Todos os rios foram dar ao Carmo

*Afonso Brandão

Acabei de chegar do Largo do Carmo.

Tenho 16 anos.

Esperava ter visto um largo em luta, mas vi um largo em festa, com milhares de pessoas e não consigo entender.

Do 25 de Abril – uma época que adorava ter vivido – não posso esquecer que nos trouxe várias coisas de importância extrema como o Salário Mínimo Nacional, o Serviço Nacional de Saúde, a Liberdade de Expressão, o fim da Censura, o fim da Guerra Colonial, o fim das Prisões Políticas, um Poder Local Democrático, mais Direitos das Mulheres.

E numa altura em que todas estas conquistas estão a ser “assassinadas”: com um SNS que não serve a nossa saúde, onde os nossos avós vivem com pensões de fazer corar de vergonha quem lutou para nos dar a liberdade, com um ordenado mínimo que não permite pagar uma casa e meter comida na mesa, todos os dias, pergunto-me: que razões há para fazer a festa?

Para lutar, sim, temos todas as razões. A indignação não a vi lá. E não entendi! Tal como não entendi porque estavam lá tão poucos jovens. Mas entendi e curvo-me de respeito por todos os de “idade maior” que lá vi. A luta e a indignação, espero ver amanhã quando for descer a Avenida da Liberdade!

25 DE ABRIL, SEMPRE!

No Largo do Carmo – Largo Salgueiro Maia

Para o Quartel do Carmo está lá o Marcelo! Era a palavra de ordem na Baixa de Lisboa. A multidão, a maioria gente jovem, subia o Chiado em direcção ao Largo.

 

Quando lá cheguei o Quartel já estava cercado pelas forças do 25 de Abril. O que chamava de imediato a atenção era a idade imberbe dos soldados, G3 a tiracolo. Foi para mim um choque, tinha saído da vida militar há 3 anos ainda me lembrava das técnicas de segurança para quem usa uma arma de guerra. Não passavam por ali.

 

Procurei o comandante, estava no centro de um espaço livre junto à  porta do quartel .Impressionava a serenidade, a ideia que passava é que a missão era para cumprir . A serenidade de quem estava preparado para morrer. Em cima de um chaimite, o Dr. Francisco Sousa Tavares gritava palavras de ordem, "belo alvo" pensei para comigo.

 

Depois o ultimato, as rajadas de G3 contra a parede do quartel, a entrada de dois civis, que ninguem sabia quem eram e que depois se soube serem os intermediários. A entrada do carro que transportava Spínola, o chaimite que foi lá dentro buscar os presos, a gritaria, os murros no carro que transportava Marcelo.

 

Na Baixa ainda havia movimentações de tropas da GNR, cozidas às paredes da estação do Rossio. A fragata que ameaçara bombardear o Terreiro do Paço, face à cobertura do fogo de artilharia instalado no Cristo Rei, já abandonara o Tejo.

 

Salgueiro Maia, dever cumprido, recolhia ao quartel em Santarém à sua vida profissional e familiar. Morreu como viveu. Digno e sereno!

Largo do Carmo

Nasci em 1976. O que sei sobre o 25 de Abril não o aprendi na escola porque, como aconteceu a muitos da minha geração, o ano lectivo esgotava-se antes que pudéssemos alcançar as últimas páginas dos manuais de História. Por isso crescemos a saber muito mais sobre a crise de 1383-85 do que acerca dos capitães de Abril.

O 25 de Abril era sobretudo o que se intuía da tremura emocionada na voz dos nossos pais quando o evocavam, das imagens que a cada aniversário as televisões repetiam, essas imagens a cada ano mais longínquas das chaimites nas ruas de Lisboa, da euforia, de uma emoção que parecia irrepetível. Era a mais maravilhosa das festas mas não era nossa.

A nós tocara-nos outra época, com as promessas de quem nasceu numa democracia, ainda que apenas formal, entre a esperança utópica e o desencanto cínico, num equilíbrio a cada dia mais difícil. Aconteceu-me, porém, há uns anos, uma noite de 24 para 25 na qual se fundiram estranhamente o passeio turístico e a revelação mística, frente ao quartel do Carmo. Havia por ali uns poucos grupos de jovens sentados no chão, nas soleiras das portas, à conversa. Um disparo de foguetes, uma súbita salva de palmas avisaram-nos que era já meia noite. Vozes longínquas começaram a cantar a Grândola. De onde vinham? Alucinávamos, talvez…

O largo fez-se enorme, o coração disparou como se algo estivesse prestes a acontecer, uma multidão fosse irromper de novo. Mas apenas a canção foi morrendo ao longe e os foguetes silenciaram-se. E foi então que o vivi. Na fantasmagoria desse largo agora deserto, na companhia de outros como eu, nostálgicos daquilo que não viveram, sedentos dessa emoção partilhada, foi então que eu o vivi.

Foi só um instante, esse em que um vento cálido varreu o largo e nele se sentiu a vibração de um momento histórico que não tinha sido nosso, mas no qual nos gestáramos. Foi só um instante mas eu senti-o. Emoção, razão e acção em harmonia, no acto mais unitivo da nossa história, que passara a ser meu, também.