Perplexidades

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O Semanário Sol anuncia na capa da edição que sairá hoje para as bancas o interesse por parte da afamada Uber em contratar um ex-ministro ou secretário de estado para lobista de serviço da empresa. Se não tivesse efectuado a minha habitual e higiénica pesquisa no google por casos análogos e não tivesse encontrado estes dois resultados (aqui na Folha de São Paulo; aqui no Diário Argentino La Nación) seria capaz de acreditar que este redondo título não passaria novamente de mais uma mentira de pinóquio da malta que consta da lista de pagamentos do Álvaro Sobrinho. Eu sei que o Marvin Zeegelaar também consta desse payroll. Paga-se um bocadinho caro mas é o que há. 

A lista de candidatos em Portugal a este tacho é longa eu sei, mas, realmente perplexo fico quando vejo que Marco António Costa não figura no topo dessa mesma lista. O facto de não ter 5 anos de experiência em funções governativas não deve ser, porém, impeditivo de ser chamado pelo menos a uma entrevista para avaliar as suas capacidades. É que MAC já conta com mais de duas décadas de experiência profissional altamente qualificada em lobismo, gangsterianismo, ilegalidades e banditismo político.

Durão Barroso tratado como lobista? Finalmente!

lobbyistPelas europas eurocratas, vai uma espécie de alarido, com Jean-Claude Juncker a apoplexizar indignações pelo facto de Durão Barroso se ter transferido para a Goldman Sachs. Neste momento, existe, até, a ameaça de que Barroso passe a ser recebido em Bruxelas como um simples lobista, sem direito às honras de antigo presidente da comissão.

Se Durão fosse francês, Juncker tudo perdoaria, mas o que me traz aqui hoje é manifestar o meu regozijo, porque um reconhecimento tardio não deixa de ser reconfortante: é que o antigo primeiro-ministro português sempre foi um lobista. Na realidade, o que é que o homem esteve a fazer estes anos todos em Bruxelas que não fosse contribuir para que a Europa se pusesse ao serviço das grandes empresas mundiais e alemãs?

É, portanto, justo que passem a tratá-lo de acordo com a função que sempre desempenhou, como um rei que, finalmente, ocupa o trono depois de desesperar pacientemente por se sentar nele. A Europa poderia aproveitar, aliás, a ocasião e atribuir o mesmo título a muitos outros, começando por Juncker.

Aproveito para confessar que o meu ouvido tendencialmente purista lida mal com a palavra “lobista”. Neste e em muitos outros casos semelhantes, ficaria melhor utilizar “lobisomem”: o lobby continua a ouvir-se e faz muito mais sentido, nesta selva cheia de predadores que ao roubo chamam austeridade, palavra demasiado séria para estar na boca de lobistas.