A poesia do neo-realismo (Poesia & etc.)

Há críticos e historiadores da literatura que consideram que o neo-realismo em Portugal se caracteriza essencialmente pelo discurso ficcional. Há quem seja mesmo da opinião de que não existe uma poesia neo-realista (Mário Sacramento, por exemplo) É uma questão de perspectiva. Caso se esteja a falar numa forma tipicamente neo-realista de fazer poesia, então talvez essa forma não exista. Porém, para lá da tessitura formal, há outros aspectos a considerar.

O fulcro vital do neo-realismo não reside na forma. Encontra-se na denúncia da injustiça social e da repressão política, típicas dos regimes autoritários de direita que governavam uma parte substancial da Europa no final da década de 30, quando o movimento começou a afirmar-se em Portugal. A depressão económica, a Guerra Civil de Espanha, preanunciando a II Guerra Mundial, a dicotomia fascismo-marxismo, constituem elementos indissociáveis da génese do movimento que, definido sinteticamente, constituiu uma transposição para a arte em geral e para a literatura em particular de uma dinâmica subsidiária do materialismo-dialéctico. No plano histórico, representa, como salientou Óscar Lopes, um fenómeno semelhante ao da Geração de 70. Porque as épocas de grandes clivagens políticas e sociais, desencadeiam geralmente novas formas literárias e artísticas.

A Geração de 70, ou geração de Coimbra foi como que um eco da grande crise europeia gerada pela guerra franco-prussiana e pela Comuna de Paris. Nas suas formulações, os escritores dessa geração, ultrapassando o socialismo utópico de Saint-Simon, Fourier e Proudhon, revolucionaram várias dimensões da cultura portuguesa, da política à literatura, onde a renovação se manifestou com a introdução do Realismo.

Eça de Queirós, Antero de Quental, Oliveira Martins e outros, desencadeando a sua luta com o confronto com os ultra românticos do “Bom senso e do Bom gosto”, reflectiram nas suas obras o transpor desse limiar que deixava para trás o Romantismo e punha o escritor e o artista face à luz de uma nova realidade.

Na sua conferência do Casino, Eça em «A Literatura Nova – O Realismo como nova expressão de arte», colocou a sua tese dentro do espírito revolucionário, concluindo-a com a condenação do Romantismo, acusando-o de atraiçoar a revolução e de corromper os costumes. «Ou se há-de tornar realista ou irá até à extinção completa».

Ferreira de Castro com Emigrantes (1926) e A Selva (1930), as obras iniciais de Jorge Amado, bem como as de Graciliano Ramos ou Lins do Rego, constituem como que uma proto-história do movimento. Fernando Namora, Joaquim Namorado, Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes, Carlos de Oliveira, Vergílio Ferreira, nas suas primeiras obras, Mário Dionísio e Manuel da Fonseca, são os seus pioneiros.

A revista coimbrã Vértice, cuja publicação se iniciou em 1942, é associada à matriz do movimento, embora se reconheça que outros contributos vieram, nomeadamente da Seara Nova. Como diz Eduardo Lourenço: «É a esta revista dos anos 40, à Vértice que lenta, mas firmemente – até por ausência de competidores – se descobre e se propõe como “compagnon de route” (expressão pouco conhecida então) de um “neo-realismo” que era sua referência».

Na poesia, pode considerar-se Álvaro Feijó (1916-1941) como um precursor da poesia neo-realista. Porém, a utopia socialista está sempre presente na poesia dos poetas neo-realistas; quando denunciam o cinzento quotidiano vivido sob a ditadura, pois sob essa escrita, como num palimsesto, pode ler-se a cor viva do futuro sonhado. Existe, quanto a mim, uma poesia neo-realista que se define pela temática. Formalmente, é multiforme. Se a obra poética de Manuel da Fonseca constitui um paradigma, vê-se que ela é subsidiária de muitos contributos, empréstimos por assim dizer, do surrealismo e, inclusive, do ponto em que o gongorismo de Federico García Lorca e o surrealismo se encontram.

A poesia de Manuel da Fonseca, embora pela sua temática se integre na filosofia do movimento, usa uma linguagem rica, muito próxima da de Federico García Lorca que, como se sabe, era rica, ornada de metáforas. A lírica de Manuel da Fonseca (e a sua novelística também) rompe com o despojamento formal que constituía uma das imagens de marca do neo-realismo, um movimento que por esse mundo fora era designado por realismo-socialista.

Fernando Namora, outro dos pioneiros da poesia do movimento com os poemas de As Frias Madrugadas (1938), parece, apesar de tudo, estar mais próximo da estética e dos cânones. Carlos de Oliveira é outro dos escritores que, do ponto de vista formal, se afasta da «norma». A existência de um «estilo literário neo-realista» não é visível, senão talvez em epígonos e em escritores menores a quem a crítica rotulou de «neo-realistas», não raramente dando ao termo um sentido pejorativo.

Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes, Fernando Namora, Carlos de Oliveira, Mário Dionísio, Joaquim Namorado, José Gomes Ferreira, Manuel da Fonseca, era gente, toda ela com um universo e um estilo próprios. Todos irmanados no objectivo de denunciar as injustiças sociais, a repressão política, todos diferentes na forma de o fazer.

Detendo-nos no poema de Manuel da Fonseca, “Domingo”, que Mário Viegas tão bem dizia, entre os três primeiros versos – “Quando chega o domingo,/faço tenção de todas as coisas mais belas/que um homem pode fazer na vida.”, e os três últimos – “Domingo que vem,/eu vou fazer as coisas mais belas/que um homem pode fazer na vida!”, existe todo um universo de frustrações, oportunismos, sujeições, exploração – o mundo capitalista descrito cruamente:”Há mais amargura nisto/ que em toda a História das Guerras./Partindo deste princípio,/que os economistas desconhecem ou fingem desconhecer,/eu podia destruir esta civilização capitalista, que inventou o domingo”.

Por isso, o círculo aparentemente vicioso que, com estes seis versos se abre e se fecha sobre uma realidade monótona vestindo uma sociedade injusta e mesmo antropofágica, pode também ter uma leitura optimista – no futuro tudo será diferente. “Notícias do bloqueio”, de Egito Gonçalves, e “A Invenção do Amor”, de Daniel Filipe, depois de nos descreverem universos distópicos em que até os sentimentos mais íntimos são vigiados, terminam com sinais de que a situação pode ser invertida. Egito Gonçalves, depois de descrever a situação desesperada que se vive na cidade termina com “e a esperança reproduz-se”.; Daniel Filipe termina de maneira semelhante: “Mas um grito de esperança/inconsequente vem/do fundo da noite envolver a cidade/au bout du chagrin une fenêtre ouverte/une fenêtre eclairée)

E nesta fórmula em que a luz se divisa sob as trevas, se encontra a pedra angular do neo-realismo, particularmente da sua poesia.

Comments


  1. Gostei do blog, Parabéns!
    Espero que não se importe de o ter anexado.


  2. Excelente artigo


  3. Bem dito. No entanto, os mais entusiastas do neo-realismo, sempre esqueceram o ultra-neo-realismo vivido no seu sistema. Em plena década de 30, as imagens da vida nas cidades e campos da URSS bem podiam ter obrigado a uma reflexão. 50 anos mais tarde, o neo-realismo assentava que nem uma luva ao sistema romeno, búlgaro, leste-alemão e soviético. A pobreza endémica, a vigilância bufesca, a carestia, o total cercear do protesto, o nivelamento por baixo e a pouca ou nenhuma mobilidade social fora do Partido. Eles lá sabiam do que falavam.

  4. Carlos Loures says:

    O neo-realismo foi (e é) um movimento literário e artístico. Definia-se, nas suas origens, pela recusa da realidade vivida nos países dominados por ditaduras nos anos 30 e 40, sobretudo. Da recusa da realidade que viviam, inferia-se a crença numa outra realidade redentora. Nem todos os neo-realistas estavam politicamente vinculados ao comunismo. Mas, insisto, é um movimento literário e deve ser analisado na óptica da crítica literária. Obrigado pelo seu comentário, Nuno. Agradeço também aos anteriores comentadores.

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