Disneyland Quartel do Carmo

PedroGuimaraes_varias_2793© Pedro Guimarães, 2017.

25 de Abril – o dia que vale uma vida!

Andava o cheiro no ar, as coisas iam mudar, dava-se a entender que se sabia mais do que na realidade se sabia, todos tinhamos contactos, amigos em posições privilegiadas, o tempo adensava-se. Naquela madrugada, mesmo ouvir canções que sabíamos proíbidas e que nunca se ouviam na rádio, não tirou a maioria da rotina. O grande medo era se Kaulza e outros anti-democratas se antecipavam e levavam a efeito um golpe de extrema direita.

Acordei com o telefone, mais estridente que o habitual, do lado de lá um amigo avisava-me que era preciso ir para a rua, o gajo era dos que estava “por dentro” e eu a julgar que era mais uma bravata, pois que escutasse a rádio, ele estaria no Martim Moniz. E a rádio dava música militar, mas conversa e notícias népias, nada, até que chegou a voz firme do locutor. “Cidadãos fiquem em casa, o MFA está na rua, quer evitar-se a todo o custo um banho de sangue. Pede-se a todo o pessoal médico que se dirija para os hospitais. É a hora da liberdade!”

O que se seguiu já contei em ” O Largo do Carmo“, vou uma e outra vez áquele lindo largo, hoje cheio de esplanadas, o sítio onde me encostei com duas hipóteses de fuga, se aquilo desse para o torto, os jovens militares de G3, o jovem e sereno Capitão, o Dr. Sousa Tavares em cima do Chaimite com um megafone, os tiros, a rendição…

Noites e dias sem dormir, uma torrente de sentimentos e de experiências, a vida palpitante como um filme em que participavamos, sem guião, e onde todas as esperanças eram possíveis.

Obrigado, Capitães de Abril !

Largo do Carmo

Nasci em 1976. O que sei sobre o 25 de Abril não o aprendi na escola porque, como aconteceu a muitos da minha geração, o ano lectivo esgotava-se antes que pudéssemos alcançar as últimas páginas dos manuais de História. Por isso crescemos a saber muito mais sobre a crise de 1383-85 do que acerca dos capitães de Abril.

O 25 de Abril era sobretudo o que se intuía da tremura emocionada na voz dos nossos pais quando o evocavam, das imagens que a cada aniversário as televisões repetiam, essas imagens a cada ano mais longínquas das chaimites nas ruas de Lisboa, da euforia, de uma emoção que parecia irrepetível. Era a mais maravilhosa das festas mas não era nossa.

A nós tocara-nos outra época, com as promessas de quem nasceu numa democracia, ainda que apenas formal, entre a esperança utópica e o desencanto cínico, num equilíbrio a cada dia mais difícil. Aconteceu-me, porém, há uns anos, uma noite de 24 para 25 na qual se fundiram estranhamente o passeio turístico e a revelação mística, frente ao quartel do Carmo. Havia por ali uns poucos grupos de jovens sentados no chão, nas soleiras das portas, à conversa. Um disparo de foguetes, uma súbita salva de palmas avisaram-nos que era já meia noite. Vozes longínquas começaram a cantar a Grândola. De onde vinham? Alucinávamos, talvez…

O largo fez-se enorme, o coração disparou como se algo estivesse prestes a acontecer, uma multidão fosse irromper de novo. Mas apenas a canção foi morrendo ao longe e os foguetes silenciaram-se. E foi então que o vivi. Na fantasmagoria desse largo agora deserto, na companhia de outros como eu, nostálgicos daquilo que não viveram, sedentos dessa emoção partilhada, foi então que eu o vivi.

Foi só um instante, esse em que um vento cálido varreu o largo e nele se sentiu a vibração de um momento histórico que não tinha sido nosso, mas no qual nos gestáramos. Foi só um instante mas eu senti-o. Emoção, razão e acção em harmonia, no acto mais unitivo da nossa história, que passara a ser meu, também.