S. Martinho tomado de repulsa e pena

Na Lenda do S. Martinho, versão MRP, o pobrezinho não só não leva nem um terço da capa, como ainda tem de ouvir o S. Martinho a gritar-lhe, do alto do seu puro-sangue de Alter do Chão:

– Ouça lá, levante-se já daí e pare imediatamente com essa falta de civismo. Não vê que tá a irromper e a perturbar o trabalho das pessoas que tão a tentar governar o país?!

E em sinal de aprovação divina, no céu irromperia um magnífico sol de Outono, ideal para um fim de tarde com um cocktail na esplanada do BBC, sei lá.

Aqui jaz um homem mau

Aqui jaz um homem mau, há perto de cem anos parido de um resquício de mãe.

O homem mau morreu.

Não berrou nem tossiu, e cinquenta anos depois mijou e respirou.

Vomitou a mãe dez meses de gravidez de toda a gente indecente.

As pontas do corpo mirraram na avalanche de tripas inchadas.

O homem mau morreu.

Fez do ferrado retenção, dizem, para ter o gosto de borrifar as ventas do irmão.

Os olhos escorreram pus que os gatos lamberam e as moscas sugaram quando nasceu.

O homem mau morreu.

Expulso às avessas, o feto imundo deste caixão de há cem anos saiu enforcado no cordão, borrado e roxo, roxo e borrado até mais não.

O homem mau morreu.

O sangue da mãe correu, correu e o leite secou.

Aqui jaz um homem mau, alguém o conheceu?

Dizem vozes, reza a lenda, que a cor que o desfeou e a morte que o matou foi a ideia de ser quem era, e não o que os outros queriam.