A Guerra das Salamandras

O injustamente esquecido Karel Capek, romancista e dramaturgo checo mais conhecido pelos seus romances de ficção científica e por ter sido o criador do termo “robot”, escreveu “A Guerra das Salamandras” em 1936. Em plena ascensão do nazismo, e no ano em que tinha início a sangrenta guerra civil de Espanha, Capek descreve-nos os acontecimentos que rodeiam a descoberta de uma nova espécie de salamandra, dotada de capacidades tão surpreendentes quanto a de aprender a falar em diversos idiomas, ou construir obras de engenharia que em muito superam aquilo de que a humanidade é capaz. O passo seguinte é explorar as suas capacidades, escravizá-las e montar um negócio mundial que rentabilize os dotes do bicho. As salamandras, pacíficas e obedientes, multiplicam-se, adquirem mais capacidades, conhecem a humanidade e, um dia, respondem a uma agressão. Começa assim uma nova etapa da história das salamandras, que trará terríveis consequências. Nas vésperas da eclosão da II Guerra Mundial, Karel Capek era o terceiro nome da lista da Gestapo na qual se enumeravam as pessoas a prender assim que Praga fosse ocupada. Capek não chegou a ver esse dia, morreu no Natal de 1938. O seu irmão, de quem era muito próximo, e que era também um dos nomes cimeiros na mesma lista, viria a morrer no campo de concentração de Bergen-Belsen, quase no final da guerra. Deliciosamente irónico, mordaz e apaixonante, A Guerra das Salamandras transfigura o negro ambiente que precedeu a eclosão da II Guerra Mundial, e a tenebrosa ascensão do nazismo, criando uma poderosa metáfora dos efeitos da desumanização. A reedição é recente e vem contribuir para dar a conhecer a novos leitores a interessantíssima literatura checa, que está longe de se cingir a Kafka.

Comments


  1. Tal como em 1936, as salamandras andam por aí – agora converteram-se à «democracia». »A Guerra das Salamandras», de Karel Capek, podia ter sido escrito agora. Transcende o âmbito da literatura de ficção científica – é uma das mais belas metáforas da literatura contemporânea. Parabéns Carla. por se ter lembrado. Um grande abraço.


  2. Só mais uma coisa. A quem, seguindo a sugestão da Carla, quiser comprar o livro, recomendo, de preferência à edição da Europa-América que a imagem mostra, a da Caminho. È uma tradução (creio que do Mário Sousa) mais fiável. Boa leitura!

  3. maria monteiro says:

    Sim CLoures é uma tradução de Mário de Sousa.

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