Tenho passado o inverno na expectativa de que me chegue a gripe A. Não me vacinei, não tomei nenhuma medida preventiva especial, a não ser continuar a lavar as mãos quando chego da rua, se bem que isso é mais um resquício de uma fase vagamente obsessivo-compulsiva. Ora, tendo em conta que eu me constipo ou engripo 5 a 6 vezes por inverno, que, na verdade, é mais fácil assinalar os dias em que não estou constipada ou engripada, então seria certo que o insidioso H1N1 me apanharia a jeito.
E cá estou, desde ontem em casa com uma gripe, sim, mas uma gripe normalíssima (até há quem me diga que é só constipação, mas eu recuso essa hipótese), sem febre, sem dores de cabeça insuportáveis, sem prostração, sem nada que dignifique uma gripe. Bem espreito o termómetro a ver se o mostrador digital se altera, e nada. O mercúrio tinha, diga-se de passagem, um efeito muito mais dramático, vê-lo a subir era uma exaltação, uma vertigem na qual um hipocondríaco podia perder-se. Este de plástico, tão inócuo, tão infantil, retira gravidade até a uma febre de 40 graus. [Read more…]
Agora que por todo o lado nos incentivam a lavar as mãos com um zelo nunca antes visto, e nos explicam pacientemente, e com recurso a grafismos detalhados, que somos ignorantes no que respeita à técnica elaborada que essa lavagem exige, parece haver um abismo cada vez maior entre a preocupação daqueles que assumem de forma tão altruísta a tarefa de preocupar-se, e a populaça, que incautamente teima em continuar a ir ao cinema, à praia, a andar de autocarro e a tossir sem lavar as mãos em seguida. Avisam-nos que a pandemia vem a caminho, que em breve chegará em força a Portugal, e é de temer que, num país em que ainda se vêem tantos inspeccionar o conteúdo das narinas em público e escarrar estrepitosamente nas ruas, a coisa possa vir a assumir proporções gigantescas. E apesar de tudo, a vida continua sem sobressaltos maiores do que aqueles que provocam a ubíqua crise e a morte do Michael Jackson. Explicam-nos que as grandes empresas delinearam planos de contingência para superar as baixas quando as houver (por quarentena e não por óbito, tranquilizem-se), e que os carregamentos de tamiflu (aquele que foi produzido em grande escala para uma epidemia que não chegou a concretizar-se) haverão de chegar. E talvez alguém venha a lembrar-se de relançar no mercado essas máscaras de bico de pássaro que os venezianos celebrizaram nos tempos da peste negra, e na qual escondiam especiarias para dissipar o cheiro da morte, já que se acreditava que os vapores traziam a doença. Quando a gripe afinal chegar, e com ela se adensar a nuvem negra da crise, havemos de tomar refúgio na quarentena a que nos condenarão, quietos e silenciosos, cada um na sua toca, e limitaremos todo o contacto com o exterior ao abastecimento que faremos na farmácia e no supermercado, equipados com máscara e ansiosos por chegar a casa e lavar, com escrúpulo, as mãos que tocaram o mundo lá de fora.





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