sem prostração, sem nada que dignifique uma gripe. Bem espreito o termómetro a ver se o mostrador digital se altera, e nada. O mercúrio tinha, diga-se de passagem, um efeito muito mais dramático, vê-lo a subir era uma exaltação, uma vertigem na qual um hipocondríaco podia perder-se. Este de plástico, tão inócuo, tão infantil, retira gravidade até a uma febre de 40 graus. [Read more…]