O vírus (fim)

O vírus do covid tem feito muitos estragos. Mas está longe dos efeitos do outro vírus que assola o mundo.

Assistimos ao despudor com que se mente à vista de todos, sem que os mentirosos sem importem por saberem que quem os ouve sabe que estão a mentir. Esta inversão de valores, reforçada por uma hipocrisia sem limites, tem um impacto fundamental em todos os tópicos anteriormente abordados.

A reacção do poder instituído ao breve crepúsculo em que se publicaram alguns arranhões na Internet foi de contra-informação em larga escala, estratégia que culminou nas fake news de agora. O próprio jornalismo transformou-se, em larga medida, num produto de consumo imediato, superficial e em busca do sound bite, à imagem do modelo de sociedade que temos.

Este é o maior vírus que nos ataca de há algum tempo a esta parte. Aos poucos, apaga a decência. O resto vai por arrasto.

(o vírus)

O vírus (6)

Imagem: NPR

Pela China, vivem-se momentos de autocracia em expansão acelerada. Hong-Kong está a ser colocada sobre a lei do autoritarismo chinês. E os sinais de controlo sobre os chineses somam-se continuamente. Peça-se um comentário ao governo de Passos Coelho sobre a venda da REN e EDP à China.

Na Europa, os líderes da Polónia, Turquia e Hungria nem disfarçam o ímpeto de ditador que os caracteriza. Esse mesmo que os líderes europeus, Costa incluído, fazem de conta não verem.

Também por cá, a relativização, e até cancelamento, de leis fundamentais da sociedade parece caminhar para a vulgarização. Os Açores deram o mote. Mas recentemente, o Governo da Madeira lembrou-se de impor uma lei (uso de máscaras na rua) que é, ao que dizem, inconstitucional. Continua a a aguardar-se uma palavra do Presidente da República sobre o assunto.

A recolha de dados usando os telemóveis em registo faroeste, passou também a ser uma prática, até na Europa do burocrático (what else) RGPD. O que não surpreende, pois a resposta europeia aos problemas não difere muito daquilo que se faz em Portugal: mete-se uma lei em vigor e o problema fica resolvido.

(continua)

O vírus (5)

Foto: Dave Killen/Staff

A América de Trump continua o seu caminho para a perda de relevância internacional e de declínio nacional.

Soube-se há dias que Trump nem se deu ao trabalho de procurar saber se Putin tinha ou não oferecido recompensas para que soldados americanos fossem mortos no Afeganistão por guerrilheiros pró-Taliban. Chegaram-lhe as suas teses infantis sobre a boa-vontade de Putin.

Neste momento, a ausência de resposta à pandemia está a ter forte impacto na possibilidade de ser reeleito, pelo menos confiando nas sucessivas sondagens que colocam Biden à sua frente por valores de 2 casas percentuais. A reacção de Trump foi de lastimar-se que ninguém gosta dele, de atiçar os cães contra Fauci (a Graça Freitas de lá) e de procurar um fait-divers que tirasse o tema covid das notícias (largou-se num tweet sobre o adiamento das eleições marcadas para Novembro, algo que não está sob o seu controlo).

Gozado depois do fiasco que foi o comício que não teve os milhares de participantes esperados, graças à partida da miudagem do TikTok que se inscreveu aos magotes como falsos participantes nesse comício, Trump lança agora as garras ameaçando fechar essa rede social. Um favor que o Facebook, que não viu esta competição chegar, muito agradecerá. E que se junta ao leque das incongruências do presidente, que em alguns momentos grita que a liberdade de expressão está em causa, como quando o Twitter removeu algumas das suas mentiras, para depois ser ele mesmo um agente da limitação da liberdade de imprensa e da redução da competição.

Em paralelo, o Congresso ouviu o gangue do GAFA (Goolge, Amazon, Facebook e Apple) sobre o seu poder e sobre as suas práticas anti-concorrenciais e de devassa da privacidade. A sessão com o responsável da Google transformou-se numa espécie de suporte técnico, quando um senador republicano usou o seu tempo para procurar dessiminar a ideia de que as big tech bloqueiam o discurso do partido de Trump. Alegava ele que o email que a sua campanha tinha enviado aos eleitores não chegou à caixa de correio do seu pai, ao que Sundar Pichai explicou como funciona o sistema de separadores do Gmail, que coloca as mensagens dos contactos de amigos e família num separador principal, deixando os restantes emails para separadores de marketing, correio não solicitado, etc. Não satisfeito com a explicação e desejoso de fazer crescer o tema junto da comunicação social, Greg Steube apontou que isso da prioritização dos emails familiares não funcionou com os emails da sua campanha, ao que Pichai referiu que os sistemas da Google não foram capazes de perceber que se tratava do seu pai. Assim se transforma uma discussão sobre práticas não-concorrenciais num episódio de campanha eleitoral.

Em Portland, uma mulher vestindo apenas um chapéu e uma máscara cirúrgica ficou à frente da polícia, que lhe atirou balas de gás pimenta aos pés para a desmobilizar. Não se tendo mexido, a polícia ficou parada e acabou por se ir embora 10 minutos depois. Um episódio sem incidentes de maior, desta vez, nos confrontos entre polícia e manifestantes em Portland, cidade para a qual Trump enviou agentes federais em veículos não identificados, os quais detiveram manifestantes sem se identificarem.

(continua)

O vírus (4)

Pela Europa, confirma-se a nulidade em que a União Europeia se transformou, incapaz de estar à altura de apresentar um plano conjunto de resposta à presente crise.

Assistimos ao habitual espectáculo da arrogância nórdica, como se não tivessem grande benefício com o mercado único, e à mão estendida dos países do sul, pródigos nos casos de corrupção na aplicação dos “subsídios”.

Agradecem esta desunião os restantes grandes blocos, como China e Rússia, que vêm a sua posição ficar mais consolidada de cada vez que os concorrentes não se conseguem organizar.

A “solução” europeia passa por uma forte dose de empréstimos, sejam eles a fundo perdido ou não. O ponto está no recurso ao empréstimo, em vez da opção pela emissão de moeda. Se a segunda opção se traduziria numa desvalorização transversal da riqueza, já a primeira assegura a manutenção do património dos poucos que controlam o sistema financeiro. Manutenção e, inclusivamente, aumento, já que alguém (os estados) acabará a pagar juros.

Sem surpresa, foi notícia que a riqueza dos multi-milionários aumentou ainda mais durante a pandemia.

(continua)

 

O vírus (3)

Graça Freitas e Marta Temido

Agora, a DGS já recomenda o uso de máscaras como medida de contenção do vírus.

É de recordar que Marta Temido e Graças Freitas insistiram repetidamente, no início do confinamento, que as máscaras era inúteis e que, veja-se só, até eram contra-indicadas. Estavam, então, em claro contraciclo com o que se fazia nos países que lutavam activamente contra a pandemia. Este volte-face ocorreu sem que proferissem uma palavra sobre o erro que cometeram e nem sobre as consequências que poderão ter causado aos portugueses.

Este panorama é a melhor fotografia da resposta do governo às crises, esta e anteriores. Houve muita conversa fiada, que se traduziu em propaganda diária em forma de conferência de imprensa. Assistimos à mão forte na legislação, sob forma da lei fecha-tudo, que nos permitiu ganhar tempo para nos prepararmos, mas que, vemos agora, não resultou em preparação visível por parte do Governo (continua-se a anunciar planos, em vez de execução dos anteriormente anunciados).

E, por fim, o tempo mediático não foi usado para educar os portugueses, tal como fez, por exemplo, a BBC, que passou repetidamente pequenos clips informativos (curtos!), tais como ensinar a usar a máscara, como lavar as mãos e divulgação científica.

(continua)

 

O vírus (2)

Capa do jornal Público, 2020-07-28

Novamente se constata que Portugal é um Estado com leis feitas à medida, o que talvez seja pior do quem um Estado sem leis.

Em causa está a negociata imobiliária do Novo Banco, onde tudo, veja-se só, foi legal. Até o facto de o prejuízo do Novo Banco ser coberto pelos fundos públicos é um sintoma deste país de leis cozinhadas. Alguém reviu e aceitou os contratos que estipulam estas medidas. A questão que se coloca é: quem foi? Não é difícil de saber, apesar de não ser notícia.

As leis são feitas para que acções criminosas ou condenáveis tenham fundamento legal. Esta é origem primária da corrupção. Mas que não haja motivos para preocupações. Daqui a 10 anos teremos na justiça um processo rigoroso, quando tudo tiver prescrito.

Siga-se o rasto do dinheiro, sem esquecer as off-shores que minam todas regras de equidade entre os poucos que têm milhares de milhões e o resto do mundo.

(continua)

 

O vírus (1)

Rui Rio e António Costa em Setembro de 2019

As últimas semanas têm sido particularmente virulentas, por cá e no resto do mundo.

No rectângulo, PS e PSD uniram-se para diminuir a fiscalização do Parlamento sobre o Governo e, consequentemente, dos portugueses sobre o Governo. Para os distraídos, o Governo presta contas à Assembleia da República, não o contrário, como habitualmente parece ser o caso devido à carneirada, perdão, disciplina parlamentar. Que passemos a ter debates mensais, com a presença obrigatória do Primeiro-Ministro apenas bimensalmente e que a medida tenha sido proposta em primeira mão pelo PSD, revela bem o estado de nulidade a que chegaram as instituições em Portugal – sim, não é exclusivo da Assembleia da República.

Ainda sobre o PSD, regista-se o seu caminho para a nulidade, ou pior, para a extrema direita, ao começar o namoro com o Chega. Más notícias, também, para o rapaz do CDS.

Entretanto, a Ministra da Cultura encheu a boca com um drink de fim de tarde, tal como Cavaco tinha enchido a boca de bolo-rei, anos antes, para não falar de um assunto incómodo.

(continua)