A poesia do neo-realismo (Poesia & etc.)

Há críticos e historiadores da literatura que consideram que o neo-realismo em Portugal se caracteriza essencialmente pelo discurso ficcional. Há quem seja mesmo da opinião de que não existe uma poesia neo-realista (Mário Sacramento, por exemplo) É uma questão de perspectiva. Caso se esteja a falar numa forma tipicamente neo-realista de fazer poesia, então talvez essa forma não exista. Porém, para lá da tessitura formal, há outros aspectos a considerar.

O fulcro vital do neo-realismo não reside na forma. Encontra-se na denúncia da injustiça social e da repressão política, típicas dos regimes autoritários de direita que governavam uma parte substancial da Europa no final da década de 30, quando o movimento começou a afirmar-se em Portugal. A depressão económica, a Guerra Civil de Espanha, preanunciando a II Guerra Mundial, a dicotomia fascismo-marxismo, constituem elementos indissociáveis da génese do movimento que, definido sinteticamente, constituiu uma transposição para a arte em geral e para a literatura em particular de uma dinâmica subsidiária do materialismo-dialéctico. No plano histórico, representa, como salientou Óscar Lopes, um fenómeno semelhante ao da Geração de 70. Porque as épocas de grandes clivagens políticas e sociais, desencadeiam geralmente novas formas literárias e artísticas.

A Geração de 70, ou geração de Coimbra foi como que um eco da grande crise europeia gerada pela guerra franco-prussiana e pela Comuna de Paris. Nas suas formulações, os escritores dessa geração, ultrapassando o socialismo utópico de Saint-Simon, Fourier e Proudhon, revolucionaram várias dimensões da cultura portuguesa, da política à literatura, onde a renovação se manifestou com a introdução do Realismo. [Read more…]

A máquina do tempo: José Gomes Ferreira – um «lisboeta» nascido no Porto – 1

Hoje vamos viajar ao longo da vida de um grande escritor – José Gomes Ferreira. Nascido, em 1900, no Porto, «premonitoriamente na Rua das Musas», como se diz no vídeo, freguesia de Santo Ildefonso, viveu em Lisboa a partir dos quatro anos. E, tal como Camilo Castelo Branco, nascido em Lisboa, foi um homem e um escritor do Norte, José Gomes Ferreira, foi um homem e um intelectual de Lisboa. «A minha Aventura Poética começou aí por volta de 1908, tinha eu os meus oito anos, no dia em que reparei (ou procedi como se reparasse) na existência das palavras».

 

O fragmento da entrevista conduzida por Eduardo do Prado Coelho, bem como a leitura do actor João Mota do texto autobiográfico, são elucidativos. A intervenção política começou também cedo: com dez anos, em 4 de Outubro de 1910, na véspera de a República ser proclamada, veio para a rua, com um bando de miúdos, prendendo num cabo de vassoura uma bandeira verde e vermelha feita de papel de seda, onde colou com letras recortadas um vibrante «Viva a República!». O pai, democrata e republicano que viria a ser deputado por Lisboa, teve por certo influência na precocidade com que adquiriu consciência política .

 

 

Morou na Vila Rodrigues, na Calçada do Monte Agudo onde no final da década de 20 nasceu o Bairro das Colónias. Muitos anos depois, em 1958, soube que a escritora Irene Lisboa morara também na Calçada do Monte Agudo, na Vila Rodrigues, em casa pegada à sua. Numa conversa em casa de José, poucos meses antes do falecimento da escritora, descobriram essa vizinhança e que o «Zeca» que Irene ouvia chamar, era a mãe do poeta querendo saber onde parava o filho traquina, sempre empoleirado em muros ou trepando a nespereiras.

 

Depois de uma má experiência no Liceu Camões, passou para o Gil Vicente, onde teve como professor Leonardo Coimbra, com quem estudou os poetas saudosistas. E outros mestres distintos: Newton de Macedo, Damião Peres, Câmara Reys… Tornou-se amigo de todos ou de quase todos. Dirigiu a revista Ressurreição – «Revista de Arte e Vida Mental», na qual Fernando Pessoa colaborou com o soneto Abdicação. Em 1918 publicou o seu livro de estreia, o poemário Lírios do Monte, obra que retirou da sua bibliografia.

 

A música foi outra das suas paixões. Inspirado no romance Os Meus Amores, de Trindade Coelho, compôs um poema sinfónico, Idílio Rústico, que se estreou em 1918 no Teatro Politeama executado por uma orquestra dirigida por David de Sousa. Quando abandonou a via musical, Luís de Freitas Branco disse ter-se perdido a esperança de um notável compositor.

 

Foi também neste ano que se filiou na Liga da Mocidade Republicana e queimou no Café Gelo um retrato de Sidónio. «E todavia quando, empurrado por Leonardo Coimbra e dentro da coerência da linha paterna, entrei no coro prestativo contra o histérico consulado de Sidónio Pais, nem de longe suspeitava a que ponto chegava a minha carência de vocação para a acção política.»

 

À breve ditadura sidonista encerrada com o assassínio do «presidente-rei», em 14 de Dezembro, seguiu-se a ameaça da Monarquia do Norte – Em 19 de Janeiro de 1919, os monárquicos encabeçados por Paiva Couceiro, proclamaram no Porto a monarquia. Quase todo o Norte do País e uma parte da Beira-Alta aderiu à sublevação. Em Lisboa, a guarnição de Monsanto, revoltou-se também contra a República. O nosso José, alistou-se no Batalhão Académico Republicano e, após breve treino militar em Tancos, participou na breve guerra civil que assolou o País. No Porto, a 13 de Fevereiro, eclodiu um movimento republicano chefiado por Sarmento Pimentel. Quatro dias depois, o último bastião monárquico, em Vila Real foi vencido. O episódio da Monarquia do Norte terminara. José voltou à Faculdade de Direito.

 

Os Cafés da Baixa lisboeta eram, nas primeiras décadas do século XX, centros de discussão, sedes de tertúlias artísticas e políticas. Ali se criavam revistas, se combinavam conspirações, se projectavam obras literárias. José Gomes Ferreira foi, por estes anos 20, assíduo frequentador do Martinho, do Portugal, do Gelo, da Brasileira, do Chiado… habitats do sonho e do pesadelo que os cafés eram naqueles anos vinte e continuaram a ser até que, pelos anos sessenta, começaram a ser «reconvertidos», reciclados – bancos, companhias de seguros, agências de viagens, cafetarias, pizzarias…

 

1921 foi o ano em que publicou Longe, outra colectânea de poemas que viria a considerar obra menor. Porém terá surpresas. Mais de dez anos depois, Soeiro Pereira Gomes dir-lhe-á: «A minha mulher e eu namorámos através do Longe…» e Fernando Lopes-Graça, que comprara o livrinho na Feira do Livro em 1942, musicou três sonetilhos. Se serviram para um grande escritor namorar e para um grande musicólogo os musicar, os poemas não podiam ser tão maus como ele julgara.

 

Em Novembro de 1925 foi nomeado cônsul de Portugal em Kristiansund, na Noruega. «Por fortuna não passei de cônsul de 4ª classe» (…) «e fora de todas as carreiras». No Porto, embarcou no paquete Sicília, rumo a Oslo. No comboio de Oslo para Trondjem, atravessando planícies de neve, escreveu: «A pior solidão é a que me espera agora: a de ter de esconder a minha verdadeira personalidade. Ai de mim se não conseguir aparentar a banalidade altiva dos medíocres! Tomar-me-ão por parvo.»

 

Aprendeu a língua norueguesa, que lhe soava «como uma arcada de violoncelo». Ao fim de dez meses lia jornais com desembaraço e, com a ajuda de dicionário, conseguia ler romances policiais. Mais seis meses e começou a mergulhar em Ibsen, Björnson, Alexandre Killand, Knut Hamsum. Aproveitou a solidão para de novo compor música – «meia dúzia de ninharias desprovidas de ânsias de futuro», diz com modéstia.

 

As cartas dos amigos mitigavam as saudades de Lisboa: «Por aqui tudo velho. Continuo a encontrar o Fortunato, continuam as tardes na Bertrand – o mesmo de sempre!», dizia Ferreira de Castro em Abril de 1926. «Lisboa está linda. As olaias floresceram mais cedo…» afirmava-lhe Alfredo Brochado pela mesma altura. No São João desse ano, depois do Movimento de 28 de Maio, Brochado perguntava: «Você já sabe que vivemos em regime de ditadura?» Já sabia. E assim passou o «interregno norueguês», como designou estes cinco anos.

 

(Continua)