O Titanic de Lourenço Marques


Bem perto da Praça Mac-Mahon, na Rua Consiglieri Pedroso em Lourenço Marques, existia a Papelaria Spanos. Era ali onde os meus pais tinham a assinatura de revistas como Tintim, Pisca-Pisca e os Almanaques Disney, pelos quais eu e o Miguel tanto ansiávamos. Para nossa casa também seguia uma publicação francesa, a Historia, dirigida por Christian Melchior-Bonnet, da Librairie Jules Tallandier. Nela escreviam André Castelot, Christine Garnier, Paul Morand, Alain Decaux, Marcel Brion, Jaques Chastenet, Paul Carell, entre muitos outros nomes da Academia Francesa, da política e da literatura europeia de então.

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De Moçambique

Aqui apresentamos um novo blog que decerto nos contará “estórias” ainda desconhecidas de um Moçambique que para sempre desapareceu. Para que a memória não se perca.

 “É que Lourenço Marques mais não era do que uma vilória com pretensões e algumas benesses de que a menor era uma praia enorme que se estendia aos seus pés e se prolongava por quilómetros até à Costa do Sol onde existia um restaurante cervejaria, famoso pelos camarões e a cerveja geladinha, a “Laurentina”. Ora está bem de ver que nesses anos 40 e 50 do séc. XX, laurentinos e laurentinas eram os naturais da cidade que só depois passaram a ser chamados de “coca colas” em consequência da introdução desse refrigerante no consumo citadino. É que Moçambique usufruía da regalia de poder beber o refrigerante, aliás, muito menos açucarado do que o mesmo produto que se vende no cantinho português da Europa. Dizia-se, à boca pequena, que Salazar não deixava produzir a bebida em Portugal Continental só para fazer ferro aos americanos que não o apoiavam como ele desejava!”

Grandeza (ainda não) perdida

A propósito das imparáveis demolições de edifícios antigos nos centros urbanos portugueses, noutras paragens vão resistindo peças arquitectónicas de grande valor estético e que são também património nacional de dois povos. Neste caso, a foto documenta o hospital da Ilha de Moçambique, onde à pureza das linhas, podemos acrescentar uma certa grandeza evocadora de outras paragens. Lourenço Marques/Maputo, também tem sido poupada às demolições extensivas que são coisa corrente por cá, na sua antiga capital metropolitana. Sabendo que a falta de dinheiro e de “oportunidade de negócios” podem ser poderosos aliados da preservação de muito daquilo que os nossos antepassados construíram, a actual escassez de crédito representará (?) um feliz travão a tudo o que os “srs. Costas autárquicos” têm feito em Portugal.

Um bilhete da TP de Lourenço Marques-Lisboa. Sem volta (I)


“Há 35 anos inventámos a palavra retornado. Mas eles não retornavam. Eles fugiam. Retornados foi a palavra possível para que outros – os militares, os políticos e Portugal – pudessem salvaguardar a sua face perante a História. Contudo a eles o nome colou-se-lhes. Ficaram retornados para sempre. Como se estivessem sempre a voltar.”

Este post da Helena Matos surge como quase resposta à campanha de promoção de um conjunto de textos coligidos em livre de saison politique que ultimamente tem sido promovido nos santuários do costume. Os dislates do politicamente correcto de alguns conjugam perfeitamente os interesses que hoje servem os seus mais lídimos herdeiros directos, exactamente os mesmos que hoje acorrem a Moçambique à cata de desinteressados negócios. Há coisas que não mudam.

Tudo começou há uns meses quando uma bastante efémera “ex-residente em Lourenço Marques” decidiu editar a sua experiência pessoal, sendo sem surpresa apoiada pelo carpidismo militante que sempre arranja um espaço reactivo para as suas ilusórias verdades de convenção. Essa também ex-menina e autorajamais viveu em Lourenço Marques, a Maputo cujas avenidas o Sr. primeiro-ministro ontem entusiasmadamente percorreu em mini-maratona de salutar oxigenação pulmonar. A dita ficcionista, Isabela de seu nome, limitou-se a vegetalizar-se num buraco-negro de paranóia circunscrito a pouco mais de 400m2. Filha de um tipo de homem a quem local e depreciativamente se designava de maguérre (1), diz ter assistido a um infindo rol de iniquidades caseiras. Por isso mesmo, sendo branca, aparentemente loura e confortavelmente alvenarizada em residência na Matola – uma espécie de melhorado Cacém local – , sentiu como absoluta missão agigantar a pequenina, grotesca e marginal figura paterna, fazendo-a subdividir-se tal como uma amiba, a todo o corpo colonial estabelecido em Moçambique. As lamentáveis aldrabices grasnadas pela ignorância de uma totalmente desconhecida realidade, tornam-se em factos que se compõem uma perfeita ficção de cordel mais própria das sebentas “revolucionárias” e justificativas de outros tempos, estão, no entanto, muito longe da verdade do período final da presença portuguesa em Moçambique. Afinal tudo se resume a uma questão de facturação, à procura de um suburbano êxito à Harry Potter. A ficção vende bem e se for sob patrocínio alinhado, melhor ainda.

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