Dicionário do futebolês – “fair-play” e desportivismo

Mesmo os desconhecedores da língua inglesa usam correntemente este termo. Julgo que, se fosse pedido a algum que indicasse um significado, poucos se lembrariam de ‘desportivismo’, por exemplo. Já nos meus tempos de petiz, estava habituado a ouvir dizer ofessaide e não foi fácil habituar-me a perceber que era o mesmo que fora-de-jogo.

Trata-se de uma expressão ligada à ética. Ora, todos sabemos que a ética, na futebolândia, é como as sondagens: vale o que vale. Se for em nosso benefício, está certa; se servir o adversário, é um corpo estranho, entre o vírus e a bactéria.

O desportivismo é, de qualquer modo, algo que os nossos adversários nunca conseguem alcançar, porque são uma gente mal formada, sem educação, incapazes de um gesto de, lá está!, fair-play. É isso, aliás, que serve para explicar por que razão é que, por vezes (muito raramente, claro), também somos forçados a não praticar o fair-play: como os nossos oponentes são, sem excepção, uns facínoras da pior espécie, torna-se necessário ignorar a ética por razões estritas de sobrevivência no meio dessa selva onde é tão difícil ser-se bem-intencionado.

É por isso que um desarme de um jogador de outra equipa será sempre violentíssimo e um pontapé na cabeça de um adversário desferido por um dos nossos não passa de uma acção compreensível, porque, provavelmente, já tinha havido provocações num jogo qualquer da oitava jornada de há três anos.

Quantos jogadores seriam capazes de fazer o que faz Di Canio no vídeo que se segue?

 

 

Dicionário do futebolês – remate denunciado

João Pinto, antigo defesa direito do Futebol Clube do Porto, considerou que “Prognósticos só no fim do jogo” é a sua melhor tirada. A verdade é que esta frase, ainda que involuntariamente, constitui uma lição que deveria ser aproveitada pelos comentadores de futebol.

De uma maneira geral, o comentador de futebol gosta de se apresentar como um adivinho, sendo vulgar ouvi-lo antever os actos dos futebolistas ou as decisões dos treinadores. É por isso que podemos ouvir frases como “O jogador vai rematar eeeee… passou a bola ao colega.” Sendo certo que o futebol resulta de treino constante, não se confunde com o xadrez, porque o tempo para pensar é muito menor. Logo, querer saber aquilo que um futebolista vai fazer, quando o próprio não sabe, até pode passar por falta de respeito.

O comentador, na realidade, deveria emitir juízos sobre o que se passou e não sobre o que ainda não aconteceu. No entanto, mesmo quando fala do passado, não consegue deixar de tornar implícito que já sabia que o acontecido tinha de acontecer.

A expressão hoje dicionarizada é muito usada para explicar por que razão uma grande penalidade foi defendida. Vários guarda-redes já explicaram de que modo conseguem fazê-lo, sendo unânimes na afirmação de que a pressão está toda sobre quem marca. Na maior parte dos casos, o homem da baliza escolhe um lado e lança-se o mais tarde possível. Quando a bola vai ao seu encontro, a remate foi denunciado; se, por acaso, a bola e o guarda-redes se desencontrarem, o avançado passa a ter mérito absoluto. [Read more…]

Dicionário do futebolês – levantar a cabeça

Esta frase é muito usada por quem acabou de levar na cabeça ou por quem costuma levar na cabeça. Faz parte de um rol de muitas frases pré-cozinhadas que qualquer jogador, ofegante ainda de uma derrota, produz instintivamente.

É certo que, muitas vezes, é difícil levantar a cabeça, porque as derrotas podem levar a que se perca exactamente a cabeça, que, uma vez perdida, é dificilmente recuperável, como já demonstrou Luís XVI. Aliás, numa prova de que o mundo do futebolês está carregado de lógica, é vulgar ouvir os treinadores, nos momentos difíceis, dizerem “É preciso jogar com cabeça.”

Entretanto, julgo que, face aos dislates que tantos idiotas incendiários e incendiados produzem, seria importante que o futebolês passasse a incluir a expressão “É preciso baixar a cabeça”, sinal de arrependimento ou, pelo menos, de vergonha. [Read more…]

Dicionário do futebolês – comentadores

Na minha juventude, ficava à espera das imagens da jornada no Domingo à noite e acabava saciado com os resumos de três minutos por jogo. Para o adolescente que ansiava por imagens de pontapé na bola, o mundo de hoje é um banquete pantagruélico que começa no Youtube e acaba na Sporttv.

Nesses tempos distantes, começou, a pouco e pouco, a insinuar-se a figura do comentador, que, para meu desespero, retardava o aparecimento do fundamental – as imagens dos jogos – com explicações para o resultado final, naquele tom de quem já sabia tudo antes de o jogo terminar. Já nesse tempo, o jogo começava a perder terreno para a conversa.

Com o aparecimento das televisões privadas, a televisão tornou-se cada vez pior, sempre pronta, até hoje, a explorar os sentimentos mais baixos e as pulsões mais rasteiras. Rapidamente foi inventado o conceito do programa sobre futebol, com comentadores ligados, normalmente, aos três grandes. Num mundo minimamente sério, a televisão poderia servir, também, para fazer um pouco de pedagogia. Na realidade, estes programas servem para levar a casa das pessoas as mesmas figuras tristes que qualquer um de nós é capaz de fazer num café, entre amigos e adversários, gritando grandes penalidades a nosso favor e chamando virilidade a agressões perpetradas pelos nossos.

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Dicionário do futebolês – o árbitro não quis ver

Diante de uma falta que se torna evidente na décima repetição em câmara lenta, são muitos os comentadores, de filiação clubística assumida ou não, que sentenciam: “O árbitro não quis ver.” Não é a única frase que corresponde a um processo de intenções no universo do comentário futebolístico. Os comentadores são, muitas vezes, autênticas cassandras que adivinham os mais secretos pensamentos de tudo quanto é participante no mundo da bola pontapeada, pelo que também não é menos frequente assistirmos à tradução quase simultânea dos gestos de um treinador, cujo significado pode ser desconhecido para o comum dos telespectadores, mas não é segredo para os adivinhos que tudo sabem e tudo vêem.

Já se sabe que o futebol português reflecte a mentalidade imaturamente lusa que atribui sempre as culpas aos outros, sendo o árbitro o bode expiatório preferido. Num contexto como este, uma frase destas é de uma irresponsabilidade absoluta, porque reforça a ideia de que o árbitro é, sempre, alguém mal-intencionado que escolhe as faltas que apita, a não ser que se engane a nosso favor: nesse caso, o árbitro é apenas humano e, por uma única vez, fomos beneficiados.

Dicionário do futebolês – não podemos sofrer golos desta maneira

Os agentes do futebol passam, hoje em dia, mais tempo a dar entrevistas do que a treinar ou a jogar. Esperar-se-ia que a frequência com que o fazem permitisse melhorar a qualidade de comunicação, do mesmo modo que, em termos desportivos, a repetição é o caminho para a perfeição.

Ora, a verdade é que o futebolês corresponde a uma série de fórmulas que as sucessivas gerações se limitam a papaguear, ou seja, a repetir sem pensar. “Não podemos sofrer golos desta maneira” é uma dessas proposições que qualquer treinador insatisfeito com o resultado usa, compondo o ar desgostoso de um pai que sofre os desmandos dos filhos. Esta fórmula é usada para designar quase todos os tipos de golo, embora ocorra preferencialmente na referência ao já analisado “golo para lá da hora”, que é um golo que pode ser marcado, mas nunca sofrido. [Read more…]

Dicionário do futebolês – chutar sem direcção

Se o golo é o sal do futebol, o remate será o saleiro, o que, aliás, dá outro sentido ao nome do jovem goleador sportinguista que é, também, o primeiro bebé-proveta português, fiquem a saber.

O remate, como qualquer outro acto futebolístico, tem como agente o homem, o que faz com que na sua essência esteja a imperfeição, pelo que um jogo está cheio de remates imperfeitos, como o Inferno está pejado de boas intenções. O remate defeituoso é, afinal, o inferno do avançado, porque, num terreno tão vigiado como é o de jogo, é sempre uma dor de alma assistir ao espectáculo que é ver a bola a tomar outra direcção que não a da baliza, até porque não se sabe quando ou mesmo se voltará a haver outra oportunidade de alvejar o último reduto do inimigo.

Os comentadores televisivos costumam chamar a este acontecimento “remate sem direcção”, o que vem contrariar as leis da Física, pois toda a bola pontapeada irá sempre numa certa direcção, mesmo que não seja a direcção certa.

 

Dicionário do futebolês – falhou o remate

Chamar remate a um pontapé terá nascido de uma impropriedade vocabular, uma vez que, na realidade, remate significa fim e o fim do futebol não é rematar, é introduzir a bola na baliza adversária. O remate impropriamente dito é, apenas, uma das várias maneiras de contribuir para o remate de uma jogada.

Quando a bola não vai no sentido da baliza ou é cortada por um defesa, os comentadores dizem que se trata de uma “tentativa de remate”, o que os coloca na dupla situação de terem razão sem saber e de não terem razão, sabendo.

Na realidade, os comentadores não associam remate ao significado original da palavra. Se assim fosse, qualquer pontapé com o objectivo de atingir a baliza seria, efectivamente, uma tentativa de remate, sendo que o remate desejado de qualquer jogada é o golo.

A verdade é que remate se transformou, há muito, em pontapé na bola com o objectivo de entrar na baliza adversária. Ora, sendo assim, se um jogador acerta na bola com a intenção de atingir a baliza, houve remate. Se a bola foi ou não na direcção da baliza, é outra história.

Se um pontapé na bola é sempre um remate, vá ou não na direcção da baliza, não faz sentido chamar tentativa de remate àquilo que é, efectivamente, um remate. Seria o mesmo que chamar tentativa de murro a um murro que, por acaso, não esmurrasse devidamente.

Uma tentativa de remate deveria ser, quando muito, o chamado “pontapé na atmosfera”, algo correspondente a um dos gestos mais ridículos que podem acontecer a qualquer praticante e que consiste no momento em que o futebolista acerta com toda a força no ar, quando o objectivo era acertar na bola. Na minha juventude, o comentário habitual a este gesto era o humilhante “Amanhã, vai chover.”, num exercício de humor que fazia antever consequências meteorológicas na falta de jeito de tanto pontapé incompetente.

 

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Dicionário do futebolês – marcou para lá da hora

Ganhasse eu cinco euros sempre que esta frase é proferida e já tinha comprado um clube de futebol, com árbitros incluídos. Trata-se de mais um momento criado pela magia dos comentadores de futebol: o golo para lá dos noventa minutos, que é mais do que uma hora, em jogos sem prolongamento, entenda-se. É por isso que é estranhamente possível ouvir dizer que um golo foi marcado aos 93 minutos, por exemplo.

Fosse eu ainda menos versado no fenómeno futebolístico do que já sou e ficaria a pensar que isto do golo para além da hora poderia acontecer quando um jogador manhoso, por volta das três da manhã, reentrasse sozinho no estádio e marcasse um golo, “apanhando a defesa adversária a dormir”, outra expressão futebolesa que ganharia, agora, um sentido muito mais aceitável. Aliás, no dia seguinte, o treinador, na presença da equipa, iria rever o vídeo – não do jogo mas das câmaras de segurança do estádio –, onde se poderia ver o furtivo marcador do golo tardio, e iria urrar na direcção dos defesas: “Olha pa esta merda! Até parecia que estavam a dormir, porra!”

Traduzindo para português, marcar para além da hora corresponde ao acto de marcar um golo durante o tempo de compensação decidido pelo árbitro, sendo que esse tempo se deve à necessidade de que o jogo de futebol dure, exactamente, noventa minutos. Consequentemente, e descontando a hipótese de o árbitro se distrair ou enganar, qualquer golo que seja marcado depois da hora não poderá ser válido e qualquer golo marcado dentro do tempo de compensação não será marcado para lá da hora.

No vídeo que se segue, o jogador que ia marcar golo não percebe como é possível o árbitro apitar para o fim da primeira parte só porque a primeira parte acabou.

 

Dicionário do futebolês – remate intencional

Imagine-se: um jogador, num dos raros momentos em que, por mérito próprio ou demérito alheio, tem alguns segundos para escolher o lado para onde vai rematar e lança a bola em arco ao poste mais distante. Seja golo ou não, há fortes probabilidades de o comentador de serviço considerar que se tratou de um “remate intencional”.

A partir do momento em que a expressão “remate espontâneo” teve direito à vida, na outra face da moeda teria de estar, logicamente, o “remate intencional”. Forças de expressão, já se sabe: na primeira, por absurdo, pretende acentuar-se a rapidez do movimento; na segunda, sai reforçado o facto de o gesto ser mais elaborado, graças ao aumento improvável do espaço e do tempo, dois factores reduzidos ao mínimo no futebol moderno, feito de pressões constantes e marcações ferozes. No meio desta selva em que vinte e dois homens se combatem numa mesma trincheira diminuta, é precioso aquele jogador que consegue pensar mais depressa, suscitando o comentário que define os melhores: “Parece que é fácil!”

Inspirando-nos em Orwell, o que nos permite aceitar mais facilmente o absurdo, poderemos dizer que todos os remates são intencionais, mas uns são mais intencionais que os outros. No vídeo que se segue, há remates e passes intencionais com fartura, ou não tivesse sido Rui Costa um jogador com tão boas intenções.

 

Dicionário do futebolês – remate espontâneo

A expressão em análise é habitualmente utilizada para comentar a situação em que um jogador resolve rematar o mais rapidamente possível, com o objectivo de não permitir ou dificultar a reacção do oponente. É o que fez maravilhosamente Van Basten no vídeo que se exibe abaixo.

Ora, ser espontâneo implica suspender o raciocínio, o que transformaria o acto de rematar numa espécie de espasmo e não no resultado de uma deliberação que não deixa de o ser por ser rápida, como não deixamos de usar a razão ao responder prontamente a uma pergunta. Por muito repentino que possa ser, o acto de rematar não é algo que se possa fazer assim do pé para a mão e resulta, evidentemente, do treino e da repetição, o que quer dizer que é tanto mais rápido quanto mais treinado, ou seja, nada espontâneo. O próprio Fernando Pessoa, num momento de extrema parvoíce e rematado mau gosto, poderia ter criado uma quadra definitiva e definidora:

O futebolista é um rematador

Que remata tão de repente

Que chega a parecer um tremor

O remate que efectivamente

Não deixa, no entanto, de ser divertido imaginar o terreno de jogo povoado por futebolistas que não conseguissem controlar o que fazem as pernas. O marcador involuntário de um golo diria: “Não sei o que me aconteceu: eu estava ali quieto, a minha perna mexeu-se e rematou espontaneamente. Até hei-de pedir desculpa ao guarda-redes, que eu nem queria fazer aquilo.”

 

Dicionário do futebolês – roubar

Já se sabe que o “nosso” clube só pode perder por razões desonestas ou estranhas ou as duas juntas. De qualquer modo, vai tudo dar ao mesmo, porque aquilo que o adepto considerar estranho é desonesto. Já se sabe, “somos sempre roubados” ou “roubadinhos”. Também já aprendemos, em sessões anteriores, que os autores dos maiores roubos são (ou estão ligados a) os clubes que estiverem em primeiro lugar, o que quer dizer que há gente que, muitas vezes, só consegue roubar durante uma semana, como acontece com algumas agremiações que alcançam o topo da tabela, enquanto os candidatos ao título, os futuros ladrões, se distraem com alguns empates iniciais, vítimas de assaltos por parte de senhores que deviam usar o apito ou a bandeirinha noutras partes do corpo.

Como reage o adepto ganhador ao conviver com tais agressões ao bom nome do seu clube? Num plano ideal, deveria ficar ofendido, bater no peito, urrando honestidades e, no limite, afastar-se de convivas tão indesejáveis ou convidar os invejosos a virem até à rua se forem homens. Talvez em países civilizados isso aconteça, mas, em Portugal, a testosterona é doutro calibre. Aqui, o adepto do clube acusado de latrocínio, cercado por uma matilha de derrotados, recosta-se na cadeira, compõe um sorriso cínico e orgulhoso e sentencia superior: “Ó pá, vocês nem roubar sabem!” [Read more…]

Dicionário do futebolês – estamos a incomodar muita gente

Em Portugal, todos os clubes que ocupem qualquer lugar que não seja o primeiro da tabela classificativa (outra pérola do futebolês) são vítimas evidentes de uma conspiração que envolve árbitros, árbitros auxiliares, delegados ao jogo, dirigentes desportivos, polícias a cavalo, dois batalhões de artilharia, alguns deuses menores e pequenos crocodilos. Se não fosse toda uma série de acontecimentos, entidades e pessoas, todos os clubes que não estão em primeiro lugar, estariam, obviamente, em primeiro lugar. Por sua vez, o clube que está em primeiro lugar deve esse dúbio privilégio a uma série de “interesses instalados”, não havendo, nunca, a possibilidade de ocupar tal posição por mérito, mas apenas porque “está tudo comprado” e “está a ser levado ao colo”. É claro que este mesmo clube, mal perca o primeiro lugar, passará a integrar o coro dos roubados, injustiçados e espoliados. [Read more…]

Dicionário do futebolês – pode ser perigoso

Justa ou injustamente, o árbitro assinala um livre directo perto da meia-lua, a dois metros da linha da grande-área. A equipa punida terá de se colocar a quase dez metros da bola e só se pode aproximar desta depois de ser tocada. O guarda-redes será obrigado a aproximar-se de um dos postes, deixando o resto da baliza sob a protecção da barreira, sabendo que dificilmente terá tempo de reacção se a bola passar por cima dos colegas e for em direcção ao poste de que ficou mais distante. Como se não bastassem todas estas facilidades, a tarefa de marcar estes livres é sempre entregue a jogadores que têm a enervante mania de colocar a bola onde querem. Neste momento, quase invariavelmente, os comentadores gritam: “Pode ser perigoso!”

Era neste momento que o Manuel Dias, meu companheiro revoltado de tantas horas televisivas, deixava escapar três palavrões e chamava “analfabeto” ao autor do comentário. Tentarei reproduzir a explicação que ele deu uma vez, a propósito desta manifestação de iliteracia futebolística: “Imagina que vou a passar na ponte da Arrábida e há um gajo que sobe para o muro de protecção. Faz algum sentido eu dizer-lhe ‘Ó amigo, veja lá que isso pode ser perigoso!’? Não, c*****, se o gajo está lá em cima, não pode ser perigoso, é perigoso!” [Read more…]

Dicionário do futebolês – permitiu a defesa do guarda-redes

Não marcar golos é uma das actividades mais praticadas no futebol, apesar da baliza enorme, dos vinte e dois jogadores, de um campo com um mínimo de noventa metros de comprimento e quarenta e cinco de largura e dos intermináveis noventa minutos de jogo, durante os quais, em princípio, seria possível que cada equipa marcasse entre trinta a quarenta golos. O guarda-redes é um dos maiores obstáculos para que isso aconteça, graças, por exemplo, àquele privilégio revoltante de poder usar as mãos dentro da grande área, com a vantagem adicional de ser um maricas dentro da pequena área, onde nem sequer pode sofrer uma carga pequenina que seja (a pequena área é, no fundo, uma zona onde ao guarda-redes se aplicam regras de basquetebol). Para além disso, a grande área é uma região extremamente populosa, habitada por gente tão intratável como os defesas e os médios defensivos, pessoas programadas para traumatizar, se necessário, pontas-de-lança, extremos, médios e outros mal-intencionados.

Ora, dizer que um determinado jogador “permitiu a defesa do guarda-redes” dá a impressão de que o marcador do golo que, afinal, não entrou resolveu ser simpático com o adversário, talvez indicando com antecedência para que lado ia rematar ou esperando, cavalheiro, que este se lançasse para um lado, endereçando-lhe a bola para as mãos. Para além disso, o guarda-redes fica reduzido a um jogador que vive dos favores alheios, um trapo sem méritos que se limita a defender porque lho permitiram.

Não se espera que um comentador de futebol seja frio, mas num jogo em que o golo é um metal raro, há que valorizar quem o descobre. Uma tal afirmação, por constituir uma ironia, deve ser usada com muita parcimónia, servindo para comentar um daqueles lances em fosse mesmo impossível falhar (mesmo sabendo que isso não existe) e não, como acontece frequentemente, em remates frouxos de fora da área ou em lances com mérito evidente dos guarda-redes. Vejam como Cardozo e Saleiro permitem a defesa dos guarda-redes, esses inúteis.

Adepto

 

O futebol é responsável por uma das maiores mutações do mundo contemporâneo: a transformação do ser humano em adepto. Aparentemente, o segundo parece pertencer à mesma espécie do primeiro, mas as semelhanças exteriores disfarçam mal as enormes diferenças essenciais. Trata-se de uma transformação semelhante à dos vampiros que estão na moda, tirando a parte dos caninos desenvolvidos, embora com a mesma sede de sangue.

 O homem é um indivíduo. O adepto não existe enquanto indivíduo e, por isso, nunca usa a primeira pessoa do singular. Se o fizer, não estará a ser adepto, podendo, inclusivamente, ser posto de lado pelos restantes elementos da tribo. Aliás, um dos primeiros sinais da transformação do homem comum em adepto é, exactamente, a passagem do “eu” ao “nós”, como se pode verificar no exemplo que se segue em que o cidadão ainda pré-adepto pede uma cerveja ao filho, no momento em que o árbitro marca um penalty contra a nossa equipa: “Ó filho, chega-ME aí uma cerveja. Pronto! Já ESTAMOS a ser roubados!”.

O adepto diz, portanto, “ganhámos” ou “somos os maiores”, entre muitas outras expressões sempre na primeira pessoa do plural. Só há uma palavra que um adepto nunca pronuncia: “perdemos”; em seu lugar, surgirá sempre uma expressão como “fomos roubados”. Aliás, mesmo quando “ganhámos”, “fomos roubados”, o que dá às vitórias um sabor semelhante às épicas batalhas travadas pelos reis fundadores com mais mouros do que estrelas tem o céu. Mesmo que, por vezes, a “nossa” equipa ganhe à custa de um erro de arbitragem, esse será um acontecimento tão fugaz como a passagem do cometa Halley e constituirá uma fraquíssima compensação para os milhares de vezes em que “fomos roubados”. [Read more…]

Dicionário do Futebolês – saltar mais alto

Na maioria das vezes em que há um golo de cabeça, a explicação mais utilizada é “Fulano saltou mais alto”. Rui Veloso chega mesmo a cantar o voo de Jardel sobre os centrais.
A verdade é que se cabecear dependesse apenas ou sobretudo da capacidade de elevação, Javier Sottomayor teria sido ponta-de-lança. Se ser alto fosse suficiente para se ser um bom cabeceador, Shaquille O’Neal poderia ser um dos melhores. Se os atributos físicos fossem tão determinantes, um certo Martin Pringle que passou pelo Benfica teria sido um dos maiores cabeceadores de todos os tempos, em vez de ter sido uma dor de cabeça para os benfiquistas. No entanto, para se jogar bem de cabeça é fundamental saber usar a cabeça.

Dicionário de Futebolês – Árbitro

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Embora seja uma entidade fundamental no futebol, a palavra raramente é utilizada na língua futebolesa. Para o adepto, o árbitro é quase sempre, entre outros mimos, filho de uma mulher de vida fácil. Para jogadores e treinadores, a avaliar pela leitura labial a que a magia da câmara lenta nos dá acesso, o árbitro é, curiosamente, filho da mesma mulher. É fácil prever que, no futuro, possamos assistir ao seguinte diálogo entre dois adeptos do mesmo clube:

– Este árbitro já nos está a roubar…

– Quem é que está a roubar?!

– O filho da puta!

– Ah, o árbitro! Tu não te sabes explicar!

Se, em Português, tratar alguém por “senhor” é sinal de respeito, em Futebolês, a mesma palavra aplicada ao árbitro é antacâmara ou substituto de palavrão. Efectivamente, nos estádios, o vocativo “ó senhor árbitro!”, normalmente, antecede, em poucos minutos, as referências à profissão mais antiga do mundo desempenhada pela mãe do juiz. Entre os frequentadores dos inúmeros painéis televisivos constituídos por adeptos comentadores, o árbitro é tanto mais tratado por “senhor” quanto mais prejuízos tenha causado ao clube de quem esteja no uso da palavra. Conclui-se, portanto, que, em futebolês, “senhor” é equivalente a “filho da puta”.

No mundo da comunicação social futebolesa, muito mais importante que as transmissões dos jogos é a quantidade de tempo que uma multidão de comentadores passa a prever e a explicar as “incidências do jogo”. Sempre que algum dos comentadores é parte interessada, o árbitro é filho da mãe porque é mãe de todas as derrotas. No caso do clube vitorioso, o próprio triunfo é alcançado apesar das aleivosias cometidas – sempre intencionalmente – pelo árbitro.

De acordo com as leis do futebol, o jogo disputa-se entre dois grupos de 11 jogadores; as leis do futebolês estipulam que o principal adversário de qualquer equipa é o árbitro.

Dicionário de Futebolês – prefácio

capa_para_pirulito_Bola_de_futebolGosto tanto de futebol que chego a gostar mais de futebol do que do Benfica, o que, tendo em conta os últimos 20-30 anos, só pode ser saudável. Não renego a necessária irracionalidade com que o clubismo deva ser vivido, mas, como em muitas outras coisas na minha vida, procuro não ceder à estupidez, especialmente se estiver em público, porque acredito que há coisas que só devemos fazer ou dizer no recato do nosso lar. É por isso que, encerrado na sala com a Sporttv, deixo escapar palavreado impróprio, especialmente nas muitas ocasiões que o meu clube me tem proporcionado para me revoltar ou para me entristecer.

Devo esta atitude quase correcta ao meu pai, que, nos inúmeros jogos a que assistimos, nunca se exaltou a não ser com a qualidade do futebol, nunca lhe tendo ouvido um insulto a nenhum dos intervenientes no espectáculo. Também por isso, nos estádios, sou de uma discrição a toda a prova, até porque, ainda por cima, a irracionalidade agressiva que aí campeia é algo que me desagrada visceralmente e, por prudência cobarde, parto sempre do princípio de que não vale a pena arriscar o palminho de cara que Deus me deu, que não é nada de especial, mas não é para estragar.

Ao longo destes anos como espectador e ocasional candidato a atleta, tenho-me deliciado com comportamentos e linguagens que, podendo ser perigosos, não deixam de ser cómicos. Nos últimos anos, aliás, partilhei essa paixão com um amigo, entretanto falecido, o jornalista Manuel Dias, que juntava à paixão pelo Futebol Clube do Porto uma imensa cultura nascida de uma vida profissional intensíssima, com destaque para os anos que passou n’ O Primeiro de Janeiro (e muito a propósito, no dia de hoje, amigo de José Maria Pedroto). Um dos nossos passatempos preferidos consistia em assistir às transmissões televisivas, comentando não só o jogo, mas também – e muito – o linguajar futebolês, cultivado por comentadores, treinadores, dirigentes e até espectadores. [Read more…]