1984

Um filme de  Michael Radford, baseado na obra de George Orwell.

Legendado em português. Ficha IMDB.

Pode obter gratuitamente o livro aqui.

1984

Adaptação da obra de George Orwell por Michael Radford. Ficha IMDB. Legendado em português.

A abertura dos jogos olímpicos é o maior espectáculo do mundo?

Desde quando? Veja como abriram os jogos olímpicos desde 1960, responda a esta pergunta e habilite-se a um prémio inteiramente grátis:

Pequim, ou Beijing como se escreve agora, 2008

Atenas 2004 (na Grécia, essa mesma)
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A máquina do tempo: Civitas solis – os conceitos de utopia e distopia na literatura

A literatura de ficção científica, como a policial, é por muitos considerada um género menor. No que se refere à policial, bastavam, entre outras, as obras de Conan Doyle, Dashiel Hammett, Raymond Chandler, Agatha Christie ou, mais próximo de nós, Manuel Vázquez Montalbán, para desmentir esse preconceito absurdo. Quanto à literatura de ficção científica, autores como H.G.Wells, George Orwell, Karel Capek, Ray Bradbury e Ursula K. le Guin, entre muitas dezenas de outros, tornam disparatada essa qualificação.

Na minha opinião, não existem géneros menores. Existem, sim, escritores menores. E, menores ou maiores, é a posteridade quem os classifica. Recordemos o exemplo de Fernando Pessoa que, para o público do seu tempo, quase nem existia, ofuscado por nomes como o de Júlio Dantas. Indo mais atrás, Camões, superado em fama e em tenças por Pêro Andrade de Caminha, o chamado poeta do Minho. Hoje, Camões e Pessoa são os dois ícones maiores da literatura e da cultura portuguesas. Pêro Andrade de Caminha e Júlio Dantas, são desconhecidos do grande público – nomes e obras para o trabalho necrófago dos coca-bichinhos. [Read more…]

A máquina do tempo: vitória do Grande Irmão e triunfo dos porcos (da distopia ficcional ao lixo televisivo)

A expressão «Grande Irmão», «Big Brother», apareceu no romance distópico de George Orwell «1984». O palavrão «distópico», significa o inverso de «utópico» (peço desculpa a quem sabia).  Publicado em 1949, aludia ao perigo de um regime totalitário ao serviço de uma oligarquia assumir o controlo de uma vasta região do planeta. George Orwell foi o pseudónimo do escritor britânico Eric Arthur Blair (1903-1950). A inspiração, tê-la-á ido buscar às ditaduras que soçobraram com a II Guerra, a alemã e a italiana, e a outra que lhe sobreviveu – a estalinista. Orwell não era um homem de direita. Ligado ao POUM – Partido Obrero de Unificación Marxista, movimento trotskista – combateu em Espanha, em Huesca, na Frente de Aragão, contra as tropas fascistas de Franco e foi ferido. Baseado nessa experiência, escreveu «Homenagem à Catalunha» («Homage to Catalonia», 1938).

 

Além destes dois livros, Orwell escreveu outros, nomeadamente «Animal Farm» (1945), uma clara sátira ao estalinismo que na edição portuguesa recebeu o título de «O Triunfo dos Porcos». É deste livro a célebre frase «todos os animais são iguais; mas alguns são mais iguais do que outros».

 

 

 

 

«Nineteen Eighty-Four» relata a história de Wiston Smith, que, aliás, é o narrador, cidadão anónimo de um estado totalitário, onde se pratica a repressão a todos os níveis. Smith trabalha na propaganda do estado, na falsificação dos documentos históricos – incluindo os jornais – à medida das conveniências, a história é diariamente emendada – tudo o que no passado contraria o presente, é refeito. Pessoas que caem em desgraça são suprimidas da história, para os «heróis» da altura, criam-se currículos gloriosos, fotografias são manipuladas – só existe uma verdade, a verdade do «Grande Irmão».

 

Como os jornais e os livros só podem ser consultados na teletela (monitores de função dupla que mostram e captam imagens), os cidadãos sabem que a «verdade» é o que, no momento, a teletela lhes afirmar. Ao mesmo tempo, as teletelas que existem por todo o lado, no trabalho, nas ruas, nas casas, vigiam todos os gestos dos cidadãos.

 

O «Grande Irmão», rosto fictício do regime oligárquico, aparece frequentemente a dar as suas directivas: «guerra é paz», «ignorância é força», «liberdade é escravidão», são algumas dessas consignas. Ao denunciar o perigo dos totalitarismos, o livro é também uma história de amor. De luta do amor contra a tirania, no espírito de poemas que aqui já recordei – «Notícias do bloqueio», de Egito Gonçalves, e «A Invenção do amor», de Daniel Filipe.

 

Socialista democrático, Orwell esclareceu que o romance não foi, como se disse na Inglaterra daqueles anos do pós-guerra) concebido como um ataque ao socialismo ou ao Partido Trabalhista, mas sim como uma denúncia das perversões dos ideais colectivistas, das políticas de massas, como o fascismo e o estalinismo. Significativamente, o livro foi proibido na União Soviética e nos outros estados de Leste.

 

Como é que um livro tão belo e de uma concepção tão elevada aparece ligado a um programa de televisão de nível tão rasteiro, a um reality show tão grosseiro como o «Big Brother»? O holandês John de Moll, pegando na expressão e na ideia básica de um olho omnipresente que tudo vigia e controla, concebeu o programa. Midas tudo o que tocava se convertia em ouro. O capitalismo, tudo o que toca, transforma-se em excremento. O negócio não respeita nada a não ser a percentagem de lucro que vai obter.

 

Já aqui tenho falado da profecia de Marlon Brando que, numa das suas últimas entrevistas, falando dos reality shows, dizia que não faltava muito para que as pessoas viessem defecar diante das câmaras para incrementar as audiências. E, já agora deitemos uma olhadela à «casa» do «Grande Fratello». Um concorrente ameaça cumprir a profecia de Marlon Brando, defecando à vista das câmaras, é eloquente quanto ao elevado nível cultural do programa. Reparem no vídeo sobre o «Grande Fratello» italiano:

 

 

 

 

«Mauro agride Verónica» (…) «Noite de violência no Grande Fratello. E, seguramente, uma expulsão em perspectiva» (…) «Esta noite na Casa verificaram-se episódios totalmente incorrectos e contrários às normas, não só do Grande Fratello, como também da convivência social». São notícias de jornais italianos da semana passada. Lembram-se da agressão do Marco à Sónia? Não que eu tenha a mania das teorias da conspiração, mas não é curioso que em Itália, anos depois se passe exactamente o mesmo que em Portugal? No «Gran Hermano», aqui ao lado, também houve bronca a semana passada. Vejamos o vídeo do «Gran Hermano» da Telecinco espanhola:

 

Dizem os jornais: «Expulsa outra concorrente do «Gran Hermano» após uma zaragata com uma companheira: Indhira não controlou os seus impulsos e agrediu e insultou Carol».(…)«Pela segunda vez esta edição, um concorrente de «Gran Hermano» foi expulso de modo disciplinar após forte zaragata com um dos seus companheiros. Neste caso, foi a malaguenha Indhira que não pôde controlar os seus impulsos durante uma discussão com Carol, acabou por a agredir e insultar».

 

Anuncia-se uma nova série do «Big Brother» em Portugal. O modelo parecia esgotado, mas os crânios da TVI vão tentar insuflar-lhe nova vida. Porque, mundo fora, a droga holandesa da Endemol, vai vingando. Para os que acham que somos particularmente estúpidos e se autoflagelam com acusações aos portugueses, deixo mais um exemplo. Espreitemos o «Big Brother brasile
ir
o. O nível cultural dos participantes não fica nada a dever ao dos programas europeus. 

 

E, já agora, recordemos este momento de ouro da televisão nacional – o pontapé de Marco a Sónia:

 

Há aqui um padrão que se repete. Será que, pessoas de nível cultural básico, tal como os ratos de laboratório, quando enjauladas começam a ter um comportamento agressivo? Ou será que faz parte do guião do programa apimentá-lo com estas cenas deploráveis que, nesse caso, seriam preparadas? Seja como for, no meio de tanta porcaria, esse pormenor desonesto seria irrelevante. A questão que levanto é: por que razão gostam as pessoas de ver estas coisas?

 

Em 1984, o mundo não estava dominado por uma oligarquia como a que George Orwell previa na sua distopia ficcional. Porém 25 anos depois de 1984, temos uma oligarquia que se permite difundir à escala global uma cultura de destruição da cultura, de abolição do respeito que as pessoas a si próprias devem. Porque, derrubadas essas defesas, as pessoas ficam à mercê das diferentes formas de marketing que constituem uma arma mais poderosa do que cem bombas nucleares.

 

Mussolini, Hitler, Estaline, Franco. Salazar, Pinochet, não compreenderam a natureza humana. Acreditando na sua decência, criaram, para destruir pelo terror uma decência que podia ter sido aniquilada de forma menos traumática. Para quê aqueles horríveis aparelhos repressivos com tão mau aspecto – cárceres, torturas, campos de concentração…

 

Para quê um regime fascista, se cada ser humano, devidamente estimulado, destrói voluntariamente as defesas imunitárias do decoro e do auto-respeito? Se por dinheiro, tudo se faz? Para quê tropas na rua, polícias espiando, se a maioria das pessoas está disposta a destruir os princípios básicos da cidadania e a descer ao grau mais básico da escala comportamental. A troco de uns euros ou de uns dólares, séculos de civilização desaparecem. Sem violência visível, sem gastar dinheiro num aparelho policial e repressivo, o Grande Irmão triunfou.

 

É também o triunfo dos porcos.

 

Kindle surpresa (eu sei, eu e os trocadilhos não… pois)

Não sou um velho do Restelo, acreditem. Até estava disposta a experimentar o famoso Kindle (o novo leitor de livros electrónicos). Não abdicaria por inteiro do livro em papel, não chega a tanto a minha abertura de espírito, mas estava disposta a dar uma oportunidade a este novo mundo do livro electrónico. O nosso aventor Carlos Loures já havia feito uma lúcida análise deste tema no seu texto “No aniversário de Ray Bradbury – livro vs NTI” e eu, com todo o carinho que tenho pelo velho Ray, ia fazer ouvidos moucos das suas advertências. Mas eis que me chegou aos ouvidos que a Amazon, justificando-se com um problema de direitos de autor, apagou dos aparelhos Kindle os exemplares de “1984” e “Animal Farm”, de George Orwell, que haviam sido comprados e descarregados por vários dos seus clientes para o respectivo aparelhito. (notícia da AP disponível aqui.) A empresa oferece-se agora para reembolsar os lesados ou devolver-lhes os livros que haviam sido apagados, mas a sombra negra que este acto gerou é que já dificilmente se dissipa. A Amazon pode apagar um livro do Kindle depois deste ter sido comprado e transferido para o leitor?

Isto significa que pode aceder ao aparelho e saber quais os livros que compramos, que leituras preferimos, e até consultar as notas que tomamos, os sublinhados que fazemos, o que destacamos de cada página que lemos? Pode armazenar dados sobre as nossas preferências? Pode apagar, quando assim o decidir, aquilo que considera que não devemos ler? Pode enviar-nos os livros que entende que devemos ler, introduzindo-os no aparelho sub-repticiamente? Haverá um olho perpetuamente vigilante do outro lado do aparelho, a acompanhar a nossa leitura, a tomar nota dos bocejos ou dos sorrisos cúmplices que cada página nos desperte, a avaliar e a medir o tédio com que encerramos o ficheiro de um livro ou o entusiasmo com que sublinhamos passagens? Não, fiquem lá eles com o Kindle, que eu vou fazer caso ao velho Orwell.