A máquina do tempo: Civitas solis – os conceitos de utopia e distopia na literatura

A literatura de ficção científica, como a policial, é por muitos considerada um género menor. No que se refere à policial, bastavam, entre outras, as obras de Conan Doyle, Dashiel Hammett, Raymond Chandler, Agatha Christie ou, mais próximo de nós, Manuel Vázquez Montalbán, para desmentir esse preconceito absurdo. Quanto à literatura de ficção científica, autores como H.G.Wells, George Orwell, Karel Capek, Ray Bradbury e Ursula K. le Guin, entre muitas dezenas de outros, tornam disparatada essa qualificação.

Na minha opinião, não existem géneros menores. Existem, sim, escritores menores. E, menores ou maiores, é a posteridade quem os classifica. Recordemos o exemplo de Fernando Pessoa que, para o público do seu tempo, quase nem existia, ofuscado por nomes como o de Júlio Dantas. Indo mais atrás, Camões, superado em fama e em tenças por Pêro Andrade de Caminha, o chamado poeta do Minho. Hoje, Camões e Pessoa são os dois ícones maiores da literatura e da cultura portuguesas. Pêro Andrade de Caminha e Júlio Dantas, são desconhecidos do grande público – nomes e obras para o trabalho necrófago dos coca-bichinhos. [Read more…]

A Guerra das Salamandras

O injustamente esquecido Karel Capek, romancista e dramaturgo checo mais conhecido pelos seus romances de ficção científica e por ter sido o criador do termo “robot”, escreveu “A Guerra das Salamandras” em 1936. Em plena ascensão do nazismo, e no ano em que tinha início a sangrenta guerra civil de Espanha, Capek descreve-nos os acontecimentos que rodeiam a descoberta de uma nova espécie de salamandra, dotada de capacidades tão surpreendentes quanto a de aprender a falar em diversos idiomas, ou construir obras de engenharia que em muito superam aquilo de que a humanidade é capaz. O passo seguinte é explorar as suas capacidades, escravizá-las e montar um negócio mundial que rentabilize os dotes do bicho. As salamandras, pacíficas e obedientes, multiplicam-se, adquirem mais capacidades, conhecem a humanidade e, um dia, respondem a uma agressão. Começa assim uma nova etapa da história das salamandras, que trará terríveis consequências. Nas vésperas da eclosão da II Guerra Mundial, Karel Capek era o terceiro nome da lista da Gestapo na qual se enumeravam as pessoas a prender assim que Praga fosse ocupada. Capek não chegou a ver esse dia, morreu no Natal de 1938. O seu irmão, de quem era muito próximo, e que era também um dos nomes cimeiros na mesma lista, viria a morrer no campo de concentração de Bergen-Belsen, quase no final da guerra. Deliciosamente irónico, mordaz e apaixonante, A Guerra das Salamandras transfigura o negro ambiente que precedeu a eclosão da II Guerra Mundial, e a tenebrosa ascensão do nazismo, criando uma poderosa metáfora dos efeitos da desumanização. A reedição é recente e vem contribuir para dar a conhecer a novos leitores a interessantíssima literatura checa, que está longe de se cingir a Kafka.