Memória descritiva: um pormenor insignificante

Já aqui contei há meses a história de uma tele-confusão – convidou-me a RTP para ir falar sobre o local de nascimento do D. Afonso Henriques e, quando a entrevista, em directo, começou, fizeram-me perguntas sobre as origens do fado. Tenho uma história do género, mas passada num jornal diário em que colaborei.

Era o «Página Um», um diário ligado à esquerda extra-parlamentar. Depois de acabado o meu trabalho na empresa, ia para a redacção, na Rua Braamcamp, e encarregava-me da crítica de livros, de temas culturais e de um ou outro fait-divers. Com o Fausto, esse mesmo, o Fausto Bordalo Dias, o excelente cantautor, ocupava um pequeno gabinete. Ele fazia crítica de discos e espectáculos musicais. A política corrente é que estava a dar, por isso éramos uma espécie de párias, defensores de causas perdidas. Não nos ligavam nenhuma. Uma tarde, vinda de uma agência, chegou-me uma fotografia de um miliciano maronita sentado num degrau de uma casa destruída, descansando da fatigante tarefa de assassinar muçulmanos.

Era uma imagem aparentemente banal e ia a pô-la de parte quando reparei num pormenor – na coronha da sua Heckler & Koch G3 – igualzinha às que se usavam e fabricavam sob licença por cá (provavelmente até seria uma das nossas, pois constava que muitos desses excedentes estavam a ser traficados), na coronha, dizia eu, havia um autocolante com uma imagem, veja-se lá, da Nossa Senhora de Fátima e dos três pastorinhos. Com legenda em português e tudo (li com o auxílio de uma lupa).

Em resposta aos ataques lançados do sul do Líbano, Israel invadira o país em 1978, para eliminar as surtidas palestinianas. As Nações Unidas exigiram a retirada imediata das forças israelitas e o fim das operações militares no sul do Líbano. .As forças israelitas retiraram parcialmente, deixando uma milícia libanesa pró – israelita em seu lugar. Esta milícia era constituída por cristãos maronitas que aproveitaram para dar vazão ao ódio religioso. A foto era de um desses fanáticos que matavam tudo o que mexia.

Excitado com a descoberta, mostrei a foto ao Fausto, e pus-me à máquina de escrever a estabelecer o tortuoso nexo entre a devoção cristã, o culto mariano, e a faina heróica e piedosa de matar mulheres, crianças e velhos (pois os homens jovens da Al Fatah estavam a combater e não se deixavam matar sem antes limpar o sarampo a alguns «cruzados»). Quando acabei, mostrei ao Fausto que deu mais uma ou outra ideia. Terminada a peça, levei-a ao chefe de redacção e recomendei-lhe que mandasse ampliar a coronha da arma sobrepondo o pormenor à foto de conjunto no canto inferior esquerdo. – Fica descansado, disse ele.

Vim-me embora, já era tarde. No outro dia, em São Pedro do Estoril onde deixava o carro e apanhava o comboio, comprei o jornal e procurei o meu texto. Lá estava na primeira página, conforme prometido. Destacado, até. Só falhava um pormenor, na foto apenas aparecia o rosto do cristão maronita. A espingarda e sobretudo a coronha que justificava todo o paleio, tinham sido cortados. Fiquei com o dia estragado. À tarde, mal cheguei à redacção fui ter com o chefe. Reclamei, barafustei, jurei que nunca mais lá punha os pés.

– Não é caso para isso, pá. Nâo vês que não tínhamos espaço, por isso cortámos na fotografia. Era muito grande. Qual é o drama, meu? Deixámos o teu texto inteiro ou não? E na primeira página. Também ralas-te com cada pormenor…

Nâo respondi. Ele afastou-se a resmungar com os «gajos que nunca estão contentes com nada». Eu fui desabafar com o Fausto que já tinha visto o artigo e que, dando-me razão, não conseguia deixar de se rir da minha ira. Passado pouco tempo o diário passou a semanário e depois fechou. Nunca consegui ver os programas que depois o chefe de redacção fez por vários canais de televisão, além de anúncios a dentífricos e coisas do género – uma figura pública. Não fiquei fã do Artur Albarran.

Sim, esse mesmo o da Grande Reportagem na RTP, o da TVI, o da SIC, com A Cadeira do Poder ou Imagens Reais. O sócio de Frank Carlucci, ex-director da CIA e antigo embaixador em Portugal nos tempos revolucionários do pós-25 de Abril. Um rapaz activo e que não se prendia com pormenores.

Para desanuviar, aí vai uma canção do meu companheiro de gabinete.

Comments


  1. Ainda bem que o companheiro de gabinete era o Fausto e não o futuro putativo “empresário de sucesso”. Livra!

  2. Carlos Loures says:

    O Fausto ou eu no gabinete do chefe? Os brâmanes não convivem com párias.

  3. pedro says:

    Ainda bem que vocês, tu e o Fausto, partilhavam o mesmo gabinete. O pária já devia andar a conjecturar o salto para outros gabinetes. E, de salto em salto, lá foi parar ao do Carlucci e ao tentacular grupo Carlyle via Euroamer. Quando esta faliu, só foram encontrados dois automóveis em nome da empresa. O resto tinha desaparecido.

  4. Carlos Loures says:

    Os párias éramos nós, eu e o Fausto. O chefe pertencia a uma casta superior. Nâo andaria a congeminar essas coisas em que se envolveu, mas dentro da sua «pragmática» cabeça, as condições estariam criadas. Mas é uma personagem que não me interessa – só contei a história por me parecer conter alguma pedagogia sobre os que vencem na vida (enquanto há outros que são vencidos por ela). Não sabia esse pormenor dos automóveis.

  5. pedro says:

    Entendido.

  6. Nuno Castelo-Branco says:

    Nada de novo, na frente ocidental. Já agora, o que sabe o Carlos acerca de certos “baixa-mão pepsodênticos” efectuados no ataque à embaixada de Espanha? Dava uma bela história, não haja dúvida.

    • Luís Moreira says:

      Nuno, vi uns gajos com umas pratas na rua e julguei que era pessoal a salvar o recheio…

  7. Carlos Loures says:

    Não sei nada. Os «metralhas» não estiveram nessa. Foi obra dos maoístas, creio que com a UDP na liderança. Só sei que foi uma estupidez e que os motores dos blindados da divisão Brunete estiveram a aquecer para vir até Lisboa. O que na altura ouvi dizer é que se partiram jarrões, danificaram quadros… De roubos não ouvi falar. E os «fininhos» não fariam nunca uma coisa dessas (digo-o sem ironia). O que pode ter acontecido é pelo meio deles se ter metido gente para roubar.


  8. E segunda consta, Franco opôs-se terminantemente à intervenção, dizendo que a fase “era passageira”.
    Quanto aos roubos, não se sabe. Mas a ideia de queimar Goyas e outras peças do estilo, não lembra nem ao diabo.

  9. Carlos Loures says:

    Tenho outra versão. Na altura Franco estava muito doente e não terá intervindo; segundo ouvi dizer, foi o Carlucci que tranquilizou os falcões espanhóis, dizendo que o assunto «se resolveria com meios portugueses» – referia-se ao que veio a acontecer em 25 de Novembro. Segundo ele, uma invasão estrangeira «daria mau aspecto». Não sei se isto corresponde à verdade. Mas o facto é que Franco estava fora de jogo.

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