“São todos a mesma treta” e Fernando Nobre faz parte dela

Fui daqueles que saudou a candidatura de Fernando Nobre à presidência da República, enquanto emanação da sociedade civil. No entanto, em abono da verdade, cedo lhe descobri limitações políticas e pessoais.

Ainda não me pronunciei sobre o aparecimento do seu nome nas listas do PSD porque tenho esperado que a poeira assente um pouco para desfiar os meus argumentos. Acontece que todos os dias se levanta pó, cada vez mais pó, e decidi não esperar mais.

Vamos lá a ver: a mim tanto se dá que o PSD o convide ou não, é assunto que diz respeito à máquina pê-ésse-dista e a quem nela vota. Acho legítimo, apesar de pensar que o oportunismo e as contas de merceeiro -ainda por cima furadas porque, nestas circunstâncias, Nobre não “vale” os votos que obteve- não fazem boa política.

Quanto a Nobre, o ziguezagueante, mostrou defeitos pouco respeitáveis que não lhe havia visto: a mesma incoerência que apontava à classe política, as mesmas mentiras  rasteiras (nunca me verão num partido, bla,bla,bla), o mesmo oportunismo, a mesma ignorância em relação ao essencial político, a mesma arrogância auto-desculpabilizante.

Tenho assistido também ao pingue-pongue em que Nobre faz de bola (“criticam os partidos por não se abrirem à sociedade civil e por se abrirem”, “ofensa aos militantes”, “nós, socialistas, convidamos as pessoas para serem deputados e não para outros cargos”, etc., etc.). São peditórios para os quais já dei e cansa-me o ruído polifónico.

Mas acho que há uma coisa que se deve criticar a Fernando Nobre e que não deve ser desculpada: o facto de ter desbaratado os votos e, acima de tudo, a confiança da “sociedade civil” nos candidatos da “sociedade civil” -seja lá isso o que for, bem sei que cabe lá tudo, mas aceitemos, em senso lato, que se trata de projectos políticos nascidos fora do seio dos partidos que temos, e que não são apadrinhados por estes.

Explico melhor. Fernando Nobre capitalizou os votos de largas franjas de pessoas que acreditaram contribuir para eleger uma voz diferente, que não fosse “igual aos outros”, “igual aos mesmos de sempre”. Ingenuidade ou não, Fernando Nobre herdou a responsabilidade de administrar esse desejo e essa diferença. A partir de agora, em relação a outras iniciativas semelhantes, as pessoas dirão “são todos iguais”, “querem todos a mesma coisa”, “são todos oportunistas e mentirosos”, “tanto faz serem uns, ou serem outros”, “não te lembras do fez o outro?”.

Essa é, do meu ponto de vista, a maior mácula de Fernando Nobre. Infelizmente, só nos saem medíocres.

Comments

  1. jorge fliscorno says:

    «Fui daqueles que saudou a candidatura de Fernando Nobre à presidência da República, enquanto emanação da sociedade civil.»

    E vão dois. Mas mais do que o PSD, este homem tem sido perito em dar tiros nos pés.


  2. Só não percebi ainda: quem é que o homem matou!

    P.S. Não sei se posso comentar neste post ou se a censura do Cardoso é só para posts dele

    • A. Pedro says:

      Carlos Alberto,

      No Aventar cada um modera os comentários aos seus próprios posts. É a regra da casa.

  3. Carlos Fonseca says:

    Pedro,
    Fernando Nobre é o que se revelou e não é outro. De resto, em oportunismo, chega a ultrapassar muitos políticos. Há muito que eu o sabia.


  4. Já vi que é para todos… muito bem.

    Um bloquista com laivos de ditadorzeco de meia tigela armado em censor.

    Não lhe bastava ser ordinário para quem com ele não concorda.