Ser e fazer tudo aquilo que eles detestam

an die freude

Quando eu soube a notícia dos atentados estava a ir buscar o meu irmão a um concerto no Campo Pequeno. A primeira coisa que, naturalmente, me atravessou o espirito foi “e se fosse ele? E se fosse eu?”

Depois achei que seria uma boa ideia tentar ver e ouvir testemunhos dos ataques, das pessoas que sobreviveram. Pensei eu, numa vã e absurda tentativa, que ao ver aquilo eu poderia estar preparada caso me acontecesse. Podia pensar, ora se algum dia estiver num concerto e um sacana qualquer abrir fogo eu posso fazer isto ou aquilo. Esconder-me, baixar-me, fingir que estou morta. Rapidamente percebi que estava só a tentar enganar-me e acalmar-me. Não valia a pena estar a ver aquelas imagens que me deixaram ainda pior do que estava. Não há forma absolutamente nenhuma de controlar. Há sorte. A sorte a que uns podem chamar Deus, a sorte que eu chamo o acaso. O acaso de alguém se sentar dentro ou fora de um restaurante, de estar mais perto da porta numa sala de espectáculos ou mais longe, a sorte de ter decidido não ir a um determinado sitio numa determinada noite, a sorte de ter apanhado trânsito ou perdido o autocarro. A sorte que é lei neste mundo feito de probabilidades.

Durante todo o Sábado não consegui rir-me. Eu rio-me muito e choro muito pouco. Às tantas dei por mim, estupidamente e incompreensivelmente, a chorar. Não com imagens de pessoas mortas mas com uma descrição de pessoas a ajudarem-se umas às outras: os taxistas que não cobraram para levar as pessoas para casa, as pessoas que gritavam os números das portas dos prédios para os que fugiam se puderem refugiar. Porque no meio de toda a desumanidade e crueldade o que é revolucionário é a bondade das pessoas. E só me ri no Domingo, de repente, quando um rapaz diz que a razão pela qual ele e a namorada se salvaram é porque tinham discutido e abandonado a esplanada mais cedo.

[Read more…]

O que responder?

voltaire statue

Voltaire, Dicionário Filosófico, excertos do artigo “Fanatismo”:

Resumindo, todos os horrores de quinze séculos podem ser renovados num só, desde as pessoas sem defesa chacinadas aos pés dos altares, dos reis esfaqueados ou envenenados, um vasto Estado reduzido a metade pelos seus próprios cidadãos, desde a nação mais belicosa até à mais pacífica dividida pela espada desembainhada entre o pai e o filho, os usurpadores, os tiranos, os executores, os parricidas e os sacrilégios violando todas as convenções divinas e humanas pelo espírito da religião: cá está a história do fanatismo e dos feitos.

Não há outro remédio a esta maldita epidemia que o espírito filosófico, que espalha, passo a passo, os costumes dos homens e que impede os acessos do mal. As leis e a religião não chegam para lutar contra a peste das almas. A religião, longe de ser um alimento salutar, torna-se um veneno nos cérebros infectados. Os miseráveis inspiram-se sem cessar no exemplo de Aod que assassinou o rei Églon; de Judith que cortou a cabeça de Holopherne enquanto dormia com ele; de Samuel que desfez o Rei Agag; do padre Joad que assassinou a sua rainha etc. etc. Eles não percebem que estes exemplos, que são respeitáveis na Antiguidade, são abomináveis no tempo presente: eles põem a sua loucura na própria religião que os condena.

O que podemos responder a um homem que te diz que prefere obedecer a Deus que aos homens e que em consequência disso ele está certo de merecer o céu por te matar?

Os líderes dos fanáticos, que colocam os punhais nas suas mãos, são uns velhacos maliciosos. Eles assemelham-se ao Velho da montanha que, diz-se, deu às pessoas fracas uma pequena amostra do paraíso, prometendo-lhes uma eternidade de tais prazeres, desde que eles matassem todos aqueles que ele lhes ordenasse. Em todo o mundo só uma religião não foi conspurcada pelo fanatismo, a dos literatos chineses. Quanto aos filósofos, em vez de serem infectados por essa pestilência, eles foram um remédio contra ela pois o efeito da filosofia é compor a alma e o fanatismo é incompatível com a tranquilidade. Relativamente à nossa santa religião ter sido tão corrompida por estes infernais impulsos, é a loucura dos homens que se deve culpar.

Memória descritiva: um pormenor insignificante

Já aqui contei há meses a história de uma tele-confusão – convidou-me a RTP para ir falar sobre o local de nascimento do D. Afonso Henriques e, quando a entrevista, em directo, começou, fizeram-me perguntas sobre as origens do fado. Tenho uma história do género, mas passada num jornal diário em que colaborei.

Era o «Página Um», um diário ligado à esquerda extra-parlamentar. Depois de acabado o meu trabalho na empresa, ia para a redacção, na Rua Braamcamp, e encarregava-me da crítica de livros, de temas culturais e de um ou outro fait-divers. Com o Fausto, esse mesmo, o Fausto Bordalo Dias, o excelente cantautor, ocupava um pequeno gabinete. Ele fazia crítica de discos e espectáculos musicais. A política corrente é que estava a dar, por isso éramos uma espécie de párias, defensores de causas perdidas. Não nos ligavam nenhuma. Uma tarde, vinda de uma agência, chegou-me uma fotografia de um miliciano maronita sentado num degrau de uma casa destruída, descansando da fatigante tarefa de assassinar muçulmanos. [Read more…]