Dicionário do futebolês – remate intencional

Imagine-se: um jogador, num dos raros momentos em que, por mérito próprio ou demérito alheio, tem alguns segundos para escolher o lado para onde vai rematar e lança a bola em arco ao poste mais distante. Seja golo ou não, há fortes probabilidades de o comentador de serviço considerar que se tratou de um “remate intencional”.

A partir do momento em que a expressão “remate espontâneo” teve direito à vida, na outra face da moeda teria de estar, logicamente, o “remate intencional”. Forças de expressão, já se sabe: na primeira, por absurdo, pretende acentuar-se a rapidez do movimento; na segunda, sai reforçado o facto de o gesto ser mais elaborado, graças ao aumento improvável do espaço e do tempo, dois factores reduzidos ao mínimo no futebol moderno, feito de pressões constantes e marcações ferozes. No meio desta selva em que vinte e dois homens se combatem numa mesma trincheira diminuta, é precioso aquele jogador que consegue pensar mais depressa, suscitando o comentário que define os melhores: “Parece que é fácil!”

Inspirando-nos em Orwell, o que nos permite aceitar mais facilmente o absurdo, poderemos dizer que todos os remates são intencionais, mas uns são mais intencionais que os outros. No vídeo que se segue, há remates e passes intencionais com fartura, ou não tivesse sido Rui Costa um jogador com tão boas intenções.

 

Dicionário do futebolês – remate espontâneo

A expressão em análise é habitualmente utilizada para comentar a situação em que um jogador resolve rematar o mais rapidamente possível, com o objectivo de não permitir ou dificultar a reacção do oponente. É o que fez maravilhosamente Van Basten no vídeo que se exibe abaixo.

Ora, ser espontâneo implica suspender o raciocínio, o que transformaria o acto de rematar numa espécie de espasmo e não no resultado de uma deliberação que não deixa de o ser por ser rápida, como não deixamos de usar a razão ao responder prontamente a uma pergunta. Por muito repentino que possa ser, o acto de rematar não é algo que se possa fazer assim do pé para a mão e resulta, evidentemente, do treino e da repetição, o que quer dizer que é tanto mais rápido quanto mais treinado, ou seja, nada espontâneo. O próprio Fernando Pessoa, num momento de extrema parvoíce e rematado mau gosto, poderia ter criado uma quadra definitiva e definidora:

O futebolista é um rematador

Que remata tão de repente

Que chega a parecer um tremor

O remate que efectivamente

Não deixa, no entanto, de ser divertido imaginar o terreno de jogo povoado por futebolistas que não conseguissem controlar o que fazem as pernas. O marcador involuntário de um golo diria: “Não sei o que me aconteceu: eu estava ali quieto, a minha perna mexeu-se e rematou espontaneamente. Até hei-de pedir desculpa ao guarda-redes, que eu nem queria fazer aquilo.”