Vê lá no que te metes, ó Academia!

Fernando Venâncio*

15181454_1110833538965737_7678927185731268401_nA Academia das Ciências de Lisboa (ACL) quer dar um arranjo no «Acordo Ortográfico de 1990». A ideia data, pelo menos, dum artigo que Ana Salgado publicou na Revista LER, há-de haver uns cinco anos. Apreciei, na altura, o destemor de alguém que trabalhava, note-se, na acordadíssima Porto Editora.

Hoje, Ana Salgado dá a cara pela ACL e, com o explícito apoio do presidente da douta instituição, Artur Anselmo, prepara-se para oficializar o aludido arranjo.

«Quanto às consoantes que não se pronunciam a ACL vai defender que elas só caiam nos casos em que há uma grafia única em Portugal e no Brasil (como na palavra ‘ação’). No entanto, em casos como a palavra ‘recepção’ “a nossa leitura” (da ACL) é que a escrita com o ‘p’ é “legítima no espaço lusófono”. Na palavra ‘óptica’, a ACL defende também o uso do ‘p’». [Read more…]

Léxico nacional: o contributo de Cavaco Silva

Alfeite

© Presidência da República Portuguesa (http://bit.ly/1aTzECa)

Fui eu que coloquei no léxico nacional o ‘pós-troika’. Foi no discurso que fiz no 25 de Abril deste ano.

— Aníbal António Cavaco Silva, Base Naval de Lisboa, Alfeite, 29 de Outubro de 2013

Efectivamente, confirma-se a ocorrência de ‘pós-troika’ no discurso proferido durante a 39.ª Sessão Comemorativa do 25 de Abril — em determinados círculos, este discurso é conhecido como o discurso de Fação:

A Assembleia da República, através da respectiva comissão parlamentar, pode contribuir para consciencializar os Portugueses para as exigências com que Portugal será confrontado no período pós-troika.

Não se compreende o motivo de, na transcrição, surgir *respetiva. Cavaco Silva não pronunciou [ʀɨʃpɨˈtivɐ]. Cavaco Silva pronunciou [ʀɨʃpɛˈtivɐ]. Logo, ‘respectiva’. Sim, <ec> existe e, ao contrário do Acordo Ortográfico de 1990, não é para servir de enfeite. Aliás, como sabemos, aquele ‘c’ encontrava-se no texto original, pois – como é sabido – Cavaco Silva não se mete nessas aventuras.