Largo do Carmo

Nasci em 1976. O que sei sobre o 25 de Abril não o aprendi na escola porque, como aconteceu a muitos da minha geração, o ano lectivo esgotava-se antes que pudéssemos alcançar as últimas páginas dos manuais de História. Por isso crescemos a saber muito mais sobre a crise de 1383-85 do que acerca dos capitães de Abril.

O 25 de Abril era sobretudo o que se intuía da tremura emocionada na voz dos nossos pais quando o evocavam, das imagens que a cada aniversário as televisões repetiam, essas imagens a cada ano mais longínquas das chaimites nas ruas de Lisboa, da euforia, de uma emoção que parecia irrepetível. Era a mais maravilhosa das festas mas não era nossa.

A nós tocara-nos outra época, com as promessas de quem nasceu numa democracia, ainda que apenas formal, entre a esperança utópica e o desencanto cínico, num equilíbrio a cada dia mais difícil. Aconteceu-me, porém, há uns anos, uma noite de 24 para 25 na qual se fundiram estranhamente o passeio turístico e a revelação mística, frente ao quartel do Carmo. Havia por ali uns poucos grupos de jovens sentados no chão, nas soleiras das portas, à conversa. Um disparo de foguetes, uma súbita salva de palmas avisaram-nos que era já meia noite. Vozes longínquas começaram a cantar a Grândola. De onde vinham? Alucinávamos, talvez…

O largo fez-se enorme, o coração disparou como se algo estivesse prestes a acontecer, uma multidão fosse irromper de novo. Mas apenas a canção foi morrendo ao longe e os foguetes silenciaram-se. E foi então que o vivi. Na fantasmagoria desse largo agora deserto, na companhia de outros como eu, nostálgicos daquilo que não viveram, sedentos dessa emoção partilhada, foi então que eu o vivi.

Foi só um instante, esse em que um vento cálido varreu o largo e nele se sentiu a vibração de um momento histórico que não tinha sido nosso, mas no qual nos gestáramos. Foi só um instante mas eu senti-o. Emoção, razão e acção em harmonia, no acto mais unitivo da nossa história, que passara a ser meu, também.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Carla, eu estive todo aquele dia no Largo do Carmo.Lembro-me das caras imberbes dos soldados que tinham sido tirados da instrução dos quartéis para irem brincar às guerras ( era isso o que acontecia quando se ía para a guerra colonial).Da maneira desajeitada como agarravam as G3 ( eu ainda me lembrava como se fazia).Da calma serena de quem tinha decidido morrer, como se percebia em Salgueiro Maia. Ouvi os tiros, vi a multidão e íntui o banho de sangue que podia acontecer a qualquer momento. É belo aquele largo.Sempre foi.Vou lá muitas vezes e encosto-me à parede onde estive todo o dia.Conheço-o e amo-o.Mas ainda não o tinha visto como você o descreve. Obrigado! Tudo valeu a pena!

  2. Carla Romualdo says:

    Muito obrigada, Luís, por este belo testemunho.

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