Música para ir de férias (com dedicatória especial ao professor Raul Iturra Redondo)


GNR – Freud & Ana, do álbum «Os Homens Não se Querem Bonitos», de 1985. Uma das melhores músicas da carreira dos GNR, com letra de Rui Reininho e música de Alexandre Soares.

Dedicado ao nosso professor Raul Iturra Redondo, professor catedrático do ISCTE, especialista em Etnopsicologia, Antropologia e em tantas outras áreas e muito melhor do que algum dia eu serei.

Mão morta/Mãe morta
Vai bater aquela porta
“Que se lixe quem não dança”
(disse Carl Jung)

É o seculo XX/
É o sexo vintage
A nossa doença, a nossa militância
É há cá quem sofra de complexos
E quem se queixe de SIDA
Mesmo de novas misturas
Em casais de pombos
E há cada vez mais novos combos
E até electro-choques
(Insulina a rodos) e outros mentais retoques

Querida
Apareces-me em sonhos
Com penas de gato e muita comida
Que não te falte nada
Mesmo assim vestida
A tua líbido é mistura
De desejo e bebida

Como a cabeça do bispo
Tu comes a cabeça da dama
Vendo-te o “cavalo”
Empresto-te a torre
Mas quero saber quem me ataca [Read more…]

A História e a literatura fantástica em Raul Iturra

Decidiu o meu colega Raul Iturra dedicar-se à ficção escrevendo sobre Karl Marx. Podia dar-lhe para pior, mas tem alguma gravidade o facto de apresentar o seu texto como sendo resultado de uma investigação científica, ainda por cima de uma ciência que manifestamente lhe é estranha,  a História.

Não sei como se faz em Antropologia, mas em História consultam-se fontes credíveis, e depois trabalha-se.

Ora não é esse o caso. Fonte para afirmações tão idiotas como “É sabido e conhecido que Marx cumpria rigorosamente as regras judaicas, como as luteranas.” não são referidas, pela simples razão que é complicado inventar uma origem para tal atoarda.

Fontes como http://br.answers.yahoo.com/ não têm qualquer credibilidade científica.

Afirmações como “Em Marselha foi-lhe solicitado, em 1887, escrever um Manifesto para comemorar os 100 anos da morte de Babeuf, guilhotinado pelos seus colegas de partido por ter escrito o Manifesto dos plebeus” além de algum delírio pecam por uma coisa que usamos em História chamada datas, como por exemplo a data em que o Manifesto foi escrito, por Marx e Engels, ou seja nos idos de 1847/48.

Nada tenho contra a imaginação do novelista Raul Iturra, note-se. Já o vício de se apresentar como professor catedrático, correndo-se o risco de alguma alma ali parar e se convencer que se trata de ciência, esse risco, como professor, preocupa-me um bocado. Quem te manda a ti, sapateiro Iturra, tocar rabecão?

Hoje sou mineiro

Um mineiro feliz, e chileno também.

Vão sair todos sãos e salvos como se usa dizer, salvos pela aldeia global e a tecnologia que ela pode chamar. Teriam apodrecido como os mineiros desta cantiga popular asturiana, não estivéssemos todos a olhar para a mina que não vemos.

E um deles já fez um poema:

Não nos tratem como artistas, somos mineiros

O nosso Raul Iturra está ali a torcer o sofrimento acrescido do homem que olha os seus compatriotas a voltarem um a um da terra que os emprenha, mas amanhã regressa feliz e contente, podem crer, um verbo derivado do querer.

Chá e guarda-infantes

A propósito do post do Prof. Raul Iturra que tão bem vem recordar a memória do “chá de Catarina”, este nosso colega, alerta também para uma outra característica da nossa gente, sempre disposta ao esquecimento das coisas aqui da terra. Quantas pinturas, estátuas, estatuetas e outras obras artísticas de autoria portuguesa, já vimos expostas em galerias e museus, onde a imagem daquilo que deve ser uma Infanta, surge sempre sob a secular e tutelar figura de Margarida Teresa, a central personagem da esplendorosa obra Las Ninãs de Velázquez?

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A máquina do tempo: em defesa do Zé Povinho

 

Há dias atrás, o nosso companheiro de viagem, Professor Raúl Iturra, publicou um interessante texto comparando o Zé Povinho com uma personagem chilena, o Roto (que não conhecia). A nossa máquina do tempo irá hoje visitar Rafael Bordalo Pinheiro, «O António Maria»e, claro, o Zé Povinho. Os tempos eram outros, nesse último quartel do século XIX, embora os problemas de fundo não fossem assim tão diferentes como isso.

 

Entre 1851 e 1871, ocupando diversas pastas em vários governos, foi neste último ano nomeado primeiro-ministro António Maria Fontes Pereira de Melo(1818-1887). Em mais dois governos, ocupou o mesmo lugar de chefe do Governo até 1887. Pertencendo ao Partido Regenerador, foi, como se pode ver por estas datas, uma personagem que ao longo de quase quatro décadas esteve na ribalta da cena política. A sua política de fomento, de desenvolvimento das obras públicas, nomeadamente das comunicações, ficou conhecida por «fontismo».

 

Foi o alvo preferido do humor cáustico de Bordalo Pinheiro que, inclusivamente, deu o seu nome a uma das suas revistas «O António Maria». Porquê, esta fixação do genial artista?

 

No seu editorial de apresentação, «O António Maria» afirmava-se como independente. Dizia «ser oposição declarada e franca aos governos, e oposição aberta e sistemática às oposições». Digam-me lá se esta não é precisamente uma posição lúcida e que, nos dias de hoje, faria todo o sentido? O que não sabemos é se haveria poder de encaixe para aceitar uma revista que se chamasse «O Sócrates»…

 

Oposição ao governo, que abria estradas, construía caminhos de ferro, pontes, escolas, permanecendo o povo, simbolizado pelo Zé, analfabeto, miserável e desprotegido. Não acham isto parecido com o que hoje se passa – auto-estradas para todos os lugares, projectos de aeroportos e de TGVs, a par com um absoluto desprezo pela cultura, pelo caos na Educação e com dois milhões de concidadãos nossos a viver abaixo do limiar de pobreza?

 

Enquanto isto,  agora como então, uma oposição palavrosa, que condena tudo o que o Governo faz (com razão em quase tudo, diga-se), mas sabendo nós que se algum dia chegar a ser poder fará o mesmo ou pior. Ou melhor, não rectificará nenhuma das medidas erradas que este Governo assumiu, acrescentando-lhe outras igualmente lesivas dos interesses da maioria.

 

Esta oposição, à direita por comprovada ineficiência – (PSD e CDS) já estiveram em diversos governos e foram autênticos desastres e à esquerda por demagogia inconsequente, não interessa. O PCP e o BE dificilmente serão governo e, pela sua prática enquanto oposição, vê-se estarem infiltrados de políticos que usam e abusam da demagogia e da chicana. Fazem parte do sistema e do respectivo folclore. Legitimam o sistema. Porque, como Rafael, penso que o mal não é (só) deste partido que se diz socialista. O mal é do sistema. Rafael chamava ao sistema da sua época «a grande porca», referindo-se a política nacional. Ninguém tinha as mãos limpas.

 

Já sei que, esta expressão, «o sistema», assumiu, até por conotações futebolísticas, o carácter esotérico, por vezes ridículo, de uma teoria da conspiração ao estilo de Dan Brown. Na política e no futebol (a promiscuidade entre ambos é nítida) o «sistema» é identificável e nada tem de esotérico. Cambalachos obscuros, negociatas sinistras, ligações endogâmicas e não só, que desembocam em casas pias, apitos dourados e faces ocultas.

 

Gostei muito do texto de Raúl Iturra e de saber que no Chile têm o Roto, personagem irmã do nosso Zé. Só uma pequena divergência. O nosso Zé Povinho não é um parvo, nem foi uma figura criada pela burguesia (embora Bordalo Pinheiro, pertencesse a uma família burguesa) – será crédulo e humilde, manso e céptico, às vezes desconfiado, mas nunca parvo. Resmunga, protesta, mas depois lá vai votar num dos verdugos. Um caso exemplar da síndrome de Estocolmo. O que, sem o ser, pode parecer parvoíce. É uma besta de carga em cima da qual cai, além dos impostos, todo o peso da desonestidade e da incompetência dos outros, dos tais senhores de fato cinzento ou azul escuro, de gravata e carros topo de gama. Os senhores que mandam no País.

 

Rafael Bordalo Pinheiro, a propósito da mudança alternante de governos disse: «O Zé Povinho olha para um lado e para outro e… fica como sempre… na mesma». Mas como não é parvo, apenas manso e crédulo, um dia a paciência pode esgotar-se-lhe. E quando o Zé deixa a sua mansidão e credulidade e se zanga, transforma-se num grande problema para quem o tiver atormentado. Aconteceu a seguir ao 25
de
Abril de 1974. Pode voltar a acontecer.

 

Depois não se queixem.

 

P.S. – Dedico este texto ao Professor Raúl Iturra, com um abraço de gratidão por me ter fornecido a ideia de defender o «nosso» Zé Povinho.