Vê lá no que te metes, ó Academia!


Fernando Venâncio*

15181454_1110833538965737_7678927185731268401_nA Academia das Ciências de Lisboa (ACL) quer dar um arranjo no «Acordo Ortográfico de 1990». A ideia data, pelo menos, dum artigo que Ana Salgado publicou na Revista LER, há-de haver uns cinco anos. Apreciei, na altura, o destemor de alguém que trabalhava, note-se, na acordadíssima Porto Editora.

Hoje, Ana Salgado dá a cara pela ACL e, com o explícito apoio do presidente da douta instituição, Artur Anselmo, prepara-se para oficializar o aludido arranjo.

«Quanto às consoantes que não se pronunciam a ACL vai defender que elas só caiam nos casos em que há uma grafia única em Portugal e no Brasil (como na palavra ‘ação’). No entanto, em casos como a palavra ‘recepção’ “a nossa leitura” (da ACL) é que a escrita com o ‘p’ é “legítima no espaço lusófono”. Na palavra ‘óptica’, a ACL defende também o uso do ‘p’».

O princípio até não é mau, digo eu, que sou um anti-acordista compreensivo. Mas a sua aplicação seria um novo desastre. E por duas razões.

Em primeiro lugar, iria exigir-se do utente português que conhecesse a grafia brasileira. Ora, construir uma ortografia na dependência de outra é, sejamos sucintos, uma exorbitância.

Em segundo lugar, a própria ortografia brasileira é, neste exacto domínio, duma imensa ambivalência: numerosas consoantes etimológicas são, ou não, articuladas, o que, em termos brasileiros, significa que são, ou não, escritas. Dou exemplos:

apodítico === apodíctico
aspeto === aspecto
cato === cacto
cético === céptico
ceticismo === cepticismo
coartar === coarctar
coletivo === colectivo
conjeturar === conjecturar
corrutela === corruptela
corrutor === corruptor
detetar === detectar
detetável === detectável
dialeto === dialecto
elítico === elíptico
estupefato === estupefacto
fação === facção
fatual === factual
fletir === flectir
fraturar === fracturar
infecioso === infeccioso
infetar === infectar
infeto === infecto
inseto === insecto
interseção === intersecção
jatância === jactância
jato === jacto
láteo === lácteo
lecionar === leccionar
letivo === lectivo
manufaturar === manufacturar
onipotente === omnipotente
onipresente === omnipresente
onisciente === omnisciente
otimismo === optimismo
otimizar === optimizar
perspetiva === perspectiva
putrefato === putrefacto
respetivo === respectivo
retrospetiva === retrospectiva
seção === secção
secional === seccional
sintático === sintáctico
suntuoso === sumptuoso
etc. etc.
.

Querida Academia: a emenda promete ser ainda pior que o soneto. E o próprio soneto, tu sabe-lo, já manqueja por todos os lados. Vê lá, portanto, no que te metes.

*Linguista, crítico literário e escritor

 

 

 

 

 

 

Comments

  1. Manuel Silva says:

    Este verdadeiro (Des)Acordo Ortográfico (ou será Ortopédico, como diz o boneco do Jorge Jesus no Portugalex) promete ser trinta mil vezes mais difícil de resolver do que o Cubo Rubik.
    Os verdadeiramente desastrosos resultados só surgirão na plenitude dentro de mais uns anitos.
    Mas pela amostra, há todos os dias calinadas de arrepiar no Português em nome do Desacordo, irá ter um futuro promissor, recauchutado ou não.

  2. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Por algum lado se há-de começar. Talvez quando começarem a chafurdar no charco de águas poluídas que é o AO percebam que o melhor é chamar os serviços sanitários e esvaziar o mesmo de uma vez por todas.

  3. eu, que de letras nada percebo, fico com a ideia de que antes do AO tínhamos uma língua com regras definidas. E este AO, veio criar a duvida, o erro, o assim também pode, o caos. Estarei a ver mal ?

  4. ZE LOPES says:

    Como forma de pressão sobre a Academia, já se perfilam vários grupos de interesse, dos quais se destacam a “Sociedade Para a Restauração do Acento em Para”, a “União Unida em Defesa dos Hifenes” ou o “Movimenrto de Defesa das Maiúsculas”. Por minha vez acabo de aderir ao “Manifesto pelas Consoantes Mudas”, que vai dar muito que falar. Até porque defendemos não a simples reposição das consoantes mudas nas palavras que as perderam, mas mesmo o seu alargamento. Por exemplo, defendemos que se deve escrever actum, ractoeira, inflacção, maríctimo e Maríctimo, Sporcting e Porcto (desde que seja permitido pela Federacção, como é óbvio). As nossas ortografidéias já estão a obcter enctusiásctico apoio em múlctiplos sectores da nossa socciedade.

    E até já temos pactrocinador: a empresa de pacpéis “Navigactor”, consciencte do benefíccio que a generalização das consoanctes mudas traria para a indusctria papeleira naccional. Estou certo que em breve será seguida pelas empresas de tincteiros “HcP” e ouctras).

    • Paulo Só says:

      É temcpo de dizer a esse Sr Anselmo: para de nos chatear, e escolhe melhor os correspondentes brasileiros da Academia, que a maioria dos que tens aí são uma vergonha, a começar por esse último Merval, que é apenas um lacaio dos golpistas da Globo.

      • ZE LOPES says:

        Diz bem! É tempco de dizer a esse Sr. Anselmo: para de nos chactear e despede esse Merval! Esteja descansado: nunca, mas nunca nunca,serão admictidos nas reuniões do nosso “Manifescto pelas Consoanctes Mudas”!

        Os nossos cumprimenctos

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