“São todos a mesma treta” e Fernando Nobre faz parte dela

Fui daqueles que saudou a candidatura de Fernando Nobre à presidência da República, enquanto emanação da sociedade civil. No entanto, em abono da verdade, cedo lhe descobri limitações políticas e pessoais.

Ainda não me pronunciei sobre o aparecimento do seu nome nas listas do PSD porque tenho esperado que a poeira assente um pouco para desfiar os meus argumentos. Acontece que todos os dias se levanta pó, cada vez mais pó, e decidi não esperar mais.

Vamos lá a ver: a mim tanto se dá que o PSD o convide ou não, é assunto que diz respeito à máquina pê-ésse-dista e a quem nela vota. Acho legítimo, apesar de pensar que o oportunismo e as contas de merceeiro -ainda por cima furadas porque, nestas circunstâncias, Nobre não “vale” os votos que obteve- não fazem boa política. [Read more…]

Saramago, o festim dos medíocres

A morte de Saramago parece ter acordado ódios, rancores e invejas que jaziam latentes e adormecidos.

Escrevem-se artigos, fazem-se comentários em blogues, circulam e-mails que, como dizia Almada, se são portugueses me fazem desejar ser espanhol. Morar em Espanha é, aliás, uma afronta que muita gentinha não perdoa a Saramago. Ontem, um post num blogue a que não faço o favor de linkar deixou-me triste, muito mais triste do que revoltado, com a pequenez de alguns conterrâneos meus contemporâneos, com a maldade verrinosa perante alguém cuja obra lhes é indiferente e desconhecida, ainda que a ela depreciativamente se refiram.

Saramago era um homem perfeito? Todos sabemos que não, de homens perfeitos estão os céus e restantes paragens vazios.

Mas gente que não escreve quatro palavras seguidas sem dois erros ortográficos de permeio perora sobre o escritor e sua escrita.

Tipos que têm de Deus a imagem de um velhinho de túnica e barbas brancas sentado no cocuruto do universo, zelosamente velando por eles, dissertam sobre a falta de fé de Saramago.

Católicos convictos comparam a cremação a um acto de fé tardio e desejam que arda eternamente no inferno, sem remissão nem perdão.

Acríticos defensores das virtudes do neo-liberalismo chamam-lhe traidor por ter decidido atravessar fronteiras e habitar outro país.

Filhos que venderiam a mãe por três tostões acusam-no de avidez e ganância.

Indivíduos a quem não se compraria um carro em segunda mão falam do seu sucesso como produto, apenas e somente, de bem sucedidas campanhas de marketing.

Patetas que se curvam de inveja e bajulação perante um vencedor do terceiro prémio do totobola desdenham o Nobel de Saramago.

A lista continuaria se a mim próprio não agredisse.

Triste país, tristes filhos, fraca gente, alegre falta de escrúpulos e de vergonha.